A fotógrafa

A fotógrafa Maria Eduarda Tavares (à esquerda) clicou a abertura e os encontros da II Mostra Faróis do Cinema. Os posts recentes já traziam fotos de sua lavra. Aqui vai mais uma pequena seleção de momentos eternizados por ela na Caixa Cultural-RJ.

Boas Festas para todos os amigos dos Faróis. Eles voltam a ser publicados em março de 2012.

Foto: Maria Eduarda Tavares

Neville D'Almeida e Rosane Svartman

Foto: Maria Eduarda Tavares

Luiz Carlos Lacerda e Emmanuel Cavalcanti

Foto: Maria Eduarda Tavares Coquetel de abertura
Foto: Maria Eduarda Tavares Carlos Alberto Mattos, José Joffily, Carlo Mossy e Olga Pereira Costa

Foto: Maria Eduarda Tavares Ricardo Miranda

Foto: Maria Eduarda Tavares
Octavio Bezerra e Marcelo Laffitte

Foto: Maria Eduarda Tavares

Patricia Rebello

Foto: Maria Eduarda Tavares Malu De Martino

Foto: Maria Eduarda Tavares Carlos Diegues e Carlos Alberto Mattos

Foto: Maria Eduarda TavaresPaula Alves, Betina Pons, Marcelo Lffitte, Mariana Bezerra e Carlos Alberto Mattos na noite de abertura

Foto: Maria Eduarda TavaresOctavio Bezerra, Zezé Motta, Mariana Bezerra, Carlos Alberto Mattos e Betina Pons

Foto: Maria Eduarda TavaresVinicius Reis, Carlos Alberto Mattos, José Joffily e o técnico Rildo

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Do cinema como exercício de liberdade

Foto: Maria Eduarda Tavares

O desejo de liberdade que leva à transgressão, a descoberta do que é ser livre por estar à margem. Foram estes os sentimentos dominantes na mesa do último encontro da segunda edição da Mostra Faróis do Cinema, que reuniu os cineastas Neville D’Almeida e Marcelo Laffitte. “Talvez eu seja um pouco marginal como os meus personagens”, disse Laffitte, “talvez seja uma forma que eu encontrei de falar de mim mesmo”. Nascido e criado em Volta Redonda, filho de mãe separada (“em meados dos anos 1960, eu não era o Marcelo, era o filho da desquitada”), ele disse se identificar com os personagens de seus filmes, que saem de suas origens em busca dos sonhos. “Eu também sou de uma cidade pequena, do interior, que veio para o Rio de Janeiro para estudar, para ser alguém”. Valores que ele identifica em Bete Balanço, filme que foi sua porta de entrada na carreira do cinema – foi assistente da produtora Tizuka Yamazaki. “É um filme que está na minha cabeça, e que retorna em diversos momentos, surgindo no meio dos meus próprios filmes”, comentou.

Foto: Maria Eduarda TavaresJá Neville D’Almeida carrega na fala a experiência da censura, da incompreensão, da dificuldade em exercer o pensamento durante o período de ditadura no Brasil, os anos 1970. “Eu fazia filmes em um momento onde não se podia fazer nada, onde diversos realizadores abriram mão da liberdade de expressão para viabilizar suas produções. Eu não”. Talvez por isso a experiência de realizar Mangue Bangue em 1971 seja tão marcante – é um caso raro de realizador apontando um filme de sua própria autoria como farol. “Eu tive que ir editar esse filme em Londres, aqui não seria possível”. O filme fala ao coração do diretor porque faz parte de sua própria transformação como cineasta: “eu o incluí entre os meus faróis porque a experiência de realizá-lo, e mesmo participar em algumas cenas, teve um impacto muito grande, mexeu comigo. A liberdade utilizada para fazer esse filme foi muito importante. Tudo mudou, a forma de filmar, de dirigir atores, passei a exigir muito mais de tudo e de todos, e de mim, especialmente”.

As listas dos dois diretores revelam, a um primeiro olhar, duas construções bastante heterogêneas entre si. Como apontou o moderador Carlos Alberto Mattos, se a lista de Neville é composta por filmes que primam pela transgressão não apenas estética mas temática, a de Marcelo parece ser mais “comportada”. Entretanto, a diferença desaparece à luz dos discursos que as defendem. “Talvez a minha lista seja mesmo comportada”, disse Laffitte, “mas eu fui criado em uma sociedade muito comportada. Cresci em Volta Redonda, e não tinha acesso aos filmes do circuito de arte carioca”. E completa: “quando eu comecei a fazer esta lista, pensei nos filmes que realmente mudaram o curso da minha vida no momento em que os assisti”. O que explica a presença de Tom & Jerry, Meu Pé de Laranja Lima e Minha Namorada na lista de faróis. “Eu fiquei responsável por organizar o cineclube durante uma semana de atividades artísticas e precisava de um longa em 16mm. Fizemos uma vaquinha e eu entrei em contato com a Embrafilme. Minha Namorada era o único filme que a gente teve dinheiro pra alugar”, recorda, rindo.

Já a lista de Neville, um tanto mais sóbria em comparação com a de Marcelo, é carregada de nobres títulos da história do cinema que se singularizaram por rupturas e abalos sísmicos na forma de contar uma história. “Sempre achei que o cinema é uma arte livre, e esses filmes são livres, transgressores. A liberdade que eles encenam, a capacidade de expressar o sentimento, é emocionante. O cinema é muito moralista, mas estes filmes me conquistaram porque se recusam a se enquadrar naquilo que todo mundo espera. Rompem com modelos e saem radicalmente das regras”, disse. Para Neville, Sangue Mineiro, de 1929, já antecipava as temáticas afetivas e sociais que as novelas hoje colocam no ar; Orfeu é o casamento entre cinema e poesia. “Em Ivan, o Terrível, Eisenstein consegue o fenômeno de ir de um plano geral com 100 mil figurantes para um close no olhar do protagonista. Fico arrepiado, me emociono só de lembrar”, comentou ele, comovido. “São filmes de um impacto total. Vejo o cinema com muito amor, muita intensidade, observo plano a plano para entender a lógica do diretor.”

Foto: Maria Eduarda TavaresFoi também na observação do cinema como produção de subjetividade que os campos do documentário e da ficção se cruzaram no cinema de Marcelo Laffitte. “Quero colocar no filme o mundo que eu vejo”, disse ele, “e isso é muito subjetivo porque combina o que a gente vê com aquilo que a gente sonha, que quer ver. Parte dessa frase pode ser confirmada em Um Dia, um Circo, realizado por Laffitte em 2007. “Uma ficção não deixa de ser um documentário sobre a sociedade em que a gente vive. Quando faço um documentário, sinto como se estivesse fazendo uma ficção, já que todos sempre se transformam em personagem diante de uma câmera”. Algo que ficou transparente a seus olhos quando assistiu a Conterrâneos Velhos de Guerra, de Vladimir Carvalho (um de seus faróis). “Quando vi aquelas pessoas contando versões diferentes de uma mesma história, compreendi imediatamente como iria fazer meu curta de ficção Vox Populi“.

Neville D’Almeida recorda-se do impacto de seu dia número 1 no cinema, ainda menino. “Meu tio tinha uma bombonière na frente de um cinema em Barra Mansa”, disse, “e certo dia eu perguntei para ele o que era o cinema. Ele me mandou entrar e ver. Me lembro de puxar a cortina de veludo à entrada da sala de projeção e dar de cara, impressa em uma parede descascada, com a imagem de Rita Hayworth em Gilda. Me apaixonei por aquela mulher, por aquela imagem de mulher e descobri que era isso que eu queria fazer”. A experiência desembocou numa frutífera relação com o campo das artes. De um improvável casamento entre Gilda e Hélio Oiticica, surgiu uma vertente de pura potência na obra de Neville, o cruzamento com as artes contemporâneas. “Conheci o Hélio durante uma projeção do meu filme Jardim de Guerra, que nunca foi exibido comercialmente e que me fez perder tudo, do apartamento às calças, para terminá-lo”. Oiticica comentou com Neville ter ficado encantado com a maneira como ele utilizou o suporte dos slides dentro do filme. “Eu nem tinha me dado conta até ele falar, mas depois comecei a pensar e descobri que o filme em slide conseguia reunir fotonovela, fotografia, revista em quadrinhos e desenho animado. Era o começo de uma nova linguagem. Ao lado de Oiticica, Neville D’Almeida realizou alguns dos mais importantes trabalhos da arte contemporânea, como as Cosmococas . Um encontro de titãs, de dois grandes faróis da cultura brasileira.

Foto: Maria Eduarda Tavares

Mariana Bezerra, Neville D'Almeida, Marcelo Laffitte, Patricia Rebello e Carlos Alberto Mattos

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Neville e Laffitte no papo de hoje

Neville D’Almeida e Marcelo Laffitte fazem hoje (sábado) o quarto e último encontro da II Mostra Faróis do Cinema. Eis a programação do dia, na Caixa Cultural RJ:

Sala 1
16h00 – BETE BALANÇO
18h00 – Encontro com NEVILLE D’ALMEIDA & MARCELO LAFFITTE
20h00 – A DAMA DO LOTAÇÃO
Sala 2
16h00 – UN CHANT D’AMOUR + A IDADE DE OURO
20h00 – ELVIS E MADONA

Vale recordar o que disse Neville sobre Un Chant d’Amour, de Jean Genet, e A Idade do Ouro, de Buñuel, dois de seus filmes-faróis incluídos na mostra:

“Genet, que não era cineasta, foi capaz de fazer um dos filmes mais mitológicos da história do cinema. A coragem, a liberdade, a sensibilidade deste filme feito em 1950 tiveram um impacto brutal. Foi interditado, proibido e ameaçado de ter os negativos queimados. Genial.”

A Idade do Ouro é um filme que abre o espírito e a mente para as possibilidades que a criação e a invenção podem proporcionar. É a relação e a simbiose entre a arte, neste caso, com Salvador Dalí, e o cinema de Buñuel. O Surrealismo, a liberdade, a iconoclastia e a crítica social são os traços mais fortes deste que foi o segundo filme sonoro do cineasta.

Marcelo Laffitte assim se referiu a Bete Balanço, de Lael Rodrigues:

“Era 1982 e eu cursava Economia na UERJ. Quase por acaso, virei assistente de produção de Tizuka Yamazaki no primeiro longa-metragem do saudoso Lael Rodrigues. O filme custou cerca de 100 mil dólares, tinha uma equipe composta de menos de 20 pessoas e fez milhões de espectadores. Antes de rodar qualquer trabalho, de institucionais ao longa, sempre pensei: ‘Como seria no Bete Balanço?’”

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Curto-circuito de literatura-cinema-arte

por Patricia Rebello

Foto: Maria Eduarda Tavares

Ele acha que roteiro é uma peça de literatura, no sentido de que informa o desenvolvimento de uma história. Ela acha que roteiro não tem nada de literário, e que é a descrição dos enquadramentos do filme, o quinhão de literatura que se transforma em imagem. Ele veio da literatura. Ela do vídeo. Ele chegou no cinema através das sessões de desenho animado do Tom & Jerry no Metro Copacabana. Ela não gosta de desenhos animados, e entrou na tela grande pela porta dos museus de arte. E talvez porque a beleza no cinema esteja na promoção de encontros entre heterogeneidades e diferenças, Luiz Carlos Lacerda, o “Bigode”, e Malu De Martino são grandes amigos. E foi justamente a cumplicidade nas diferenças que deu o tom do terceiro encontro da II Mostra Faróis do Cinema, onde o curto-circuito entre cinema, literatura e arte, o cinema americano e, claro, filmes que “dão tesão de fazer cinema”, foram discutidos com muito bom-humor.

Mas não são apenas as diferenças que unem os dois realizadores. Logo de saída, o mediador Carlos Alberto Mattos lançou uma provocação à mesa: “Será que, de uma maneira inversamente proporcional ao espaço ocupado no mundo inteiro, o cinema americano não influencia tanto assim o cinema brasileiro?”. Malu e Bigode concordaram que existe, sim, uma influência do cinema americano por aqui. Mas de um certo cinema. “Cinema independente americano é independente como em qualquer lugar do mundo. Acho que o cinema deles tem a ver com o trabalho da gente”, disse Malu. Já Bigode comentou sobre o impacto da descoberta dos filmes de Orson Welles e Andy Warhol. “E de Billy Wilder, que fazia filmes de estúdio sem deixar a coisa ficar apenas na indústria”, disse ele, lembrando de Quanto Mais Quente Melhor (“foi um filme precursor ao colocar a questão da sexualidade de uma forma amoral”, disse). Vale dizer que um dos filmes-faróis de Malu De Martino é uma das pérolas da cinematografia wilderiana, Crepúsculo dos Deuses. “A primeira cena do filme”, disse ela, “que mostra o cadáver na piscina gera um tremendo impacto quando você descobre que é o cadáver que vai narrar a história. Isso é cinema”, conta. Vale também lembrar que For All, o filme de Bigode que está em cartaz na Mostra, gira em torno da presença de americanos em uma base militar em Natal (RN) durante a II Guerra Mundial, e todas as (novas) relações morais e amorais que se estabelecem a partir do contato. “Me interessa a transgressão”, disse Bigode.

Foto: Maria Eduarda TavaresFilho de João Tinoco de Freitas, importante produtor e financiador de filmes nos anos 1950, seria natural pensar que o cinema era uma carta marcada no destino de Bigode. Mas não. “Eu achava um saco ficar nos bastidores. Nunca pensei em fazer cinema. Meu primeiro contato foi durante a filmagem de Balança Mas Não Cai, baseado em um programa de rádio. Um dia eu fui ao estúdio e me botaram em uma fila para ganhar presente do Primo Rico (Paulo Gracindo). A gente pegava o saquinho e saía de cena. Quando eu abri o “presente”, descobri que tinha só serragem. Pensei: o cinema é isso então, mentiroso e pobre“. Com o bom-humor que lhe é peculiar, Bigode continuou: “Eu escutava o povo lá de casa falar de uma das produções de papai, Rio 40 Graus, e achava que era coisa de previsão do tempo, não entendia nada”. A luz do projetor só foi acender para ele no dia que, acompanhado do pai, foi assistir a Ladrões de Bicicleta, um de seus faróis. “Eu escutava todo mundo falar sobre esse filme nas reuniões de papai com o grupo que, mais tarde, iria formar o Cinema Novo. Um cinema político, que falasse da realidade social. Nessa época, o cinema que eu conhecia era entretenimento. Quando vi Ladrões de Bicicleta, percebi que o cinema também serve para contar histórias pequenas, humanas, a partir de uma realidade terrível. Foi um impacto enorme compreender que podia fazer algo mais que contar histórias, sem precisar, necessariamente, servir a uma causa”. Uma explicação semelhante justifica a presença da animação Sinfonia Amazônica na sua lista de faróis. “Acostumado que estava com os desenhos de Tom & Jerry, me surpreendi ao ver curumins, araras e papagaios falando português, elementos do folclore brasileiro, na tela. O cinema tornava isso possível.”

Foto: Maria Eduarda TavaresJá Malu faz parte de uma geração que abriu caminho a golpes de foice durante a década de 1980, quando o hiato entre o cinema nacional e o grande público foi estendido ao extremo. Ela começou na fotografia, em São Paulo, lapidada nos trabalhos com fotógrafos de peso, como Vânia Toledo, Paulo Rocha e Alberto Travassos. “Foi assim até o Marcelo Machado, um dos fundadores da produtora independente Olhar Eletrônico, me convencer a ir para Nova York estudar vídeo”. O curso de seis meses se estendeu por um período de dois anos. De volta ao Brasil, Malu desembarcou na nova cultura do vídeo que começava a proliferar. Fez videoclipes, vídeos de arte sobre instalações e exposições. Foi desse circuito entre arte e vídeo que surgiu sua primeira produção para o cinema, Ismael & Adalgisa, uma mistura de documentário e ficção sobre o triângulo afetivo-intelectual entre Ismael e Adalgisa Nery e Murilo Mendes. “Tenho muito interesse no cinema como representação plástica, e o cinema expressionista alemão é a síntese dessa ideia”, disse ela ao comentar um de seus faróis, O Gabinete do Dr. Caligari.

A relação entre cinema e literatura também tem forte apelo nos dois diretores. “Sou um leitor compulsivo”, disse Bigode, acrescentando que a mistura entre escrita e imagem, a ênfase no discurso, foram os elementos que o aproximaram de realizadores como Jean-Luc Godard (Pierrot le Fou é um de seus faróis). “Me sinto atraído pela maneira como o Godard desrespeita regras estabelecidas, os cânones sagrados”. Esse gosto pela transgressão também se estende na relação entre literatura e cinema. “A realidade é tão mais cinematográfica que não é possível permanecer prisioneiro da realidade dos livros. Mas as pessoas são caretas, gostam de uma camisa de força”, comentou. “É preciso fazer o cinema abrir as portas para a realidade, para daí então ele se transformar em outra coisa”. Foi exatamente o que impressionou Malu ao cotejar a leitura de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, ao filme de mesmo título adaptado para o cinema por Nelson Pereira dos Santos. “Quando você lê um livro, você está fazendo suas próprias imagens, projetando seus sentimentos, fazendo seu filminho pessoal. Da primeira vez que vi Vidas Secas fiquei encantada em como era possível transformar aquele filminho que era só meu em algo que podia alcançar muito mais gente.

Patricia Rebello

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Malu e Bigode na mesa dos Faróis

Hoje (quinta) é dia de conversar com Malu De Martino e Luiz Carlos Lacerda, o Bigode, em mais um encontro da II Mostra Faróis do Cinema, às 18 horas na Caixa Cultural RJ. Com mediação do crítico Carlos Alberto Mattos, eles certamente vão falar de temas que lhes são caros, como diversidade sexual e relações entre cinema, artes plásticas e literatura.

Sobre Pierrot le Fou, de Jean-Luc Godard, seu filme-farol exibido na mostra, Bigode assim se expressou:

“Essa versão de Une Saison en Enfer, de Rimbaud, me arrebatou. Não sei se pelo anarquismo de seu discurso cinematográfico, pelo descumprimento das regrinhas de continuidade, de edição, da quebra de uma hierarquia convencional de decupagem, ou pela imediata identificação com a poesia do jovem Rimbaud – meu poeta preferido.”

Já Malu comentou dessa forma o thriller Amor Bandido, de Bruno Barreto:

“Gosto do filme principalmente pela maneira de mostrar Copacabana. Me impactou  muito a atuação do Paulo Gracindo. Acho um filme “sujo” no bom sentido, e o casamento dessa estética com o submundo me pareceu muito adequada.”

A programação do dia é a seguinte:

(sala 1)
16h00 – PIERROT LE FOU
18h00 – Encontro com LUIZ CARLOS LACERDA & MALU DE MARTINO
20h00 – FOR ALL – O TRAMPOLIM DA VITÓRIA
(sala 2)
16h00 – AMOR BANDIDO
20h00 – COMO ESQUECER

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Mostra entra em sua segunda semana

A II Mostra Faróis do Cinema está entrando em sua segunda semana na Caixa Cultural RJ. O programa de hoje (terça) é um pequeno festival de curtas e médias dos realizadores farolados nesta edição. Veja a seguir:

(sala 1)
16h00 – Ismael & Adalgisa + Sexualidades (de Malu DeMartino)
18h00 – Anjos Urbanos + Crepúsculo Republicanos + Cabeça de Copacabana (de Rosane Svartman)
20h00 – Vox Populi + Banquete + Ópera Curta + Fúria (de Marcelo Laffitte)

(sala 2)
16h00 – Um Dia, Um Circo (de Marcelo Laffitte)
18h00 – Copa Mixta + Alô Tetéia (José Joffily) + Gentileza (Vinícius Reis)
20h00 – Vida Vertiginosa + Dor Secreta + O Acendedor de Lampiões + O Sereno Desespero (de Luiz Carlos Lacerda)

Foto: Maria Eduarda Tavares

Carlos Alberto Mattos, Neville D'Almeida, Rosane Svartman, Cacá Diegues e Marcelo Laffitte

A primeira semana teve uma abertura animada com Xica da Silva e duas excelentes conversas sobre cinefilia, memória e criação cinematográfica. Uma delas reuniu Cacá Diegues e Rosane Svartman; a outra, José Joffily e Vinícius Reis. Nesta semana, mais quatro cineastas vão estar presentes para trocar ideias sobre suas admirações, influências e seu próprio trabalho. Sempre às 18 horas, na quinta-feira teremos Luiz Carlos Lacerda (For All – O Trampolim da Vitória) e Malu DeMartino (Como Esquecer); e no sábado, Neville D’Almeida (A Dama do Lotação) e Marcelo Laffitte (Elvis e Madona).

Acompanhe a programação e veja as sinopses dos filmes no menu acima (Mostra 2011). Leia também as coberturas de cada encontro pela crítica e pesquisadora Patricia Rebello. A mostra vai até domingo. Os ingressos custam 2 reais, com meia entrada a 1 real. Os encontros têm entrada franca.

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As primeiras vezes

por Patricia Rebello

Foto: Maria Eduarda Tavares

Ricardo Miranda, da plateia, conversa com Vincius Reis, Carlos Alberto Mattos e José Joffily

A primeira vez a gente nunca esquece. Até porque a vida oferece várias “primeiras vezes”. E as melhores são sempre aquelas que surgem em brechas especiais no tempo, quando nos é permitido revisitar sentimentos, pessoas, cenas, músicas, filmes, e aparece a oportunidade de renovar a experiência. Walter Benjamin, o filósofo alemão que tinha o dom de enxergar essas brechas (na maioria das vezes, são elas que nos enxergam), escreveu que a origem, apesar de ser uma categoria totalmente histórica, não tem nada a ver com gênese. Origem, escreveu Benjamin, é algo que emerge do presente e da sua própria extinção. Origem como um ponto de quebra, onde não se sabe bem onde está o fim e o começo. Apenas se sabe que não é mais possível viver como antes.

O segundo encontro da Mostra Faróis do Cinema edição 2011 foi atravessado por esse sentimento, e apontou para uma das qualidades mais sublimes do cinema: a de viajante do tempo. Não apenas por iluminar que todo começo é sempre uma espécie de recomeço. Não apenas por promover o diálogo entre dois diretores de diferentes gerações, José Joffily e Vinícius Reis. Mas por apontar que, mais que contar histórias, cinema é sempre uma experiência de reencontro com imagens, sons e diálogos. “A maior vantagem que encontrei em envelhecer é o prazer de reencontrar obras e artistas ao longo da vida, e descobrir neles um encanto diferente. Ver e rever filmes é algo que faz parte da minha experiência de cinema”, disse José Joffily. Já Vinícius Reis atribui aos primeiros encontros com as obras os momentos iluminados de descoberta da vitalidade e do poder do cinema. Referindo-se a um de seus filmes-faróis, ele disse: “A Chinesa não é nem O filme do Godard, mas, no desejo de fazer parte daquele mundo, foi um filme que me mostrou que era possível fazer cinema. Mais que a história ou tema, era a potência do cinema que aparecia aos meus olhos”. Um sentimento que ele tornou a experimentar quando assistiu a Santo Forte, de Eduardo Coutinho. “Foi um filme que me fez rever Godard com olhos mais espertos”, comentou. Assim como Godard, disse Vinicius, Coutinho compreende perfeitamente o valor do som no cinema, o calibre dos ruídos, dos sons do mundo que invadem o filme. A mesma razão pela qual se sentiu atraído por O Pântano, de Lucrécia Martel.

Carlos Alberto Mattos, mediador do encontro, comentou que as listas de filmes-faróis enviados por Joffily e Reis se destacavam por expor a relação visceral dos diretores com o cinema. “Não é simplesmente uma lista de ‘filmes que eu gosto’, mas filmes que, em determinado momento, tocaram e modificaram a carreira”, comentou Mattos. “Alguns filmes a gente vê e revê, e vai redescobrindo”, disse Joffily. Foi o que aconteceu com Vidas Secas, romance de Graciliano Ramos adaptado para as tela por Nelson Pereira dos Santos, um dos faróis de Joffily. Ao longo dos anos, o diretor de Olhos Azuis (2009) alternou visitas ao livro e ao filme repetidas vezes, o que permitiu descobrir que a perfeição de cada um deles estava nos encontros e desencontros entre cinema e literatura. “Entendi que os dois eram muito bons e definitivos, cada um no seu suporte. Entendi também que não são os filmes que mudam, eles continuam os mesmos. A gente, e o mundo, é que muda. Por isso voltar aos filmes e às emoções é fundamental”.

Vinícius Reis viu E.T. – O extraterrestre, de Steven Spielberg, inúmeras vezes no Cine América, na Tijuca. “Descobri, com 11 anos, a força de ver um filme numa sala escura”. Bateu forte no diretor a cena, hoje clássica, das bicicletas voadoras. “Peguei carona numa daquelas bicicletas e estou voando até hoje!”, escreveu ele na lista de seus filmes-faróis. Talvez por isso em alguns momentos era possível duvidar se quem falava à mesa era o diretor de Praça Saens Peña (2009) ou o adolescente de espinhas no rosto e aparelho nos dentes que descobriu a força da juventude no cinema ao assistir A Idade da Terra, de Glauber Rocha. “O filme agiu como uma bomba de liberdade e expressão”, relembra. Mas a bomba só foi explodir mesmo quando ele descobriu os textos de Glauber – e juntamente com eles, se descobriu “colonizado” pelo cinema clássico americano. “Daí então, fui em busca de ferramentas para me ‘descolonizar’. Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade, foi o primeiro passo. Foi também o que me levou aos modernistas, aos romances, a Mário e Oswald de Andrade. Um processo pessoal de descolonização que ainda está inacabado…”, sorriu.

Foto: Maria Eduarda Tavares Em determinada altura, o mediador comentou uma característica de certas listas de filmes-faróis: as obras citadas podem ser bastante diferentes dos filmes que teriam sido iluminados, ou inspirados, por elas. “Será que cineasta e cinéfilo conseguem se misturar, será que as condições de fazer cinema permitem? Qual a distância entre cineasta e cinéfilo?”, lançou ele. Para José Joffily, mais que a questão estilística, são os temas que importam. “O tema da morte, hoje, me interessa muito mais que há 20 anos”, disse ele, que relacionou entre seus faróis Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman, “porque sempre me espantou alguém saber tanto da velhice tendo apenas 42 anos”. É também o interesse pelo tema das vocações que está por trás de seus documentários sobre o assunto. “A relação de autoria, aquilo que está por trás dos motivos para querer fazer um filme, seguir uma carreira, são questões que atravessam quem faz cinema, escreve livros e pinta quadros. Assim como também com a música, a política e a religião”.  Ao que acrescentou Vinícius Reis: “Não é uma ligação direta, mas algo como uma ligação subterrânea, uma inspiração. São Bernardo foi importante porque me comoveram a beleza da voz em off, a narração em primeira pessoa, aberta, cheia de reticências, os planos-sequência onde pela primeira vez tive a sensação de testemunhar o cinema se construindo na minha frente. Eu pensei que precisava fazer cinema para poder fazer coisas como aquelas”.

A tensão entre documentário e ficção também esteve presente numa mesa com dois diretores que transitam confortavelmente entre as duas formas de fazer cinema. “Por que o documentário espelha a verdade? O que o torna diferente de uma reportagem? Como ele manipula o real? Essa foi uma questão que era importante e que fazia sentido discutir à época”, disse Joffily, falando sobre Até a Última Gota, filme feito em grupo (no qual o próprio Joffily participou) em 1980 e que mistura documentário e ficção. “Tinha aquela coisa de ser jovem, ninguém tinha reunião nem agenda, o filme era feito em encontros e discussões”. Por isso, disse, Aruanda é um de seus faróis, “porque indicava um norte a ser seguido pelo cinema de vanguarda que queria representar o Brasil nas telas”.

Sair da imagem-clichê que predomina no imaginário foi também aquilo que levou Vinícius a filmar a Praça Saens Peña, no bairro da Tijuca, no Rio. “O carioca levanta muros pela cidade. Eu queria falar de um Rio que ninguém conhecia e, justamente, deslocar o clichê para o lugar daquilo que não é novo e com o qual nós mesmos, que moramos aqui, estamos deslocados”. Ou seja, proporcionar uma “primeira vez” pra muita gente que achava que já conhecia tudo.

Patricia Rebello

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Dia de Joffily e Vinícius

Hoje (sábado) é dia de bater papo com José Joffily e Vinícius Reis em mais um encontro da II Mostra Faróis do Cinema. Eis a programação do dia:

(sala 1)
16h00 – COPACABANA ME ENGANA
18h00 – Encontro com JOSÉ JOFFILY & VINÍCIUS REIS
20h00 – URUBUS E PAPAGAIOS
(sala 2)
15h45 – SÃO BERNARDO
20h00 – PRAÇA SAENS PEÑA

Copacabana me Engana, de Antonio Carlos Fontoura, é um dos filmes-faróis de José Joffily. Ele assim o comentou aqui no blog: 

“Me vi muito no filme, nos dois irmãos, naquela turma desnorteada. E nada melhor que as cenas do Paulo Gracindo determinado a humilhar o personagem do Carlo Mossy. Com essa intenção, o filme narra o passeio no carrão conversível, o porre e a volta para a maravilhosa Odete Lara, quando Gracindo devolve o jovem e derrotado concorrente. E de quebra, o filme ainda tem o Armando Costa como corroteirista e ator, fazendo uma memorável ponta de arruaceiro disposto a avacalhar com uma reunião de sindicato (pelo que me lembro de pelegos). Assim é na minha memória.”

Por sua vez, Vinícius Reis apontou São Bernardo, de Leon Hirszman, como um de seus faróis. E justificou:

“A força dos planos-sequências, a narração em off, Othon Bastos e Isabel Ribeiro arrasando; as diversas vozes do Caetano Veloso numa das mais belas trilhas do cinema brasileiro. Um filme que me levou a querer fazer cinema. Vi na cinemateca do MAM, início dos anos 1990.”

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Um brasileiro mambembe e uma menina do rio

por Patricia Rebello

Foto: Maria Eduarda Tavares

“A gente nunca sabe direito onde nasce um filme. Às vezes é uma frase, um personagem, uma música ou uma pessoa; mas esse eu sei. Bye-Bye Brasil não existiria não fosse a experiência do Cinema Novo”, disse Cacá Diegues logo no começo do primeiro encontro da segunda edição da Mostra Faróis do Cinema. Além do diretor de A Grande Cidade (1966), Rosane Svartman, diretora de Como Ser Solteiro (1998), retrato emblemático de uma certa cultura jovem carioca da zona sul do Rio nos anos 1990, e o crítico de cinema Carlos Alberto Mattos completavam uma mesa onde experiências e memória abriram espaço para um papo sobre música, Fellini, VHS e, claro, muito cinema.

As trajetórias de Cacá e Rosane se cruzaram pela primeira vez quando ela, estagiária de um programa na extinta TVE, no Rio de Janeiro, foi escolhida para fazer uma entrevista com o já respeitado diretor. Além da entrevista, a futura diretora de Desenrola (2011) conseguiu deixar nas mãos de Cacá Diegues o roteiro de seu primeiro curta-metragem. Tempos depois, veio o convite para escrever o roteiro de um dos quatro episódios de Veja Essa Canção, histórias de amor inspiradas em canções da MPB. Surgiu assim Drão, a partir da canção de Gilberto Gil de mesmo nome, e uma participação no filme como assistente. “Essa generosidade que o Cacá teve comigo é uma coisa que eu procuro repetir com as pessoas que me procuram para ler roteiros, pedir uma chance ou um conselho”.

Ambos os diretores se igualam no entusiasmo pela renovação da linguagem do cinema brasileiro que vem despontando desde meados da década de 1990 em favelas e comunidades de periferia. Rosane Svartman é uma das fundadoras do núcleo de cinema do Nós do Morro, na favela do Vidigal, no Rio de Janeiro. Cacá Diegues segue firme e forte acompanhando os desdobramentos do grupo de 5 x Favela – Agora por Nós Mesmos, filme dividido em episódios, produzido pelo diretor e que buscava radicalizar a proposta do projeto original: se o primeiro 5 x Favela, de 1962, foi produto de um grupo de jovens cinéfilos engajados na produção de um novo olhar sobre o Brasil, a “continuação” remete à apreensão da câmera pelo objeto desse olhar,  “agora por nós mesmos”. Por tudo isso, Rosane não hesita em dizer que sua relação com o diretor é “visceral”, porque foi através dele que ela entrou no cinema.

Foto: Maria Eduarda Tavares

Neville D'Almeida aplaude na plateia do encontro

Tanto Cacá quanto Rosane montaram a lista de seus faróis divididos entre o afeto despertado pelos filmes e a cumplicidade de cada título com sua própria obra. O escritor argentino Alan Pauls escreveu certa vez que “fazer listas é colocar ordem nos desejos”. Uma lista é tanto uma expressão legítima, como um desejo de se montar enquanto personagem de sua própria história. Talvez isso explique a convivência, ou crie a possibilidade, de Rio 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos, e La Strada, de Federico Fellini, em uma mesma lista. “A gente gostava de Fellini escondido”, comentou Cacá, bem humorado. Em seus filmes, Fellini só queria entender melhor o ser humano, continuou o diretor de Bye-Bye Brasil. Já a turma do Cinema Novo, da qual o próprio Cacá fez parte, queria “apenas” mudar o mundo com “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. “Fellini era mais modesto que o Cinema Novo”, disse com um sorriso de quem já aprendeu que o cinema apaixona pelo mundo que abre, mas conquista nos personagens que ficam.

Bem diferente dessa turma-que-queria-mudar-o-mundo, Rosane Svartman brotou de uma geração que, no máximo, queria com o cinema mudar a sua própria vida, “e olhe lá”. Foi uma galera que se formou no começo dos anos 1990, quando quase não se produzia no Brasil, e que demorou a conseguir fazer seu primeiro filme. Justamente por isso, disse ela, se acostumou a fazer de tudo um pouco: televisão, vídeo, publicidade, teatro. “Sou de uma geração que não viveu a eletricidade dos cineclubes, e que ficou ali meio perdida entre o VHS e o DVD”, comentou. As aulas de cinema brasileiro às terças-feiras de manhã no Cine Arte UFF foram a porta de entrada para filmes aos quais ela jamais teria acesso nos circuitos regulares. Foi, inclusive, onde ela assistiu pela primeira vez Bye-Bye Brasil, de Cacá Diegues, um dos faróis de sua carreira.

“Lembro exatamente do dia em que entrei com carteirinha falsificada no Cine Joia pra ver Menino do Rio (de Antônio Calmon)”, disse Rosane. “Foi a primeira vez que eu tive a sensação de que aqueles personagens se relacionavam comigo, e que ali era um lugar onde eu queria estar”. Fazer um cinema com o qual as pessoas pudessem se relacionar, estabelecer um diálogo entre o espectador e a história que está sendo contada na tela, transformar uma sessão de cinema em uma experiência de vida, uma partilha de sensibilidades, se transformou em norte para essa diretora, cuja lista de faróis guarda espaço tanto para as lágrimas que ela chorou assistindo a Peter Pan, de P.J. Hogan, quanto para a euforia de descobrir que o cinema possibilita viver em outro mundo, em outras galáxias e universos paralelos. “Mas não saberia dizer a exata força desses filmes nos meus próprios filmes. Eles vão se somando, e alguns vão ficando na cabeça”, concluiu.

“Eu não tive um Menino do Rio em minha vida”, disse Cacá. “Não havia nenhuma referência no cinema brasileiro quando eu comecei a ver meus primeiros filmes. Era na literatura brasileira e no cinema americano que eu encontrava minha inspiração”. E se Fellini e Nelson Pereira dos Santos convivem em harmonia na lista que tenta esculpir a “formação inaugural” de Cacá Diegues, a vida e os filmes trataram de lapidar as arestas da obra, eliminando os excessos e preservando aquilo que modificou e construiu o diretor. Para mim, disse Cacá, La Strada justifica a existência do cinema, é aquilo que me faz chorar. Mas apesar de retomar a temática do “filme-estrada” em Bye-Bye Brasil, em 1979, ele encontra bem pouca ressonância entre seu projeto e o do diretor italiano. “Em Bye Bye Brasil o que se passa à margem é mais importante do que o que está no leito da estrada. Os personagens são veículos para se conhecer o que está acontecendo do lado de fora da história que está sendo contada”, disse, acrescentando que os dias de filmagem da Caravana Rolidei pelo norte do Brasil lhe ofereceram um dos momentos de maior prazer em sua vida de cineasta. Deixar-se invadir pelo mundo, deixar que a realidade arrombe as portas da ficção e se instale no filme. “Não parto de teorias”, disse Cacá, “mas daquilo que eu vejo e que me inspira”. Seguindo faróis.

Patricia Rebello

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Cacá e Rosane no bate-papo

Teremos hoje (quinta) o primeiro encontro da II Mostra Faróis do Cinema. Às 18 horas, na Caixa Cultural RJ, Cacá Diegues e Rosane Svartman vão conversar sobre seus filmes e seus faróis, mediados pelo crítico e pesquisador Carlos Alberto Mattos.

Vale lembrar o que Cacá escreveu a propósito de La Strada (A Estrada da Vida), de Fellini, seu filme-farol programado na mostra:

“Sei que seria mais ‘intelectual’ e talvez mais respeitável citar outros filmes de Fellini, como A Doce Vida, quem sabe Amarcord ou sobretudo Oito e Meio, o filme querido de todos os cineastas. Mas A Estrada da Vida é um dos filmes que mais vejo até hoje e que me faz chorar francamente a cada vez que o vejo. Caetano Veloso diz, a propósito desse filme, que Fellini consegue o raro feito de ser “ao mesmo tempo sentimental, popular e grande artista”, uma coisa que não acontece nunca. Ou quase nunca. Um filme circense, por suas piruetas plásticas, pelo sentimentalismo dos personagens e pela dramaturgia populista assumida com tanta profundidade e dignidade. Esse céu, de onde Zampanó espera que lhe chegue alguma coisa, é o mesmo que traz à cena o magnífico corvo de Uccelacci e Uccellini, de Pier Paolo Pasolini, e a neve de meu Bye Bye Brasil.”

E também o que Rosane Svartman comentou a respeito do seu filme-farol Bye Bye Brasil, de Cacá:

“É um filme que me fez pensar o Brasil, as transformações culturais pelas quais, aliás, ainda estamos passando, de uma forma lúdica. Para mim assistir Bye, Bye Brasil ainda é embarcar em uma viagem numa espécie de bolha fugidia, certamente nostálgica, do entretenimento artesanal.”

A programação de hoje é a seguinte:

(sala 1)
16h00 – LA STRADA
18h00 – Encontro com CARLOS DIEGUES & ROSANE SVARTMAN
20h00 – XICA DA SILVA
(sala 2)
16h00 – BYE BYE BRASIL
20h00 – COMO SER SOLTEIRO

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A luz de Xica

Foto: Maria Eduarda TavaresCacá Diegues não foi, mas enviou de Recife um cumprimento em vídeo aos presentes na abertura da II Mostra Faróis do Cinema, ontem à noite na Caixa Cultural RJ. Mas Zezé Motta estava lá para fazer as honras da casa – ou melhor, do filme. Xica da Silva brilhou mais uma vez em cópia restaurada e arrancou muitos risos da plateia. A química entre Zezé e Walmor Chagas continua a apimentar essa fábula histórico-antropológica sobre a escrava sedutora que enredou o controlador de diamantes enviado de Portugal e tornou-se ela mesma senhora de mandos e poderes na Diamantina do século XVIII. O filme, patrulhado na época por mesclar comédia erótica e drama histórico, é um dos mais comunicativos e também de questões mais complexas na carreira de Cacá.

Foto: Maria Eduarda TavaresTambém estiveram presentes à inauguração da mostra as diretoras Rosane Svartman (foto à direita), Malu De Martino – ambas “faroladas” nesta edição -, Beth Formaggini e Eunice Gutman, o diretor Octavio Bezerra e o ator Emanuel Cavalcanti, entre outros convidados e público.

Xica da Silva repete hoje (quarta), quando a programação começa pra valer:

(sala 1)
16h00 – Anjos Urbanos + Crepúsculo Republicanos + Cabeça de Copacabana (curtas de Rosane Svartman)
18h00 – COMO SER SOLTEIRO, de Rosane Svartman
20h00 – BYE BYE BRASIL, de Cacá Diegues
(sala 2)
16h00 – COPACABANA ME ENGANA, de Antonio Carlos Fontoura
18h00 – XICA DA SILVA, de Cacá Diegues
20h00 – LA STRADA, de Federico Fellini

E amanhã (quinta), às 18 horas, o primeiro encontro da mostra, com Cacá Diegues e Rosane Svartman, mediados por Carlos Alberto Mattos.

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Começa a II Mostra

Com a exibição da cópia restaurada do clássico Xica da Silva, de Cacá Diegues, a Caixa Cultural RJ abre hoje (terça) a segunda edição da Mostra Faróis do Cinema. Como no ano passado, realizadores brasileiros vão conversar sobre sua obra e sobre aqueles filmes-faróis que inspiraram sua visão particular do cinema.

Leia o texto de apresentação da mostra

O elenco deste ano reúne diferentes gerações de cineastas, a saber: Cacá Diegues, José Joffily, Luiz Carlos Lacerda, Malu De Martino, Marcelo Laffitte, Neville D’Almeida, Rosane Svartman e Vinicius Reis. De cada um deles será exibido um longa e alguns curtas-metragens. Do outro lado  do espectro, entre os citados por eles em suas listas, teremos filmes de Antonio Carlos da Fontoura, Bruno Barreto, Federico Fellini, Jean Genet, Jean-Luc Godard, Lael Rodrigues, Leon Hirszman e Luís Buñuel.

Confira a programação completa

Veja as sinopses dos filmes

A curadoria este ano é de Marcelo Laffitte, um dos idealizadores originais da mostra. Os encontros dos cineastas em duplas serão mediados pelo crítico Carlos Alberto Mattos, criador e editor dos Faróis. Os ingressos para as sessões custam 2 reais, com meia-entrada a 1 real. Os encontros têm entrada franca.

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Faróis: Marcelo Laffitte

Um dos idealizadores da Mostra Faróis do Cinema, juntamente com Mariana Bezerra, e curador desta segunda edição, Marcelo Laffitte define-se como “um realizador”. Não só de filmes, mas de eventos como este. Ou de uma exposição interativa como Fernando Pimenta em Cartaz, apresentada recentemente no Oi Futuro de Ipanema. Ou, ainda, da mostra Noites de Chanchada, que vai recordar o gênero popular por excelência na Caixa Cultural RJ em 2012.

Por conta desse apetite plural, Laffitte já presidiu a Associação Brasileira de Documentaristas e laboriosamente construiu sua carreira em diversas funções técnicas e de produção nos sets de cinema. Como diretor, tem alguns curtas e médias dignos de figurar em antologias, como o rashomoniano Vox Populi (1997) e o documentário Um Dia, um Circo (2006). Com Mariza Leão, co-dirigiu outro doc memorável, Regatão, o Shopping da Selva.

O primeiro longa de ficção, Elvis e Madona, testemunhou seu interesse por personagens de exceção, mas não marginais, e por um vínculo de comunicação com o público que seja direto, mas não vulgar. A história de amor entre a entregadora de pizza homossexual que sonha em ser fotógrafa e o travesti que almeja seu grande show participou de mais de 50 festivais em cerca de 30 países e conquistou mais de 20 prêmios. Existe um argumento para Elvis e Madona 2, mas a decisão de filmá-lo ainda não está consolidada. Entre as ideias que fervilham na cabeça de Laffitte está a história ficcional de Salomé, grande estrela pornô que volta a sua cidadezinha natal e enfrenta a rejeição dos mesmos conterrâneos que a consumiam em filmes e revistas.

A seguir, podemos traçar um perfil bem fiel de Marcelo Laffitte a partir de suas escolhas para a lista de filmes-faróis. Escolhas de alguém que, às vezes literalmente, pega o cinema com as mãos:

“Minha primeira vontade foi de criar uma lista com os filmes de que mais gosto. Contudo, além de serem muitos, um filme que me agrada não é necessariamente um farol para mim. Então, esta lista é dos 10 filmes que mais mudaram a minha vida.

Tom & Jerry
Foi quando entrei pela primeira vez numa sala de cinema e me tornei um frequentador assíduo. No principal cinema da minha cidade, Volta Redonda, havia a matinê Tom & Jerry todo domingo às 10 horas. As filas eram gigantescas, com 600, 700 crianças, e o privilégio de estar lá era um poderoso instrumento de chantagem psicológica para todos os pais (“se brigar com seu irmão, não vai ver Tom & Jerry”). Pensando hoje, além de ser aplicado e viciado no prazer coletivo da sala escura, vejo que também foi um excelente exercício de linguagem cinematográfica, visto que todas as animações curtas que formavam a sessão eram mudas, permitindo que nos sentíssemos todos muito inteligentes entendendo as expressões, intenções, elipses, flashbakcs, etc. Os filmes de Charles Chaplin, Harold Lloyd e Buster Keaton que vi na TV também tiveram a mesma importância.

Meu Pé de Laranja Lima, de Aurélio Teixeira
Foi a primeira vez que chorei por um filme. Ao final, entendi que o cinema não era só diversão; ele poderia também questionar as relações humanas e familiares que começavam a nos incomodar enquanto seres pensantes (“meu pai é bravo, minha mãe é chata”).

O Homem do Sputnik, de Carlos Manga
Não vi essa comédia no cinema. Vi na TV, nas sessões da tarde da Tupi, Excelsior ou Globo, onde as chanchadas brasileiras com Grande Otelo, Ankito & Cia. disputavam território com Jerry Lewis, John Wayne e Elvis Presley. Para grande parte da minha geração, essas sessões serviram como uma espécie de vacina contra a filmebrasileirofobia que assolou o país a partir dos anos 1980.

Tommy – O Filme, de Ken Russell
Assisti umas cinco vezes. Foi a minha iniciação nos papos-cabeça pós-filme e, principalmente, no universo do rock. A partir deste filme, comecei uma pequena coleção que contava com LPs de Led Zeppelin, Deep Purple, Pink Floyd e Rick Wakeman.

Minha Namorada, de Zelito Viana e Armando Costa
No final dos anos 1970, eu andava com a turma de artistas de Volta Redonda. Um dia, eles organizaram o evento Chamada Geral, que era uma semana de noites artísticas de todas as áreas. Alguém lembrou que faltava o cinema e eu, que não sabia tocar violão, não era poeta e nem sabia interpretar, me ofereci para cuidar da sessão de cineclube. Era preciso um filme longa-metragem em 16mm, e tive meu primeiro contato com a Embrafilme. Fiz uma vaquinha com os amigos e consegui alugar Minha Namorada. Não sei não, mas acho que a minha escolha de curador foi o que o nosso dinheiro poderia pagar, e com certeza, haveria cena de mulher pelada. Peguei um ônibus, vim ao Rio, paguei em dinheiro e trouxe as latas 16mm debaixo do braço. Depois da sessão, que foi um fracasso retumbante de público com quatro pessoas, achei que queria fazer filmes.

Curtas brasileiros
Depois de ver o filme do Zelito e do Armando, passei a ir ao cinema com bem mais frequência para assisitir aos curtas brasileiros que eram exibidos antes dos longas estrangeiros. Fiz meu primeiro Super 8, um documentário de oito minutos chamado Nervos de Aço, sobre trabalhadores metalúrgicos que moravam em favelas. O ano era 1979.

Bye Bye Brasil, de Carlos Diegues
Vi umas três vezes no cinema. Muitos de meus amigos também viram e tínhamos longos debates sobre o filme. E ainda tinha a canção de Chico Buarque, de quem eu era tiete declarado. Pensei: “Quando crescer, eu quero fazer um filme como esse”. Neste ano, fui estudar Sociologia na PUC do Rio.

Bete Balanço, de Lael Rodrigues
Era 1982 e eu cursava Economia na UERJ. Quase por acaso, virei assistente de produção de Tizuka Yamazaki no primeiro longa-metragem do saudoso Lael Rodrigues. O filme custou cerca de 100 mil dólares, tinha uma equipe composta de menos de 20 pessoas e fez milhões de espectadores. Antes de rodar qualquer trabalho, de institucionais ao longa, sempre pensei: “Como seria no Bete Balanço?”

Veludo Azul, de David Lynch
As situações extraordinárias e os personagens bizarros me foram apresentados por David Lynch como uma crônica da normalidade, como se o mundo fosse exatamente daquele jeito. Todos os meus trabalhos, desde Vox Populi até Elvis & Madona, têm esse ingrediente.

Conterrâneos Velhos de Guerra, de Vladimir Carvalho
Até ver esse filme, eu achava que documentário era tudo verdade. Mas os depoimentos contraditórios sobre a morte dos candangos me mostraram que documentários poderiam ser usados para brincar com a verdade. Na mesma noite em que vi o filme, escrevi o roteiro de Vox Populi.

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Faróis: Rosane Svartman

Ela não se sente incomodada quando a rotulam como “cineasta de jovens” ou “cineasta carioca”. Responsável por filmes perfeitamente enquadrados nessa dupla moldura – Como Ser Solteiro e o recente Desenrola – e por roteiros próximos disso, como o da minissérie Confissões de Adolescente, Rosane Svartman até se sente lisonjeada quando esses rótulos funcionam como um adjetivo. “Mas não quando tentam nos reduzir”, ressalva.

O Rio de Janeiro, aliás, ficou bem distante do último trabalho da diretora. Na Amazônia para filmar Tainá 3 – A Origem, com lançamento previsto para o primeiro semestre de 2012, ela se viu diante de desafios inéditos. Da grande escala da produção à necessidade de lidar com crianças que precisavam parecer naturais no meio da floresta, em balões e sob climas ultra-tropicais, tudo foi diferente. “Agora posso encarar qualquer coisa”, saiu pensando.

Tainá 3 foi também a primeira vez que Rosane se viu sem sua parceira-quase-irmã Clélia Bessa, sócia na Raccord e que produziu com ela todos os seus filmes, desde o primeiro curta, Moleque (1990). Desde então, ela já dirigiu três minisséries documentais para a TV, entre elas a muito elogiada Quando Éramos Virgens; e a comédia romântica adulta Mais uma Vez Amor. Escreveu três peças de teatro e, com Lírio Ferreira, codirigiu uma, Eu te Amo, baseada no filme de Arnaldo Jabor. Essa última experiência lhe proporcionou uma nova perspectiva no trabalho com os atores, que foi a imersão prolongada. A peça começa em janeiro sua temporada paulista.

Há pouco ela mergulhou no universo de Hugo Carvana – com quem fez o curta O Cabeça de Copacabana – para escrever a série Os Bons Malandros para a TV Globo, juntamente com o próprio Carvana, Paulo Halm e José Lavigne. Uma continuação de Desenrola, com as personagens entrando na idade adulta, também não é estranha a seus planos para o futuro próximo. Além de tudo isso, Rosane continua ligada ao Núcleo de Cinema do Nós do Morro, do qual foi uma das fundadoras e hoje é dirigido por Luciana Bezerra.

A lista de filmes-faróis de Rosane Svartman deixa transparecer sua relação bem pessoal com as lembranças do cinema. Aqui e ali, uma maneira travessa de driblar o limite de 10 filmes e acrescentar mais algumas luzes que ficam piscando em sua memória:

A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen
É o meu Woody Allen predileto, mas é claro que também tem outros filmes dele incríveis. Mistura magia e humor de um jeito que para mim é emocionante, brincando com os conceitos de verdade, mentira, fantasia e realidade. Lendo o livro de entrevistas com ele, recentemente, percebi que na verdade a ideia de mergulhar em uma nova realidade também permeou contos do artista no início de sua carreira e, é claro, está também no excelente filme Meia Noite em Paris. E meu filme predileto da infância remota é O Mágico de Oz, não tem a ver? (não coube na lista).

Beijos Proibidos, de François Truffaut
Mas pode ser outro do personagem Antoine Doinel, Amor em Fuga ou outro clássico do autor, como Jules e Jim. Sou de uma geração que não viveu a eletricidade dos cineclubes, que exibiam e discutiam filmes de arte, e que também, infelizmente, não aproveitou os relançamentos de clássicos em VHS e posteriormente em DVD, etc. Quando entrei para a Universidade de Cinema, na UFF, aproveitei para me colocar a par,  junto com as excelentes aulas de História do Cinema com o professor João Luiz Vieira, dos grandes movimentos cinematográficos e seus filmes mais representativos. Encarei a tarefa como um desafio que envolveria mais um esforço pelo conhecimento do que exatamente prazer. Conhecer a Nouvelle Vague e o Truffaut foi uma grata surpresa. Os filmes são uma delícia, engraçados e inteligentes.

Bye, Bye Brasil, de Carlos Diegues
É um filme que me fez pensar o Brasil, as transformações culturais pelas quais, aliás, ainda estamos passando, de uma forma lúdica. Para mim assistir Bye, Bye Brasil ainda é embarcar em uma viagem numa espécie de bolha fugidia, certamente nostálgica, do entretenimento artesanal.

Menino do Rio, de Antônio Calmon
Lembro exatamente do dia em que entrei com carteirinha falsificada no Cine Jóia para ver o filme do qual todo mundo falava. Foi o primeiro filme brasileiro da minha adolescência e me fez rir, chorar, tudo junto. Lembro de muitas cenas em detalhes. Foi uma experiência tão especial que nem sei se tenho coragem de ver de novo.

Peter Pan, de P.J. Hogan
É um filme razoavelmente recente, que vi com meus filhos pequenos. Acho que é um dos poucos filmes dirigidos ao público infantil em que realmente embarquei com eles, torcendo, tudo isso (se for ver em DVD – não perca o final alternativo, mas aviso, é de chorar). É um filme que me deu vontade de dirigir para esse público também, já que antes do Tainá 3 eu ainda não tinha feito filmes para crianças, que meus filhos poderiam assistir.

Retratos da Vida (Les Uns et les Autres), de Claude Lelouch
É um filme que vi várias vezes numa certa época da vida. Minha família é descendente de imigrantes judeus, vindos da Europa, então é um filme que me faz voltar no tempo para tentar entender um pouco mais do que foi a guerra, como ela modificou a vida das pessoas.

Guerra nas Estrelas, de George Lucas
Desde criança gostei de ler livros que falam de outras possibilidades de existência, universos alternativos, paralelos, etc. Comecei a ver a série ainda bem garota e para mim talvez esse seja o maior exemplo do que o cinema hegemônico, clássico narrativo, pode suscitar no espectador, ou pelo menos em mim. Fiquei hipnotizada com robôs, espadas brilhantes, realmente uma viagem sensorial. Como andar de montanha russa.

La Boum – No Tempo dos Namorados, de Claude Pinoteau
A Juliana Lins, que escreveu comigo o Desenrola, também tem esse filme entre os seus prediletos e, para falar a verdade, acho que não lembro de mais ninguém que tenha sequer visto o filme além da gente. É mais um filme que marcou a minha adolescência. Me identifiquei muito com a personagem da Sophie Marceau, me deu vontade de contar minhas próprias histórias.

Se Meu Apartamento Falasse, de Billy Wilder
Mas poderiam ser tantos outros! Mais um artista que emociona muito com humor. O diálogo da Shirley MacLaine com seu amante ao telefone é absolutamente perfeito. Incrível, mas ele conseguiu realizar uma cena de telefone comovente.

A Primeira Noite de um Homem, de Mike Nichols
É um clássico das minhas aulas de cinema do Nós do Morro, até porque o storyboard está naquele livro Shot by Shot. É simplesmente um filme lindamente filmado, que mais uma vez mistura humor e emoção. Só para deixar claro: quase tirei esse filme da lista para colocar When Harry Met Sally, do Rob Reiner, no lugar. Claro que a direção não é genial como a do Nichols, mas o roteiro é muito bacana, popular, e adoro aquelas intervenções sob forma de depoimentos.

OK. Ficaram vários de fora, mas…

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Faróis: Neville D’Almeida

Foto: Ana TavaresTodas as vezes que pegou numa câmera, Neville D’Almeida usou-a para fustigar alguma coisa. Fosse a moral pequeno-burguesa, com suas adaptações de Nelson Rodrigues e Plínio Marcos, fossem os cânones de um cinema bem comportado e politicamente correto, com filmes como Jardim de Guerra e Piranhas no Asfalto. Do público conheceu tanto a indiferença quanto a adesão voluptuosa. A Dama do Lotação e Rio Babilônia estão entre os grandes hits de bilheteria do cinema brasileiro. Sua produção em Super 8 é uma das mais prolíficas dos anos 1970.

Por toda a carreira, Neville namorou também as artes visuais. Fotos, instalações e criações multimídia aparecem de vez em quando em espaços não apenas brasileiros. Agora mesmo seus Kayapoemas estão expostos na Bienal de Curitiba. Na de Veneza, ele representou o Brasil com a videoarte Verde Moreno. Ainda este ano lançará o livro Além Cinema, uma espécie de catálogo de sua obra nesses múltiplos campos, com muitas fotos e textos sobre o artista.

Projetos não lhe faltam e muitos já estão em andamento. Entre eles, as instalações Praia Carioca, Criaturas Estranhas e Redário – O Barco das Ilusões. No cinema, está captando fundos para levar às telas a peça A Frente Fria que a Chuva Traz, de Mario Bortolotto.

Mas pode-se dizer que, na cozinha criativa de Neville, os ingredientes principais têm sido a débacle da civilização indígena e a destruição da Amazônia. Sua instalação Tambamazônica, que esteve no Oi Futuro, vai para a Alemanha e talvez os EUA em 2012. Sobre esse tema, além de Verde Moreno e dos Kayapoemas, ele tem pronto já há quatro anos um longa-metragem, Maksuara – O Crepúsculo dos Deuses, e o roteiro de um outro: Bye Bye Amazônia, que ele define como “um épico sobre a morte anunciada da floresta”. Uma tragédia que, em sua previsão, vai atingir a próxima geração dentro de 20 ou 30 anos.

Dos seus futuros filmes, o que deve chegar primeiro às salas não tem índio nem floresta. É A Dama do Lotação II, cuja produção Neville espera deslanchar muito em breve. Ele evita anunciar quem vai ocupar o lugar de Sonia Braga. Limita-se a dizer que “tem umas cinco atrizes que podem vir a fazer”.

Os filmes-faróis de Neville D’Almeida são quase todos obras transgressoras em suas épocas e contextos de produção. Ele escolheu apenas sete filmes, o que pode soar cabalístico. Repare que apenas um deles é posterior a 1950 – e justamente um filme dele mesmo. Mangue Bangue (1971) tem história acidentada. Durante quase 40 anos foi dado como perdido. Reencontrado nos arquivos do MOMA de Nova York, é uma experiência pop underground rodada no Mangue, antiga zona de prostituição carioca.

Com a palavra, Neville:

“Está aqui a relação de sete grandes filmes que de alguma maneira causaram um grande impacto na história do cinema e que tive a sorte de poder conhecer.

Un Chant d’Amour, de Jean Genet
Genet, que não era cineasta, foi capaz de fazer um dos filmes mais mitológicos da história do cinema. A coragem, a liberdade, a sensibilidade deste filme feito em 1950 tiveram um impacto brutal. Foi interditado, proibido e ameaçado de ter os negativos queimados. Genial.

Limite, de Mário Peixoto
Filmado em 1930, é um dos filmes sobre o abismo, as profundezas da alma e da mente humana. Filme mudo, mas de grande eloquência, que mostra como o silêncio é comunicante. O filme teve repercussão mundial e Mário era um artista total.

Sangue Mineiro, de Humberto Mauro
O amor, a amizade, a paixão, a opressão já estão neste filme de 1929. O cineasta com simplicidade e elegância mostra nas imagens toda a complexidade do ser humano. A fotografia de Edgar Brasil é genial, unindo uma dupla de poetas que foi Mauro e Brasil.

Ivan o Terrível, de Serguei Eisenstein
O cinema épico, sem limites de distância ou de tempo, o campo aberto, milhares de pessoas, pessoa nenhuma. Dum plano geral com 100 mil figurantes ao close de um olhar. O artista, o tempo e o espaço.

Orfeu, de Jean Cocteau
O cinema e a poesia, este mundo e o outro mundo. Cocteau rasga o véu do Realismo e mergulha em profundidade na alma humana e nos mistérios do universo. Nunca o cinema e a poesia estiveram tão próximos. Num filme totalmente urbano e ao mesmo tempo virtual e Simbólico.

A Idade do Ouro, de Luis Buñuel
É um filme que abre o espírito e a mente para as possibilidades que a criação e a invenção podem proporcionar. É a relação e a simbiose entre a arte, neste caso, com Salvador Dalí, e o cinema de Buñuel. O Surrealismo, a liberdade, a iconoclastia e a crítica social são os traços mais fortes deste que foi o segundo filme sonoro do cineasta.

Mangue Bangue, de Neville D’Almeida
Após filmar em março de 1971 Mangue Bangue, senti um impacto brutal e total que me levou a só ter coragem de revelar o filme quase dois anos depois. A liberdade sem precedentes, a entrega total, a busca sem limites dos símbolos deste nosso mundo como: As drogas, A prostituição, A política, A poesia, O Mercado Financeiro, A Bolsa, O Amor, A nudez, O Capitalismo, O uso, O Abuso e o sentido da vida – todas essas coisas – estão no filme de forma avassaladora. Sem censura, sem pudor, sem culpa, sem hipocrisia, sem preconceito. Cada vez mais compreendo a influência dele nos meus trabalhos. Às vezes, penso no filme como se não o tivesse feito. Agradeço a Deus por ter feito”.

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Faróis: Malu De Martino

Como Esquecer, um bonito filme sobre perda e superação, transformou-se em cult da diversidade sexual e mantém um blog ativo com mais de 100 mil acessos. Teve ótima repercussão também no exterior e chamou uma atenção inédita para o nome da sua diretora, Malu De Martino. Mas a trajetória de Malu, iniciada em 1983 com um filme de conclusão de curso em Nova York, tem matizes muito variados. Seu longa anterior, Mulheres do Brasil, reunia histórias sobre a condição feminina em diversos estados brasileiros. Ela já realizou documentários para TV e muitos vídeos sobre artes plásticas.

Quem pesquisa sobre a Geração 80, por exemplo, não pode deixar de passar pelo seu vídeo Tela s/ Tinta (1986), que recenseava o movimento, foi exibido na 18ª Bienal e tornou-se referência. Naquela década, ela documentava regularmente as exposições do MAM, trabalho que a conduziu ao média-metragem Ismael & Adalgisa, um mix de doc e fic sobre o triângulo afetivo-intelectual entre Ismael Nery, Adalgisa Nery e Murilo Mendes.

A arte do desenho estará de volta no próximo filme de Malu, um doc provavelmente muito lírico sobre a paixão da ilustradora botânica Margaret Mee pela flora amazônica. É o que se deduz do teaser publicado no Vimeo, contendo imagens já colhidas na Amazônia. Para concluir Margaret Mee e a Flor da Lua, Malu ainda vai filmar no Rio de Janeiro e na Inglaterra. Margaret será apresentada como artista e como pioneira de um pensamento ecológico nos anos 1950.

A seguir, os filmes escolhidos por Malu De Martino como seus faróis no cinema. Entre clássicos e contemporâneos, nota-se seu gosto pelas junções do cinema com a literatura e as artes plásticas:

Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder
Me impressiona muito a cena de Gloria Swanson descendo a escada (nunca esqueci). Acho cruel a loucura da estrela decadente e bastante curiosa a narração feita por um morto.

O Gabinete do Dr Caligari, de Robert Wiene
Tenho muito interesse no cinema como representação plástica. O cinema expressionista é para mim a síntese dessa ideia. De todos os que adoro, o Gabinete… é o primeiro que vem à memória.

Festim Diabólico (The Rope), de Alfred Hitchcock
Sou viciada em Hitchcock , e The Rope, da maneira que foi filmado, faz dele um exemplo de que o enredo transcende a pirotecnia cinematográfica, muitas vezes traduzida em ação. Fico presa na tela sempre que assisto.

Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos
Foi o primeiro filme do Nelson a que assisti e fiquei muito impressionada com o fato de a ideia ser tão eficaz ao ser passada com tão poucas palavras (diálogos). Acho que foi aí que comecei a ver a importância da imagem. Foi também a primeira vez que li o livro e vi o filme, o que me fez descobrir o casamento perfeito: literatura e cinema.

Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade
Não tenho certeza mas acho que foi o primeiro filme brasileiro que vi. Ele me fez ver o Brasil de outra forma. Apesar de não ser muito fã de comédias, tenho grande admiração pelo humor dele.

Amor Bandido, de Bruno Barreto
Gosto do filme principalmente pela maneira de mostrar Copacabana. Me impactou  muito a atuação do Paulo Gracindo. Acho um filme “sujo” no bom sentido, e o casamento dessa estética com o submundo me pareceu muito adequada.

Solaris, de Andrei Tarkovsky
Adoro Tarkovsky, e Solaris é o meu preferido. Sempre volto a assistir. Gosto muito da maneira com que ele trabalha a perda. Angustiante e belo.

A Mulher do Lado, de François Truffaut
Para mim o melhor filme de Truffaut. Misto de drama e tensão crescente como poucas vezes vi no cinema. A direção de atores chega à perfeição quando Fanny Ardant  surta sob o olhar de Gérard Depardieu.

Amor à Flor da Pele, de Wong Kar-Wai
A fotografia e a trilha sonora me encantam. A direção de arte over e kitsch, também. Tudo isso sob um ponto de vista oriental com sentimentos nada à flor da pele. Uma ótima combinação para mostrar como os sentimentos mais profundos podem ser trabalhados de formas tão diferentes quando se trata de cinema.

O Escafandro e a Borboleta, de Julian Schnabel
Voltando à ideia do cinema como suporte das artes plásticas, esse filme é um dos meus preferidos. Das posições de câmera inusitadas à narração super bem aplicada, O Escafandro… é um quadro pintado por aquele que considero um artista plástico dos melhores e que não se contenta com uma ou outra tela, e sim com todas as possíveis.

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Faróis: Vinícius Reis

Para escolher e comentar seus filmes-faróis, Vinícius Reis largou por um instante a edição de seu terceiro longa, Sobre Ruínas, drama ambientado na família de um rabequista de Folia de Reis. Mais uma vez nesse filme, ele está utilizando as heranças diversas de sua formação. Do teatro, que praticou com Maria Clara Machado no Tablado, vem o prazer no contato direto com os atores (“o filé mignon do trabalho”, como ele diz). Do documentário, onde se exercitou inicialmente e fez o longa A Cobra Fumou, traz a busca por um “efeito de real” que aparecia forte no ficcional Praça Saens Peña.

Vinícius Reis é um típico artista gestado na contemporaneidade. Cinéfilo desde os 11 anos de idade, ator amador e depois profissional, diretor de vídeos e curtas como Gentileza e Nós do Morro, ex-presidente da ABD-Rio, envolveu-se profundamente com o lado social do cinema. Fundou com Rosane Svartman o Núcleo de Cinema do Nós do Morro, no Vidigal, em cujo cineclube continua debatendo filmes com os alunos. Depois de viajar com veteranos da FEB à Itália em A Cobra Fumou, co-dirigiu um doc sobre o jurista Evandro Lins e Silva, O Vício da Liberdade. Sua estreia na ficção, com Praça Saens Peña, foi recebida como um belo exemplar de comédia urbana que enfocava um bairro do Rio, a Tijuca, menos agraciado pelas lentes dos cineastas brasileiros.

Os faróis de Vinícius são aqui apresentados como uma espécie de romance de formação de um cineasta a partir dos anos 1980. Seus comentários denotam uma atenção especial para a linguagem dos filmes e uma memória marcada por cenas específicas. Aí estão:

E.T. – O Extra-terrestre, de Steven Spielberg
Primeira manifestação de cinefilia. Vi várias vezes, em sessões seguidas no América, na Praça Saens Peña. Descobri, com 11 anos,  a força de ver um filme numa sala escura, cheia de gente desconhecida. A cena das bicicletas voando pelo subúrbio de classe média americana surge forte agora. Peguei carona numa daquelas bicicletas e estou voando até hoje!

A Idade da Terra, de Glauber Rocha
Vi com 16 anos, na Mostra Glauber por Glauber na Sala 1 do antigo Estação Botafogo. O filme agiu como uma bomba de liberdade e  invenção na cabeça e no corpo de um adolescente cheio de espinhas e com aparelho nos dentes.  Descobri que o cinema podia ir além do que eu imaginava. Lembro de pensar: “quer dizer que isso tudo pode?!?!”. Cenas que aparecem enquanto escrevo essas linhas: o amanhecer em Brasília, alguns closes de Jece Valadão; Tarcísio Meira repetindo “A terra é a cloaca do universo!”; a coreografia de Ana Maria Magalhães; Glauber  e João Ubaldo Ribeiro abraçados numa praia; Paula Gaitan dançando…

Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade
Paulo José e Dina Sfat se amando numa garagem ao som de “Essa garota é papo firme”, do Roberto Carlos, é uma cena que faz você desejar o cinema. Descobri a antropofagia em uma tarde de 1987, no Estação Botafogo!  O filme me levou a estudar Mário de Andrade; nas pesquisas, conheci Oswald de Andrade e acabei deixando o Mário um pouco de lado. Macunaíma, o filme, e Macunaíma, o romance – nessa ordem – iniciaram um processo pessoal de descolonização, ainda inacabado.

São Bernardo, de Leon Hirszman
A força dos planos-sequências, a narração em off, Othon Bastos e Isabel Ribeiro arrasando; as diversas vozes do Caetano Veloso numa das mais belas trilhas do cinema brasileiro. Um filme que me levou a querer fazer cinema. Vi na cinemateca do MAM, início dos anos 1990.

Santo Forte, de Eduardo Coutinho
Filme fundamental, determinante, transformador, que me fez rever Godard com um olhar mais esperto; que me apresentou Straub e Ozu; que me ensinou a potência do som direto e tantas outras coisas! Penso muito nesse filme, sempre.

Superoutro, de Edgard Navarro
Foi um programa do final dos anos 80, início dos anos 90. O filme ficou em cartaz muito tempo na sala 2 do Estação. Íamos em turma ver o filme, como se fossemos a uma festa. Voltávamos no dia seguinte, na semana seguinte para rever… Depois dessas sessões, passávamos horas conversando sobre o filme e sobre cinema.

A Chinesa, de Jean-Luc Godard
Os enquadramentos fixos, um som para cada cena, as cores saturadas, a violência, a alienação, os atores lendo o texto, o cinema dentro do cinema.  O roquenrol maoísta. O filme ficou em cartaz longo tempo na sala 2 do Estação, no fim dos anos 1980, e o revi várias vezes. Há uma simplicidade na realização (um apartamento, uma turma, uma pequena equipe, uma certa improvisação) que é muito sedutora para quem quer começar a fazer cinema.

Memórias do Subdesenvolvimento, de Tomás Gutiérrez Alea
A narração em off, a câmera na mão, às vezes colada no personagem; as lentes 85mm, 100 mm;  os desfocados, os closes da abertura que lembram muito o closes do Antropologia da Face Gloriosa (série fotográfica de Arthur Omar), a descontinuidade. Vi pela primeira vez em Londres, num cinema de arte no centro da cidade, na primeira vez que estive lá, em 1996. Foi uma experiência boa ver esse filme pela primeira vez na Europa.

O Pântano, de Lucrecia Martel
Os ruídos, o timbre das vozes, o murmúrio, a potência do que não está em quadro, o mistério do som! Filme definitivo. De tempos em tempos o revejo.

Filmes de Claire Denis
Recentemente descobri Claire Denis, que se tornou uma musa inspiradora. Numa tacada só aponto três filmes que tenho visto, revisto, estudado e que têm me iluminado: Trouble Every Day, Sexta-feira à Noite e Bom Trabalho, pela maneira carinhosa com que ela trabalha com os clichês, pela maneira de colar o olhar  - e os sentidos! – do espectador na pele dos personagens.

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Faróis: Ana Maria Magalhães

Foto: Vicente de PauloFosse como índia de pouca roupa, gatinha urbana ou diva carnavalesca, Ana Maria Magalhães começou a povoar nossa imaginação na época do Cinema Novo, atuando em filmes de Nelson Pereira dos Santos, Gustavo Dahl (com os quais foi casada), Cacá Diegues, Leon Hirszman e Luiz Carlos Lacerda, entre outros. Já então havia trabalhado no Grupo Oficina e militado no movimento estudantil. Seguiu-se uma carreira fértil no cinema e na TV, que tornou seu rosto um dos mais populares do Brasil.

Aos poucos, a musa foi se revelando também uma ambiciosa autora de filmes, quase todos ligados a ideias de modernidade na cultura brasileira. Aí se incluem curtas como Assaltaram a Gramática (perfil performático de quatro poetas), Já que Ninguém me Tira pra Dançar (sobre Leila Diniz), Spray Jet (pintura urbana) e Mulheres de Cinema. Uma dessas mulheres de cinema inspiraram seu primeiro longa-metragem, Lara, adaptação livre de episódios da vida de Odete Lara. Esta semana, Ana Maria está lançando Reidy, a Construção da Utopia, seu segundo longa, um perfil não biográfico do seu tio, Affonso Eduardo Reidy, responsável por algumas obras-primas da arquitetura e do urbanismo no Rio de Janeiro (leia resenha).

Seu interesse pelas questões de identidade cultural do país prossegue com um novo trabalho em andamento. A série O Brasil de Darcy, em cinco episódios, vai revisitar na TV Brasil o legado de Darcy Ribeiro. Outro projeto em seu portifólio de desejos é revisitar, 20 anos depois, os meninos que protagonizaram seu documentário Mangueira do Amanhã, de 1992. Recentemente, Manoel de Oliveira convenceu-a a aparecer novamente diante das câmeras num dos papéis centrais de O Estranho Caso de Angélica, ainda inédito comercialmente no Brasil.

Visite o site de Ana Maria Magalhães.

Instada a relacionar seus filmes-faróis, Ana não se conteve no limite de 10 títulos. O remédio foi pedir que ela indicasse seis como extras. Merecem atenção também a qualidade e pertinência de seus comentários.

Clamor do Sexo (Splendor in the Grass), de Elia Kazan
A descoberta sexual e a passagem da adolescência são esplendidamente exploradas por Kazan. As imagens do verão se contrapõem à violência dos conflitos entre pais e filhos às vésperas da Depressão. O filme deságua no perdão aos pais. No ótimo e lindo elenco, Natalie Wood e Warren Beatty. E ainda Barbara Loden, magnífica na pele da absurda garota que barbariza a sociedade puritana e expõe a hipocrisia do sistema que investe na riqueza como substituta da sexualidade.

Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha
Tinha quatorze anos quando assisti, e esse foi o primeiro filme brasileiro que me impressionou fortemente. Acostumada a ver o cangaço em filmes sanguinolentos, a dramaticidade, a música, as interpretações, tudo me conduziu ao Brasil profundo que eu pressentia nas estórias que meu pai contava sobre o cangaço em Serra Talhada, terra de Lampião e da nossa família. As interpretações também surpreendem em um tempo em que não se via algo tão visceral na cena cinematográfica brasileira.

O Anjo Exterminador, de Luis Buñuel
Assisti numa sessão do Festival Internacional do Filme em 1965. Buñuel estabelece convenções, das quais não ousamos duvidar, para criar uma situação surreal em que expõe a miserabilidade da condição humana sem jamais perder o humor. Com ele descobri o surrealismo e me apaixonei definitivamente pelo seu cinema. Dediquei o curta-metragem O Bebê a Luis Buñuel.

Viver a Vida (Vivre sa Vie), de Jean-Luc Godard
Entre tantos filmes de Godard que vi na adolescência este foi o que mais me tocou. Tive a impressão de que ele falava filosoficamente sobre as mulheres para as mulheres. Revi o filme ultimamente e continua moderno. Com elementos mínimos ele cria uma atmosfera em que forma e conteúdo se entrelaçam com a mesma afinação.

A Marca da Maldade (Touch of Evil), de Orson Welles
Gosto de todos os filmes de Welles, sem exceção. Kane, que vi e revi no Cine Bijou, me deslumbrou. Sem falar em F for Fake, que discute a arte com veracidade, apesar do título. Porém, somente um mestre do cinema poderia conceber aquele plano inicial de A Marca da Maldade. A trama intrigante e elaborada desenvolve uma tensão que não cessa. E seu tema discute o embate entre a lei e a justiça. Algo cada vez mais atual e eterno na sociedade dos homens.

M, O Vampiro de Düsseldorf, de Fritz Lang
A maldade aqui é ambiguamente expressa na tensão entre o terror social do nazismo ascendente e o psiquismo do assassino. Em seu primeiro filme sonoro, Lang explora as potencialidades da montagem associada ao som para criar a atmosfera de suspense. A violência é apenas sugerida pelos sons, sombras, enquadramentos e cortes. Quando os mafiosos locais pegam o criminoso para matá-lo, Lang lhe dá a chance de expor a tragédia psicológica de seu terrível instinto. “It’s far beyond my control”, é o que diz, em outras palavras, a personagem interpretada por Peter Lorre no monólogo final.

A Paixão de Joana D’Arc, de Carl T. Dreyer
O filme de Dreyer é um dos mais belos da história do cinema. A iluminação e os enquadramentos dão um tom pictórico às cenas e suportam o misticismo e o sofrimento da santa guerreira magistralmente interpretada por Falconetti. Sem recursos como som e maquiagem, a atriz expressa o martírio com a intensidade de sua interiorização. O gestual mínimo é hieraticamente intimista. O filme também tem em seu elenco ninguém menos que o teatrólogo Antonin Artaud.

Ouro e Maldição (Greed), de Erich Von Stroheim
Erich Von Stroheim se utiliza de um conto para criar a obra-prima do cinema mudo. Como Kafka tem sua premonição em Amerika sem jamais ter ido aos Estados Unidos, Stroheim desce aos fundamentos da sociedade que enfoca e realiza um filme tão à frente do seu tempo que continua atual. Destaco a cena do casamento em que um enterro ao mesmo tempo passa ao fundo na rua. E Zasu Pitts cobrindo o seu corpo miserável com moedas de ouro, uma das quais ela morde em êxtase.

Vagas Estrelas da Ursa Maior (Vaghe Stelle dell’Orsa), de Luchino Visconti
Talvez seja o filme mais poético de Visconti, como o próprio título extraído de um poema de Leopardi. A beleza da dupla Claudia Cardinale e Jean Sorel contrasta com o fardo emocional do passado nostalgicamente cultivado no presente. Visconti cria uma atmosfera impregnada de trágico nessa estória de retorno à casa paterna, em que contrapõe a família ao radicalismo existencial.

A Noite, de Michelangelo Antonioni
O “maestro”, como o chamava Glauber, foi o mais moderno de todos no sentido de antecipar temas da existência humana ao nível coletivo ou individual. Antonioni teve a capacidade de fazer com maestria a passagem do neorrealismo à contemporaneidade. Em A Noite não há um único plano que não seja um acontecimento. Arquiteta a estrutura interior do romance em imagens e diálogos. A partir da simples observação de uma situação compõe uma estória. Nela empreende a análise dos sentimentos, no caso angústia e amor, em que exprime a experiência humana com beleza e intensidade. A cidade é personagem sempre presente em seu rico universo. Nos créditos enquadra Milão. Mais adiante haverá o contraponto entre a indústria e o pensamento, encarnado por Mastroianni no papel do escritor. Usa o tempo, assim como a cor ou seus contrastes de preto, branco e cinza, em função da narrativa e da poética. A festa é o elemento central deste filme em que enquadra com sutileza e ironia a burguesia milanesa. O filme, com Monica Vitti dizendo que tem vinte e dois anos e muitos meses, marcou a minha formação. Quando Glauber me apresentou a Antonioni no bar do Hotel Excelsior, em Veneza, pensei de imediato em A Noite, que povoou meus sonhos adolescentes. Maestro, que saudades!

Agora, os extras:

Assim Caminha a Humanidade (Giant), de George Stevens
Tradicionalmente são as mães que induzem os filhos à cinefilia. A minha apresentou-me o épico de Stevens. Sua grandeza reside na dramática saga da decadência de uma família de fazendeiros que perde seu poder e riqueza para um novo rico do petróleo. O progresso é ilusório. Produz avanços nos costumes, mas conserva o racismo texano contra os mexicanos. No elenco de gigantes, a jovem Liz Taylor compõe o envelhecimento de sua personagem com muito talento e James Dean, em sua última atuação, evolui soberbamente da rebeldia ao desespero.

Imitação da Vida, de Douglas Sirk
Sirk se despede da América com um melodrama duramente comovente ao cruzar maternidade e discriminação racial. O roteiro espelha vidas inversamente, a partir da bela amizade entre duas mulheres, uma branca e outra negra, que criam sozinhas suas filhas. Uma se apaixona pelo namorado da mãe que vive em função do sucesso profissional, enquanto a outra rejeita a mãe dedicada por ser negra. O choque temático é que o drama social e racial é abordado no âmbito da vida privada.

Um Só Pecado (La Peau Douce), de François Truffaut
Acompanhei Truffaut desde Os Incompreendidos, sua obra-prima. Mas La Peau Douce é o meu predileto por dois motivos: a presença de Françoise Dorléac e a liberdade de Truffaut. Aprendi com ele que não se deve temer o fio da navalha na criação. A cena final poderia resvalar para o ridículo, mas é trabalhada com tanta veracidade que comove.

A Vênus Loura, de Josef Von Sternberg
As qualidades técnicas e artísticas na construção da linguagem cinematográfica de Sternberg vão muito além da descoberta de La Dietrich em Berlim e sua parceria com a atriz que o notabilizou. Nesse filme, mais do que em qualquer outro, o poder feminino é sugerido nos seus opostos. À parte o especial entendimento da alma feminina revelado nas imagens da cantora de cabaré fabulosamente caracterizada de gorila ou vestida de terno branco, a composição dos quadros e o jogo de luzes e sombras, suas marcas estéticas, atingem o ápice.

A Caixa de Pandora, de Georg W. Pabst
Descobri o grande Pabst por causa de um corte de cabelo. Dahl e Saraceni simultaneamente me disseram que eu estava parecida com Louise Brooks. Um dia fui conferir num cinema em Paris. Trata-se de um dos gênios da interpretação. Sem modismos, estava adiante do seu tempo. Brooks fez a transição do cinema mudo para o sonoro em A Caixa de Pandora. Ali interpretou como se o cinema já fosse falado. Não deve ter sido compreendida pelos seus contemporâneos.

A Doutrina do Choque, de Michael Winterbottom
Realizado por Michael Winterbottom sobre o livro de Naomi Klein, é um dos documentários mais importantes da atualidade. Sobre imagens de arquivo raras e excepcionais, o filme, que tem como tema o controle das populações por líderes que as manipulam após choques coletivos, é tão bem estruturado, assustador e vibrante que emociona mesmo sendo bastante falado.

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Faróis: Ricardo Miranda

Paulo César Saraceni e Gustave Flaubert são, digamos assim, os parceiros do momento na carreira de Ricardo Miranda. Nos últimos anos, ele montou O Gerente (onde também faz figuração afetiva) e Casimiro, de Saraceni, e cumprimentou o amigo com o doc A Etnografia da Amizade. De Flaubert, levou à tela um conto em versão nada convencional intitulada Djalioh (leia resenha). Enquanto exibe Djalioh em festivais e prepara seu lançamento em circuito no ano que vem, já mandou preparar a primeira tradução brasileira de outro conto flaubertiano, Paixão e Virtude, com que pretende fazer um díptico ao lado de Djalioh. Em ambos os contos, há curiosas referências de Flaubert ao Brasil.

Ricardo Miranda entrou no cinema pela moviola e, a partir de 1969, estabeleceu-se como um dos montadores preferidos daquilo que Jairo Ferreira chamava de “cinema de invenção”. Glauber Rocha o chamou para dar a forma final de A Idade da Terra. Arthur Omar dividiu com ele o último corte de boa parte de sua obra. Ele montou, ainda, filmes de Saraceni, Ivan Cardoso, David Neves e Vladimir Carvalho. Nos últimos anos, editou O Romance do Vaqueiro Voador, de Manfredo Caldas, os docs extras dos DVDs de Terra em Transe, A Idade da Terra O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, e ainda três docs de Denis Wright sobre a Guerra do Paraguai. Acaba de fechar a montagem do curta Janela, de Clarissa Ramalho e, com o ex-aluno Vinicius Nascimento, está dando o corte final em um doc de César Oiticica sobre o tio Hélio. Um pouco antes, para Helena Ignez, montara A Canção de Baal e fizera o sofisticado desenho de som de Luz nas Trevas, a retomada do personagem de O Bandido da Luz Vermelha.

Como diretor, Ricardo Miranda tem obra de exceção dentro do cinema brasileiro, dotada de forte marca autoral e ambição antropológica. Nela destacam-se ainda a ficção Assim na Tela como no Céu (em que o inferno aparecia equipado com ilhas de edição!), e docs sobre artistas (Mojica, A Passagem do OlharCâmara Cascudo, Gilbertianas), críticos de cinema (O Presidente do Mundo, sobre Almeida Salles, e Território Crítico, sobre Jean-Claude Bernardet) e o povo brasileiro (Descobrir). Na TV Brasil, ele coordena a equipe responsável pela confecção de interprogramas.

Os alunos da cadeira de montagem da Escola de Cinema Darcy Ribeiro, no Rio, beneficiam-se regularmente das suas lições de ousadia. Algumas delas constarão do artigo que ele fez para a próxima edição da revista Filme Cultura, tomando como mote o trabalho de montador de um de seus “faróis” humanos, Gustavo Dahl.

Em maio de 2007, Ricardo Miranda teve seus filmes-faróis apresentados no extinto DocBlog. Na ocasião, ele enumerou uma lista eclética, que ia de Jean-Marie Straub a Vladimir Carvalho. Para esta nova publicação, ele ampliou o leque de 5 para 10 filmes, mas sem perder o gume de um cinema comprometido com os limites da representação e da narratividade. Aí vão eles:

“Sem ordem, sem documento, sem saber como me vieram os dez  filmes. Filmes cabeceira. Filmes que vejo e revejo, e sempre rompem minha emoção. Filmes em que penso na hora de pensar cinema:

1. Três Cantos para Lenin – É o filme em que Dziga Vertov põe em prática teorias produzidas desde os anos 1920, com total emoção. Fico extasiado cada vez que assisto.

2. O Velho e o Novo (A Linha Geral) – Os filmes de Eisenstein são filmes de cabeceira. Este não paro de ver e rever. A sequência da procissão transcende as teorias construtivistas do cinema.

3.  Uma Visita  ao Louvre, de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub - Impressões do pintor  Cézanne sobre algumas das principais obras de arte do Museu do Louvre. Enquadramentos   rigorosos e precisos vibram com cores e formas da pintura. Um filme de palavras. Extraordinário.

4. A Pedra da Riqueza – O filme mais equilibrado entre o particular e a grande metáfora. Quando assisti registrei e nunca mais me esqueci deste documentário do Vladimir Carvalho.

5. Crônica de Anna Magdalena Bach – Fenomenal filme de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub. Citando Straub, “uma das tarefas é achar imagens que não bloqueiem a imaginação do espectador”.

6. O Leão de Sete Cabeças – Extraordinário filme de Glauber Rocha. Aqui Glauber engendra  ”um incêndio simbólico para fazer a libertação brotar das cinzas do ícone deposto.”

7. Mal dos Trópicos, de Apichatpong Weerasethakul - Narrativa única municiada por estranha mitologia da Tailândia. Tradição/invenção; lenda/fato; sensação/história.

8. Medeia, de Pier Paolo Pasolini - Ritos, beleza, cinema. Instintos, paixões e sentimentos. Um filme que te acompanha no dia após dia.

9. Di-Glauber – Pequeno, grande, enorme, fundamental filme.

10. Número Dois, de Jean-Luc Godard - Godard após os experimentos do Groupe Dziga Vertov. Cotidiano e sexualidade. Ver revendo. ReveЯ.”

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Faróis: Cacá Diegues

Em sua já longa carreira, por várias vezes Cacá Diegues foi ele próprio um farol para o cinema brasileiro. Desde apontar a direção do urbanismo no Cinema Novo com A Grande Cidade até produzir a tomada de expressão pela periferia em 5 x Favela – Agora por Nós Mesmos, passando pela reinvenção mítica da História com Xica da Silva e a despedida do Brasil velho com Bye Bye Brasil. Sem falar nos textos de permanente consciência crítica em ação na cultura, como foi o caso da denúncia das “patrulhas ideológicas”.

Por tudo isso, é bom saber agora quais são os faróis de Cacá no cinema. Ele respondeu a nossa consulta em mais um momento efusivo de sua trajetória. A experiência de viabilizar e orientar o novo 5 x Favela trouxe desdobramentos. Cacá fez o mesmo em seguida com o quarteto de curtas sobre as UPPS e o seriado Mais Vezes Favela, que estreia em novembro no canal Multishow enfocando o cotidiano de uma família de comunidade. Assim ele continua a acompanhar seus apadrinhados. “Eu não podia colocá-los na estrada do sonho e logo cair fora”, explica.

Cacá acaba de produzir também o primeiro exercício de direção de José Wilker, Giovanni Improtta, em fase de edição. Mas a atual menina dos seus olhos é a pré-produção de seu próximo longa, O Grande Circo Místico, com roteiro dele e de Georges Moura, baseado na peça homônima de Chico Buarque e Edu Lobo. “Não é um musical”, avisa Cacá, entusiasmado com a escalação já confirmada de Lázaro Ramos.

O entusiasmo de Cacá, aliás, se estende a todo o momento vivido pelo cinema  brasileiro, como se depreende de um trecho do texto que ele enviou a um seminário transcorrido durante o recente Festival de Brasília:

“Por ter começado tão cedo na minha vida profissional, já tenho mais de 50 anos nessa atividade, como cinéfilo e como cineasta, como espectador e como militante de nosso cinema. Mas posso garantir que, em termos estritamente cinematográficos, nunca vivi um momento tão alvissareiro para o cinema brasileiro quanto esse. Nunca tivemos tanta variedade de tendências artísticas e culturais, políticas e éticas, geracionais e regionais, todas sempre com representantes de peso e qualidade, com exemplos que conquistam nosso público, que estimulam nossos críticos e acadêmicos, que são recebidos com entusiasmo nos festivais nacionais e internacionais”.

Na hora de relacionar seus filmes-faróis, Cacá Diegues destacou cinco obras, mas usou os comentários para passar “de contrabando” outras tantas. A partir da próxima linha, é ele quem fala:

“Para quem faz cinema porque ama os filmes que viu, um cinéfilo antes de ser um cineasta, é muito complicado escolher apenas cinco filmes como faróis de minha vida e de minha prática cinematográficas. Meu amor pelo cinema foi iluminado por tantos faróis de tantas cores e intensidades, sinalizando tantas diferentes direções que deram e ainda vão dando o rumo de meu caminho, que é dificil dizer quais foram os mais importantes . Mas vou tentar fazer um exercício aleatório de escolha, como quem joga conversa fora com coisa muito séria. E, embora até hoje eu veja filmes que me impressionam e me influenciam muito, vou ficar com citações que não passam dos anos 1970, uma homenagem à minha formação inaugural.  Eis aí meus escolhidos.

1. Shadows, de John Cassavettes
Essa é minha homenagem aos “pequenos filmes” que fizeram a glória e a originalidade do cinema americano, o mais diverso do  mundo. Podia ser também “Gun Crazy”, de Joseph H.Lewis, o barroco protestante chegando ao thriller. Ou “Make Way for Tomorrow”, de Leo McCarey, essa obra-prima dos sentimentos, doce e cruel instrumento de conhecimento do outro. Como podia ser “O Falcão Maltês”, de John Huston, ou qualquer outro desses filmes que, por pequenos, puderam ser roubados dos estúdios pelo talento de seus autores. “Shadows” é também uma homenagem à reinvenção do cinema, naquele final dos anos 1950, uma lembrança de “À Bout de Souffle”, de Jean-Luc Godard, ou “Prima della Rivoluzione”, de Bernardo Bertolucci. Ou ainda de “O Anjo Nasceu”, de Julio Bressane.

2. Rio 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos
Só quando vi esse filme, aos 16 anos de idade, comecei a acreditar que poderia vir a ser um cineasta brasileiro. As chanchadas me divertiam, mas no limite das paródias desengonçadas e quase sempre mal feitas. A Vera Cruz era um desastre de pretensão e chatice, do qual podia-se livrar a cara apenas de Alberto Cavalcanti e de alguma coisa de “O Cangaceiro”, de Lima Barreto, e de “Absolutamente Certo”, de Anselmo Duarte. “Rio 40 Graus” pensava o país e pensava o cinema, inventando um para o outro, tudo o que minha geração sonhara ser um dia possível. Depois dele,  duas iluminações na minha vida no mesmo cinema brasileiro: “Bahia de Todos os Santos”, de Trigueirinho Neto, um filme visionário e estranhamente moderno, e “Terra em Transe”, de Glauber Rocha, o melhor filme brasileiro de todos os tempos.

3. French Cancan, de Jean Renoir.
Podia ser também “La Grande Illusion”, “La Règle du Jeu”, “La Marseillaise” ou “Le Carrosse d’Or”, outras obras-primas do mesmo autor, um dos pais do cinema moderno realista, humanista e poético, ao lado de  F.W.Murnau e Roberto Rossellini. Os 20 minutos finais de “French Cancan”, totalmente dançados sem os artifícios de um balé rigoroso, mas com a grandeza de um baile da vida, é uma das mais belas expressões do que pode o cinema – eu queria fazer todos os meus filmes desse jeito! O cinema de Renoir anunciou muita coisa do que viria depois, da Nouvelle Vague francesa a todos os americanos que o conheceram em Hollywood, durante a Grande Guerra. Renoir, ele mesmo, no papel do ainda jovem Octave, em seu filme “A Regra do Jogo”, diz em cena a frase mais esclarecedora de toda a sua filmografia: “O insuportável na vida é que todo mundo tem razão”.

4. La Strada, de Federico Fellini.
Sei que seria mais “intelectual” e talvez mais respeitável citar outros filmes de Fellini, como “A Doce Vida”, quem sabe “Amarcord” ou sobretudo “Oito e Meio”, o filme querido de todos os cineastas. Mas “A Estrada da Vida” é um dos filmes que mais vejo até hoje e que me faz chorar francamente a cada vez que o vejo. Caetano Veloso diz, a propósito desse filme, que Fellini consegue o raro feito de ser “ao mesmo tempo sentimental, popular e grande artista”, uma coisa que não acontece nunca. Ou quase nunca. Um filme circense, por suas piruetas plásticas, pelo sentimentalismo dos personagens e pela dramaturgia populista assumida com tanta profundidade e dignidade. Esse céu, de onde Zampanó espera que lhe chegue alguma coisa, é o mesmo que traz à cena o magnífico corvo de “Uccelacci e Uccellini”, de Pier Paolo Pasolini, e a neve de meu “Bye Bye Brasil”.

5. The Godfather (trilogia), de Francis Ford Coppolla.
Comecei a lista com os pequenos e encerro-a com os grandes filmes americanos, um daqueles  que o tornaram o segundo cinema nacional em todo lugar do mundo. Há cineastas que a gente admira e outros que a gente ama. Por exemplo, admiro muito Martin Scorsese, mas amo mesmo é Coppolla, com todos os seus gigantescos defeitos, seus equívocos tsunâmicos. “O Poderoso Chefão” é a melhor aula de história americana que o cinema podia dar desde “Cidadão Kane”, de Orson Welles, e desde os filmes de King Vidor e Elia Kazan. Um poema épico sobre a formação dos Estados Unidos e seus costumes característicos (política, ética, família, amizade, religião, essas coisas), contado com uma grandeza barroca irresistível”.

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