Curto-circuito de literatura-cinema-arte

por Patricia Rebello

Foto: Maria Eduarda Tavares

Ele acha que roteiro é uma peça de literatura, no sentido de que informa o desenvolvimento de uma história. Ela acha que roteiro não tem nada de literário, e que é a descrição dos enquadramentos do filme, o quinhão de literatura que se transforma em imagem. Ele veio da literatura. Ela do vídeo. Ele chegou no cinema através das sessões de desenho animado do Tom & Jerry no Metro Copacabana. Ela não gosta de desenhos animados, e entrou na tela grande pela porta dos museus de arte. E talvez porque a beleza no cinema esteja na promoção de encontros entre heterogeneidades e diferenças, Luiz Carlos Lacerda, o “Bigode”, e Malu De Martino são grandes amigos. E foi justamente a cumplicidade nas diferenças que deu o tom do terceiro encontro da II Mostra Faróis do Cinema, onde o curto-circuito entre cinema, literatura e arte, o cinema americano e, claro, filmes que “dão tesão de fazer cinema”, foram discutidos com muito bom-humor.

Mas não são apenas as diferenças que unem os dois realizadores. Logo de saída, o mediador Carlos Alberto Mattos lançou uma provocação à mesa: “Será que, de uma maneira inversamente proporcional ao espaço ocupado no mundo inteiro, o cinema americano não influencia tanto assim o cinema brasileiro?”. Malu e Bigode concordaram que existe, sim, uma influência do cinema americano por aqui. Mas de um certo cinema. “Cinema independente americano é independente como em qualquer lugar do mundo. Acho que o cinema deles tem a ver com o trabalho da gente”, disse Malu. Já Bigode comentou sobre o impacto da descoberta dos filmes de Orson Welles e Andy Warhol. “E de Billy Wilder, que fazia filmes de estúdio sem deixar a coisa ficar apenas na indústria”, disse ele, lembrando de Quanto Mais Quente Melhor (“foi um filme precursor ao colocar a questão da sexualidade de uma forma amoral”, disse). Vale dizer que um dos filmes-faróis de Malu De Martino é uma das pérolas da cinematografia wilderiana, Crepúsculo dos Deuses. “A primeira cena do filme”, disse ela, “que mostra o cadáver na piscina gera um tremendo impacto quando você descobre que é o cadáver que vai narrar a história. Isso é cinema”, conta. Vale também lembrar que For All, o filme de Bigode que está em cartaz na Mostra, gira em torno da presença de americanos em uma base militar em Natal (RN) durante a II Guerra Mundial, e todas as (novas) relações morais e amorais que se estabelecem a partir do contato. “Me interessa a transgressão”, disse Bigode.

Foto: Maria Eduarda TavaresFilho de João Tinoco de Freitas, importante produtor e financiador de filmes nos anos 1950, seria natural pensar que o cinema era uma carta marcada no destino de Bigode. Mas não. “Eu achava um saco ficar nos bastidores. Nunca pensei em fazer cinema. Meu primeiro contato foi durante a filmagem de Balança Mas Não Cai, baseado em um programa de rádio. Um dia eu fui ao estúdio e me botaram em uma fila para ganhar presente do Primo Rico (Paulo Gracindo). A gente pegava o saquinho e saía de cena. Quando eu abri o “presente”, descobri que tinha só serragem. Pensei: o cinema é isso então, mentiroso e pobre“. Com o bom-humor que lhe é peculiar, Bigode continuou: “Eu escutava o povo lá de casa falar de uma das produções de papai, Rio 40 Graus, e achava que era coisa de previsão do tempo, não entendia nada”. A luz do projetor só foi acender para ele no dia que, acompanhado do pai, foi assistir a Ladrões de Bicicleta, um de seus faróis. “Eu escutava todo mundo falar sobre esse filme nas reuniões de papai com o grupo que, mais tarde, iria formar o Cinema Novo. Um cinema político, que falasse da realidade social. Nessa época, o cinema que eu conhecia era entretenimento. Quando vi Ladrões de Bicicleta, percebi que o cinema também serve para contar histórias pequenas, humanas, a partir de uma realidade terrível. Foi um impacto enorme compreender que podia fazer algo mais que contar histórias, sem precisar, necessariamente, servir a uma causa”. Uma explicação semelhante justifica a presença da animação Sinfonia Amazônica na sua lista de faróis. “Acostumado que estava com os desenhos de Tom & Jerry, me surpreendi ao ver curumins, araras e papagaios falando português, elementos do folclore brasileiro, na tela. O cinema tornava isso possível.”

Foto: Maria Eduarda TavaresJá Malu faz parte de uma geração que abriu caminho a golpes de foice durante a década de 1980, quando o hiato entre o cinema nacional e o grande público foi estendido ao extremo. Ela começou na fotografia, em São Paulo, lapidada nos trabalhos com fotógrafos de peso, como Vânia Toledo, Paulo Rocha e Alberto Travassos. “Foi assim até o Marcelo Machado, um dos fundadores da produtora independente Olhar Eletrônico, me convencer a ir para Nova York estudar vídeo”. O curso de seis meses se estendeu por um período de dois anos. De volta ao Brasil, Malu desembarcou na nova cultura do vídeo que começava a proliferar. Fez videoclipes, vídeos de arte sobre instalações e exposições. Foi desse circuito entre arte e vídeo que surgiu sua primeira produção para o cinema, Ismael & Adalgisa, uma mistura de documentário e ficção sobre o triângulo afetivo-intelectual entre Ismael e Adalgisa Nery e Murilo Mendes. “Tenho muito interesse no cinema como representação plástica, e o cinema expressionista alemão é a síntese dessa ideia”, disse ela ao comentar um de seus faróis, O Gabinete do Dr. Caligari.

A relação entre cinema e literatura também tem forte apelo nos dois diretores. “Sou um leitor compulsivo”, disse Bigode, acrescentando que a mistura entre escrita e imagem, a ênfase no discurso, foram os elementos que o aproximaram de realizadores como Jean-Luc Godard (Pierrot le Fou é um de seus faróis). “Me sinto atraído pela maneira como o Godard desrespeita regras estabelecidas, os cânones sagrados”. Esse gosto pela transgressão também se estende na relação entre literatura e cinema. “A realidade é tão mais cinematográfica que não é possível permanecer prisioneiro da realidade dos livros. Mas as pessoas são caretas, gostam de uma camisa de força”, comentou. “É preciso fazer o cinema abrir as portas para a realidade, para daí então ele se transformar em outra coisa”. Foi exatamente o que impressionou Malu ao cotejar a leitura de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, ao filme de mesmo título adaptado para o cinema por Nelson Pereira dos Santos. “Quando você lê um livro, você está fazendo suas próprias imagens, projetando seus sentimentos, fazendo seu filminho pessoal. Da primeira vez que vi Vidas Secas fiquei encantada em como era possível transformar aquele filminho que era só meu em algo que podia alcançar muito mais gente.

Patricia Rebello

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