Do cinema como exercício de liberdade

Foto: Maria Eduarda Tavares

O desejo de liberdade que leva à transgressão, a descoberta do que é ser livre por estar à margem. Foram estes os sentimentos dominantes na mesa do último encontro da segunda edição da Mostra Faróis do Cinema, que reuniu os cineastas Neville D’Almeida e Marcelo Laffitte. “Talvez eu seja um pouco marginal como os meus personagens”, disse Laffitte, “talvez seja uma forma que eu encontrei de falar de mim mesmo”. Nascido e criado em Volta Redonda, filho de mãe separada (“em meados dos anos 1960, eu não era o Marcelo, era o filho da desquitada”), ele disse se identificar com os personagens de seus filmes, que saem de suas origens em busca dos sonhos. “Eu também sou de uma cidade pequena, do interior, que veio para o Rio de Janeiro para estudar, para ser alguém”. Valores que ele identifica em Bete Balanço, filme que foi sua porta de entrada na carreira do cinema – foi assistente da produtora Tizuka Yamazaki. “É um filme que está na minha cabeça, e que retorna em diversos momentos, surgindo no meio dos meus próprios filmes”, comentou.

Foto: Maria Eduarda TavaresJá Neville D’Almeida carrega na fala a experiência da censura, da incompreensão, da dificuldade em exercer o pensamento durante o período de ditadura no Brasil, os anos 1970. “Eu fazia filmes em um momento onde não se podia fazer nada, onde diversos realizadores abriram mão da liberdade de expressão para viabilizar suas produções. Eu não”. Talvez por isso a experiência de realizar Mangue Bangue em 1971 seja tão marcante – é um caso raro de realizador apontando um filme de sua própria autoria como farol. “Eu tive que ir editar esse filme em Londres, aqui não seria possível”. O filme fala ao coração do diretor porque faz parte de sua própria transformação como cineasta: “eu o incluí entre os meus faróis porque a experiência de realizá-lo, e mesmo participar em algumas cenas, teve um impacto muito grande, mexeu comigo. A liberdade utilizada para fazer esse filme foi muito importante. Tudo mudou, a forma de filmar, de dirigir atores, passei a exigir muito mais de tudo e de todos, e de mim, especialmente”.

As listas dos dois diretores revelam, a um primeiro olhar, duas construções bastante heterogêneas entre si. Como apontou o moderador Carlos Alberto Mattos, se a lista de Neville é composta por filmes que primam pela transgressão não apenas estética mas temática, a de Marcelo parece ser mais “comportada”. Entretanto, a diferença desaparece à luz dos discursos que as defendem. “Talvez a minha lista seja mesmo comportada”, disse Laffitte, “mas eu fui criado em uma sociedade muito comportada. Cresci em Volta Redonda, e não tinha acesso aos filmes do circuito de arte carioca”. E completa: “quando eu comecei a fazer esta lista, pensei nos filmes que realmente mudaram o curso da minha vida no momento em que os assisti”. O que explica a presença de Tom & Jerry, Meu Pé de Laranja Lima e Minha Namorada na lista de faróis. “Eu fiquei responsável por organizar o cineclube durante uma semana de atividades artísticas e precisava de um longa em 16mm. Fizemos uma vaquinha e eu entrei em contato com a Embrafilme. Minha Namorada era o único filme que a gente teve dinheiro pra alugar”, recorda, rindo.

Já a lista de Neville, um tanto mais sóbria em comparação com a de Marcelo, é carregada de nobres títulos da história do cinema que se singularizaram por rupturas e abalos sísmicos na forma de contar uma história. “Sempre achei que o cinema é uma arte livre, e esses filmes são livres, transgressores. A liberdade que eles encenam, a capacidade de expressar o sentimento, é emocionante. O cinema é muito moralista, mas estes filmes me conquistaram porque se recusam a se enquadrar naquilo que todo mundo espera. Rompem com modelos e saem radicalmente das regras”, disse. Para Neville, Sangue Mineiro, de 1929, já antecipava as temáticas afetivas e sociais que as novelas hoje colocam no ar; Orfeu é o casamento entre cinema e poesia. “Em Ivan, o Terrível, Eisenstein consegue o fenômeno de ir de um plano geral com 100 mil figurantes para um close no olhar do protagonista. Fico arrepiado, me emociono só de lembrar”, comentou ele, comovido. “São filmes de um impacto total. Vejo o cinema com muito amor, muita intensidade, observo plano a plano para entender a lógica do diretor.”

Foto: Maria Eduarda TavaresFoi também na observação do cinema como produção de subjetividade que os campos do documentário e da ficção se cruzaram no cinema de Marcelo Laffitte. “Quero colocar no filme o mundo que eu vejo”, disse ele, “e isso é muito subjetivo porque combina o que a gente vê com aquilo que a gente sonha, que quer ver. Parte dessa frase pode ser confirmada em Um Dia, um Circo, realizado por Laffitte em 2007. “Uma ficção não deixa de ser um documentário sobre a sociedade em que a gente vive. Quando faço um documentário, sinto como se estivesse fazendo uma ficção, já que todos sempre se transformam em personagem diante de uma câmera”. Algo que ficou transparente a seus olhos quando assistiu a Conterrâneos Velhos de Guerra, de Vladimir Carvalho (um de seus faróis). “Quando vi aquelas pessoas contando versões diferentes de uma mesma história, compreendi imediatamente como iria fazer meu curta de ficção Vox Populi“.

Neville D’Almeida recorda-se do impacto de seu dia número 1 no cinema, ainda menino. “Meu tio tinha uma bombonière na frente de um cinema em Barra Mansa”, disse, “e certo dia eu perguntei para ele o que era o cinema. Ele me mandou entrar e ver. Me lembro de puxar a cortina de veludo à entrada da sala de projeção e dar de cara, impressa em uma parede descascada, com a imagem de Rita Hayworth em Gilda. Me apaixonei por aquela mulher, por aquela imagem de mulher e descobri que era isso que eu queria fazer”. A experiência desembocou numa frutífera relação com o campo das artes. De um improvável casamento entre Gilda e Hélio Oiticica, surgiu uma vertente de pura potência na obra de Neville, o cruzamento com as artes contemporâneas. “Conheci o Hélio durante uma projeção do meu filme Jardim de Guerra, que nunca foi exibido comercialmente e que me fez perder tudo, do apartamento às calças, para terminá-lo”. Oiticica comentou com Neville ter ficado encantado com a maneira como ele utilizou o suporte dos slides dentro do filme. “Eu nem tinha me dado conta até ele falar, mas depois comecei a pensar e descobri que o filme em slide conseguia reunir fotonovela, fotografia, revista em quadrinhos e desenho animado. Era o começo de uma nova linguagem. Ao lado de Oiticica, Neville D’Almeida realizou alguns dos mais importantes trabalhos da arte contemporânea, como as Cosmococas . Um encontro de titãs, de dois grandes faróis da cultura brasileira.

Foto: Maria Eduarda Tavares

Mariana Bezerra, Neville D'Almeida, Marcelo Laffitte, Patricia Rebello e Carlos Alberto Mattos

Esta entrada foi publicada em Marcelo Laffitte, Neville D'Almeida e marcada com a tag , . Adicione o link permanenteaos seus favoritos.

Os comentários estão encerrados.