Faróis: Maria Augusta Ramos

Foto: Mônica Imbuzeiro

Em cartaz com Morro dos Prazeres, Maria Augusta Ramos completa sua trilogia sobre as relações entre cidadãos e a Justiça brasileira. Juízo e Justiça são obras de ponta do documentário brasileiro contemporâneo. No centro desse novo filme está Brulaine, uma adolescente meio andrógina que ancora boa parte da observação da diretora sobre a comunidade ocupada pela UPP.

Mas crianças e adolescentes não são uma novidade nos filmes de Maria Augusta. Para a TV holandesa, no início da carreira, ela fez Butterflies in Your Stomach, em que investigava a paixão entre crianças. Para o cinema, dirigiu o intrigante Desi (2000), retrato real de uma menina desgarrada, órfã de mãe e negligenciada pelo pai alcoólatra, que só encontra afeto numa amiguinha brasileira e tem que enfrentar a vida praticamente sozinha. Para o status quo holandês, a situação de Desi era um pequeno escândalo. O filme ganhou um Bezerro de Ouro (principal prêmio do cinema no país) e colocou o nome de Maria Augusta entre os grandes.

Ela tem casa na Holanda desde 1990. Nascida em Brasília, estudou Musicologia e Música Eletroacústica em Paris e Londres, além de especializar-se em Psicologia da Música. Foi parar no cinema depois de casar-se com um holandês e ingressar na Academia Holandesa de Filme e TV, onde foi aluna de Johan van der Keuken (1938-2001).

O contato íntimo com o doc europeu afastou-a das práticas predominantes no doc brasileiro, tipicamente interativo. Os métodos da observação pura e da recriação do cotidiano, sem qualquer entrevista ou interferência de narração, marcam os seus trabalhos desde o primeiro, o longa Brasília, Um Dia em Fevereiro, premiado no É Tudo Verdade de 1997. Em torno de três personagens de classes sociais diferentes, tínhamos um recorte das várias faces da capital federal.

Na Holanda, Maria Augusta também realizou I Think What I Want to Say Is, sobre uma imigrante chinesa que deixou filho e marido para trás, e Boy and Aleid, observação de um dia na vida de seus sogros. No Brasil, mas para a TV holandesa, fez Rio, um Dia em Agosto, com meninos que vivem pelos trilhos da Central do Brasil.

A forte particularidade de seu estilo e uma profunda discrição pessoal fazem de Maria Augusta uma personalidade singular no doc brasileiro. Os filmes só fazem confirmar que é também uma das mais corajosas.

Ao escolher seus faróis, em 2008, ela pediu licença para citar, em vez de filmes, quatro diretores, sendo três identificados com o cinema de ficção. “Aprendi ‘cinema’ com eles, vendo seus filmes. Foi quase impossível escolher um filme de cada um”, justificou. Para esta republicação, Maria Augusta ratificou suas escolhas anteriores.

1. Robert Bresson: Au Hasard Balthazar (1966) , Mouchette (1967), Um Condenado à Morte Escapou (1956): O grande cinema reflexivo. O cinema transcendental. Quando saí do cinema depois de assistir Au Hasard Balthazar pela primeira vez, minha alma caminhava nas nuvens. Aprendi com Bresson muitas lições, três delas carrego sempre comigo: “o verdadeiro não se imita e o falso não se transforma”; “o que é importante não é o que eles (modelos, personagens) me mostram mas o que eles escondem de mim e, acima de tudo, o que eles não suspeitam em si mesmos”; e “do not beautify or uglify, do not denature” (aforismos de Bresson).

2. Yasujiro Ozu: A Rotina Tem seu Encanto (1962) , Era uma Vez em Tóquio (1953), Bom Dia (1959): pela austeridade e rigor formal, pela perfeita composição da imagem e a montagem precisa que produz um cinema que capta a essência do homem, das relações familiares, que celebra a existência através do cotidiano. Pela SIMPLICIDADE. Pelas cenas de bar mais comoventes do cinema. Aprendi a filmar (enquadramento, como usar lentes, edição) assistindo a esses filmes de Ozu. Umas 10 vezes cada.

3. Johan van der Keuken: The Eye Above the Well (1988) é uma obra-prima, uma meditação, um filme que nos leva à introspecção espiritual, à contemplação. Johan me mostrou com seus filmes que o documentário também pode ser tudo isso, e que essa divisão entre ficção e documentário não tem nenhuma importância. Me mostrou que o cinema documental, ou qualquer outro tipo de cinema é, acima de tudo, FORMA. A cena do menino cego Herman, em Blind Child, imitando o som dos carros de corrida com um microfone é inesquecível.

4. Michael Haneke: Código Desconhecido: porque retrata a Europa contemporânea com respeito, compaixão e extrema inteligência. Pela estrutura formal minimalista, quase como uma partitura musical. Para mim, Haneke é um dos diretores mais importantes da atualidade.

Esta entrada foi publicada em Maria Augusta Ramos e marcada com a tag . Adicione o link permanenteaos seus favoritos.

Os comentários estão encerrados.