Faróis: Antônio Carlos da Fontoura

Diretor, produtor e roteirista de cinema e televisão. Fontoura nasceu em São Paulo no dia 20 de novembro de 1939. Formado em Geologia e ex-membro do CPC da UNE, ele iniciou carreira no cinema através de curtas-metragens de aproximação com o movimento tropicalista, entre eles Heitor dos Prazeres (1966) que apesar de se tratar de uma biografia do pintor, subverte as noções clássicas narrativas com experimentação entre som e imagem. O mesmo pode ser dito de Ver e Ouvir (1967), no qual registra uma nova geração de artistas plásticos em meio a busca de uma voz particular que vai de encontro à própria proposta pessoal de Antonio Carlos: encontrar-se no cinema.

Já em seu longa-metragem de estreia, Copacabana Me Engana, o cineasta demonstra um olhar particular pela juventude e seus anseios transitando entre a comédia e o drama existencial. Uma conexão que pode ser vista hoje em seu mais recente trabalho de cinema, Somos Tão Jovens (2013), que tem como foco narrativo os primeiros anos da carreira de Renato Russo, ícone do rock brasileiro com sua banda Legião Urbana. A produção de 1968 recebeu o prêmio de melhor roteiro no Festival de Brasília, e hoje é lembrada como uma espécie de raio-x da classe média do Rio de Janeiro no fim dos anos 60, repleta de pose e que entra rapidamente em decadência.

Logo em seguida, Fontoura realiza o seu melhor e mais radical trabalho em A Rainha Diaba (1974). Contando com uma atuação memorável de Milton Gonçalves, o filme narra a saga de um homossexual violento que domina com pulso de ferro o narcotráfico no Rio de Janeiro. Na época o filme foi recebido com algumas críticas negativas que ressaltavam sua violência sem sentido e cenas de tortura, anos depois o longa se tornou cult e merece ser conhecido por novas gerações de cinéfilos.

Normalmente, entre cada projeto de longa-metragem, o cineasta investe em documentários e curtas, como no caso do registro do trabalho da banda Os Mutantes (1970) e de Meu Nome é Gal (1970), clipe da cantora Gal Costa. A música sempre esteve no sangue de Fontoura, que retorna a ela em diversos momentos de sua carreira.

Em 1977, investe em um projeto ousado que unia escravidão e capoeira. O filme Cordão de Ouro foi um divisor de águas em sua carreira. Fontoura enfrentou diversos problemas de produção devido a falta de recursos. A obra chegou a ficar paralisada e incompleta. Contra a sua vontade, Cordão de Ouro foi lançado em circuitos de arte e apesar do tema complexo e diferente, ele se tornou cultuado dentro do universo da capoeira e da umbanda. Uma versão remasterizada da obra em DVD, prometida para 2013, ainda aguarda lançamento para uma revisão necessária.

Durante a proliferação da pornochanchada nos anos 80, Fontoura lança Espelho de Carne (1984), que mais uma vez se torna objeto de culto para cinéfilos. Com uma narrativa de forte teor sexual e abordagem entre a psicanálise e os conflitos existenciais, o filme é baseado em uma peça teatral de Vicente Pedreira e fez 700 mil espectadores na época de seu lançamento.

Fontoura abraça de vez a televisão, com quem já havia flertado e trabalhado antes, que o faz ficar longe dos cinemas por uma década e meia. Somente retorna com o projeto Uma Aventura do Zico (1998), que traz o ex-jogador do Flamengo como ator em uma inusitada história de ficção. Mais alguns anos e três longas-metragens, ele retoma o sucesso de cinema com Somos Tão Jovens.

Filmes faróis:

“Não são os cinco melhores filmes que vi, mas fizeram minha cabeça e não me esqueço deles.”

Acossado (À Boute de Souffle, 1960), de Jean-Luc Godard – Meu primeiro contato com Godard, com a liberdade da câmera e dos personagens soltos  nas ruas de Paris.

Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha – Nunca me esquecerei da sessão, na cabine do antiga Lider, em que vi aquele filme tão diferente de todos que já havia visto no cinema brasileiro.

O Milagre de Anne Sulivan (The Miracle Worker, 1962), de Arthur Penn – Anne Sullivan correndo de um lado para o outro, tentando dizer a palavra água, me inspirou em Copacabana Me Engana.

Memória de Helena (1974), de David Neves – Uma inesquecível,  delicada e discreta lembrança do nosso querido David Neves.

Operação França (The French Conection, 1971), de William Friedkin  – A crueza das ruas, a luz de fontes naturais, a câmera avançando sobre a  ação, me deram confiança para dirigir A Rainha Diaba.

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