Faróis: Murilo Salles

Fotógrafo, cineasta, roteirista e produtor de cinema, Murilo Salles nasceu no Rio de Janeiro em 1950. Filho de pai mineiro e mãe paraibana, ele se autodenomina uma típica cria da geração 68. Formado em Comunicação Social pela UFRJ, já sabia desde os 14 anos que iria trabalhar no cinema. Antes dos 20 anos de idade, já tinha dirigido o seu primeiro curta-metragem, Premissa Menor, Primatas, Amém (1969) e logo depois investiu no documentário em ABC Montessoriano (1970) e Sebastião Prata, ou bem dizendo, Grande Otelo (1971). Mas é na direção de fotografia que começa a firmar o seu nome no cinema brasileiro.

Durante o período de 1973 a 1978, ele deixa a realização de lado e trabalha como fotógrafo em diversos longas onde estabelece uma grande parceria com o cineasta Bruno Barreto. Salles fotografou Tati, a Garota (1973), A Estrela Sobe (1974) e o clássico Dona Flor e seus Dois Maridos (1976). Em meio a esses trabalhos com Barreto, também participa de Um Edifício Chamado 200, de Carlos Imperial, (1974) e de Lição de Amor (1975), de Eduardo Escorel. Todos os projetos apresentam características visuais marcantes que transitam entre a suavidade dos planos em Lição de Amor até a explosão de cores em Dona Flor. É nesse momento que Murilo começa a construir características visuais que vão marcar toda a sua obra como diretor.

O drama Nunca Fomos Tão Felizes (1984) marca a sua estreia como realizador de longas de uma maneira consagradora. Baseado no conto Alguma Coisa Urgentemente, de João Gilberto Noll, o roteiro é uma grande alegoria sobre a ditadura militar através da conturbada relação entre um pai e filho. O filme foi rodado no último ano do governo militar, pois somente em 1985 João Figueiredo passou o cargo para José Sarney. A obra foi vencedora de diversos prêmios no Festival de Gramado e Brasília, além de dezenas de outros em festivais nacionais e internacionais.

Mesmo com a consagração, somente cinco anos depois Murilo lança seu segundo filme, Faca de Dois Gumes, baseado em livro homônimo de Fernando Sabino. Um thriller policial de qualidade que mostra o olhar arguto de Salles para o cinema de gênero, tão relegado ao segundo plano no cinema brasileiro.

Devido à extinção da Embrafilme, o apoio para o cinema nacional no início dos anos 90 chega a quase zero. Portanto, a carreira de Murilo vive grandes hiatos de realização. Na década só dirige apenas dois títulos, o documentário sobre a Copa do Mundo de 1994, Todos os Corações do Mundo (1996) e o drama Como Nascem os Anjos (1996). Em paralelo, ele segue com seu trabalho como diretor de fotografia.

Os anos 2000 mostram o cineasta Murilo Salles com uma pegada jovem e contemporânea. Tanto Seja o que Deus Quiser! (2002) quanto Nome Próprio (2007) traçam um olhar para a juventude ligada à tecnologia e música. Há a utilização da câmera digital e a introdução de novas texturas e estéticas no seu trabalho.

Em 2014, Murilo lançou no Festival de Tiradentes o documentário Passarinho lá de Nova Iorque em que registra o esforço do cineasta Cícero Filho em refilmar cenas de Flor de Abril. Ainda não há informações sobre um novo projeto de ficção.

Filmes faróis:

8 e ½ (1963), de Federico Fellini. Assisti no cine Petrópolis, durante as férias escolares, provavelmente em 1965, com 14 anos de idade. O filme era proibido para menores de 18, mas estava com meus pais. Aquelas imagens, do Marcelo Mastroianni aprisionado no carro, uma outra, a dos braços pendurados às janelas do ônibus e, em seguida, a do personagem que sai voando libertando-se daquele pesadelo certamente ficaram muito fortes no meu imaginário. Sensualidade e religiosidade. Eu vivia essas questões. A educação católica repressora e persecutória. A história de um cineasta preparando um filme enquanto rói as unhas. As tetas de Saraghuina. Mulheres: céu e inferno. Esse filme me ensinou que cinema é vertigem, tal qual ao pesadelo de Guido, que em pleno voo, súbito, desaba ao mar. Corta. Cinema é magia, suspensão e vertigem. Um mergulho no desconhecido da criação. Coragem e encantamento… As dúvidas de Guido em relação ao ato criador. Honestidade? Feitiçaria? Encantamento? O que dizer, se não tenho nada a dizer? Fellini fala em seus planos, seus travellings criando esse estado de vertigem. A imagem. Fellini é antes de tudo a descoberta da potência da imagem do cinema. Encantamento, sedução, vertigem, medo. Isso deve estar guardado em algum lugar dentro de mim.

Blow Up – Depois Daquele Beijo (Blow-up, 1967), de Michelangelo Antonioni. Assisti no Cine Odeon. Esse é “o meu filme” seminal. Em tudo, na sua forma, no seu conteúdo, nas atitudes dos personagens. Esse foi o filme que mais deixou marcas em mim. Eu queria estar ali, dentro daquele filme. O mistério, a narrativa tensa que carrego em meus filmes. Antonioni, acredito, não só em Blow Up, mas em toda sua obra, me influenciou no modo de narrar e no seu recorte de mundo: o desamparo, a fragilidade, a delicadeza, o feminino. Por outro lado, o seu pensamento cinematográfico, a sua tenacidade em procurar uma estrutura narrativa própria do cinema, imagística, por mais que isso pareça hoje meio sem sentido, foi inovador e fundamental para mim e para minha geração. É exatamente o que anda faltando em nossos filmes atuais. Antonioni é meu cineasta predileto. Por tudo, pela atitude e política como cineasta, pelos filmes que fez e por ter casado (mesmo que por um tempo) com Monica Vitti.

No Cine Paissandu fui abduzido pela poética da Nouvelle Vague, que, pelo excesso de novidade, me encantou muito. Acossado (À bout de souffle, 1960) – Godard + Truffaut – Os Incompreendidos (Les Quatre Cents Coups, 1959). Esses dois filmes iluminam até hoje as telas com a liberdade e o encantamento de um cinema que está sendo inventado enquanto filmado.

O Demônio das Onze Horas (Pierrot le Fou, 1965), de Jean-Luc Godard. É um ‘caso’ especial. Talvez o filme que mais tenha visto na minha vida. É o meu “Filme de Geração”. Um filme tese, existencial. A quebra dos gêneros. Invenção e Poesia. Música e Revolução. CHEGA? Depois dele, fica a questão: Qu’est-ce que je vais faire? Je ne sais pas quoi faire.

O “Descobrimento do Brasil”: Como um garoto de classe média, urbano, descobre o Brasil? Na Cinemateca do MAM de Cosme Alves Neto. No turbulento e significante ano de 1968, assisti Deus e o Diabo na Terra do Sol. Um choque de realidade. Esse filme fez minha vida mudar. E nesse mesmo ano assisti a Terra em Transe (no Ópera, na praia de Botafogo) e O Bandido da Luz Vermelha (na Cinemateca do MAM). Com eles funda-se uma cinematografia; funda-se uma identidade; constitui-se um corpo. SIM. O Cinema Brasileiro passa a ter um corpo próprio, isto é, inventa uma linguagem própria, com luz e imagem e narrativas singulares. E isso tem fundamento conceitual: com o espírito ‘traquitana’ de Edgar Brasil – principalmente em Limite + o conceito da imagem foto-jornalística, urdido por Glauber – e que se impõem magistralmente em Vidas Secas. E, essa cinematografia fala com o mundo com O Bandido da Luz Vermelha, que se pergunta ao espelho: Quem sou eu? – Tal como Ana Karina, linda, saltitante, mas casada com o Godard (coitada…) em ‘Ferdinand le fou’.

Teorema (1969), de Pier Paolo Pasolini. Assisti no Condor Largo do Machado. Vital. Brilhante. Talvez o filme dessa época que mais tenha se tornado contemporâneo. Pasolini funda a possibilidade de filmar o singular dentro de uma visão marxista da burguesia. O ‘desbunde’ de uma burguesia que não dá mais conta do mundo pós-maio de 68. Teorema é um anjo exterminador que detona o discreto charme da burguesia. Uma síntese buñuelesca com o cine-poesia de Pasolini. Teorema se tornou contemporâneo porque nasceu contemporâneo. À frente de sua época.

O Conformista (Il Conformista, 1970), de Bernardo Bertolucci. Assisti enquanto começava a fazer cinema fotografando Tati, a Garota. Outro filme FODA. Para mim significa a descoberta de Bernardo Bertolucci e Vittorio Storaro. O Cinema como ‘Ética do Plano’ tão pregada por Godard, mas com uma filiação direta de Orson Welles e Gregg Toland. Um Citizen/Conformist. Mais um filme dos anos 70 tentando dar conta da decadência da burguesia pós-68, mas aqui sob o prisma do fascismo. Dominique Sanda linda, enigmática e desafiadora + os seios e o nariz de Stefania Sandrelli! Política & Eros. Potência Imagística: a ‘cinematografia’ reinventada por Storaro. Um cinema profundamente encantado pelo próprio Cinema.

Bem, chegamos a ele, Buñuel. Difícil dizer qual dos seus filmes me ilumina. Sua obra é marcante e única. Ele é um cineasta fora de todos os ‘eixos’. Me descarrilou já nos dois primeiros filmes ‘Le chien andalou’ e ‘L’âge d’or’. E depois, com Viridiana, Os Esquecidos, O Anjo Exterminador, A Bela da Tarde, O Discreto charme da burguesia, O Fantasma da liberdade e, com seu último, Esse obscuro objeto de desejo, ele me olha desafiando: diz aí Murilo?! Sempre fiquei sem saber ‘onde estava’ ao final dos filmes de Buñuel. Isso é incrível. Seu cinema é desestabilizador. Seu espírito é indomado, surreal, iconoclasta, cruel, nega valores estabelecidos, critica cruelmente a burguesia, mas seu inconsciente é assombrado pela religião católica, e ele persegue, acima de tudo, a liberdade, por mais que negue que ela exista! Esse é Buñuel. O meu Como Nascem os Anjos é uma pequena e singela homenagem a esse que foi um dos grandes gênios do Cinema.

O Ano Passado em Marienbad (L´annèe Dernière à Marienbad, 1961), de Alain Resnais. Assistido no cinema do Museu da Imagem e do Som, na Praça XV. Rigor cinematográfico & Nouveau Roman. Presente e passado se fundem e se confundem. Real, memória & imaginação. Cinema-Cérebro. Vozes suspensas no ar. Delphine Seyrig se oferecendo à câmera, num extasiante assombramento.  Com certeza o cinema, com Marienbad, inventa uma forma de pensar. Talvez, vendo hoje, pareça esquemática e muito racional, mas foi uma forma que libertou o cinema da narrativa literário-hollywoodiana nos abrindo principalmente a cabeça. Por isso continua valendo.

O Bandido Giuliano (Salvatore Giuliano, 1962), de Francesco Rosi.

Foi um impacto. Ressalta primeiro a fotografia de Giani di Venanzo, que atinge aqui seu apogeu, apesar de Fellini 8 e 1/2. O filme me inquietou muito, pois parece um documentário, mas com uma narrativa incrível, ousada, que não respeita cronologia, vai para frente e volta em flashbacks e que nos mantêm aparafusados à cadeira. Para mim, esse filme ‘inaugura’ o ‘mix italiano’ que influenciou enredos de filmes mundo à fora: o estamento do poder, a política e a máfia. Um filme mais que marcante, um verdadeiro ‘sol’.

Alice nas Cidades (Alice in de Städen, 1974), de Wim Wenders. Descobri Win Wenders num período de autoexílio em Paris, assistindo Alice nas Cidades, no Cine des Archives, num dia chuvoso de Abril de 1976. Em seguida quis conhecer a obra desse cineasta tão singular. Naquela época isso era difícil, mas estava em Paris. Logo em seguida, em Junho estreou No Decurso do Tempo que tinha acabado de ser exibido com sucesso na Quinzena dos Realizadores de Cannes de 76. Então, a Cinemateca Francesa exibiu O Medo do Goleiro Diante do Pênalti, e à porta, distribuía um folheto mimeografado com uma entrevista de Wenders, onde ele expunha uma característica muito interessante do seu cinema, onde o tema e a história do filme não contam mais que a imagem e a paixão pelo cinema. Esse entendimento me fez querer fazer o meu primeiro filme. Afinal, eu era um fotógrafo. Nunca Fomos Tão Felizes surge de uma imagem que tinha na cabeça. Depois é que entrou o João Gilberto Noll e seu conto “Alguma coisa urgentemente”. Entre Alice nas Cidades e Nunca Fomos Tão Felizes existe um desamparo geracional muito claro e intenso. De lá pra cá persigo dar conta desse desamparo.


Esta entrada foi publicada em Murilo Salles. Adicione o link permanenteaos seus favoritos.

Os comentários estão encerrados.