Faróis: Tetê Moraes

O bebê de Rose cresceu e estuda medicina em Cuba com bolsa obtida através do MST. Tetê Moraes voltou há pouco de lá com as imagens para um curta sobre Marcos Tiaraju. Será o terceiro opus de uma saga que ela vem documentando como microcosmo de algumas transformações ocorridas no Brasil das últimas décadas.

Tudo começou em meados dos anos 1980, quando Tetê pesquisava para um filme sobre mulheres e a questão agrária, e deparou-se com o imenso acampamento de ocupantes da Fazenda Annoni, no Rio Grande do Sul. Ali conheceu a combativa lavradora Roseli Seleste Nunes da Silva. Terra para Rose (melhor filme nos festivais de Brasília e Havana) mostrou o contexto de sua luta e o seu martírio. Rose carregava e amamentava Marcos nas marchas e manifestações.

Dez anos depois, em O Sonho de Rose, Tetê ousou mostrar experiências bem-sucedidas de assentamento e progresso a partir do Movimento dos Sem-Terra. O filme ajudou a recuperar a memória de Rose dentro do movimento e a obter assentamento para sua família. Os dois filmes foram editados num belo DVD. Agora será a vez de Fruto da Terra, o curta sobre Marcos, integrante de um projeto maior sobre direitos humanos. Quem sabe um dia a trilogia de longas se complete com um possível Frutos de Rose, sobre as crianças de ontem e de hoje dentro do MST.

Tetê Moraes não participa do movimento nem quer ser vista como sua cineasta oficial. Sua ligação é com a luta pela terra, o papel das mulheres e as formas populares de fazer política. A ex-jornalista e ex-funcionária do Itamaraty saiu do Brasil em 1970 depois de ser presa e denunciar torturas do regime militar. Exilada, viveu no Chile, EUA, França e Portugal. Começou no cinema com Helena Solberg em Washington. Em Portugal, fez um Super 8 sobre a ocupação de uma quinta no Alentejo: Aulas e Azeitonas. De volta ao Brasil, em 1979, dirigiu o curta Quando a Rua Vira Casa e o longa Lajes, a Força do Povo (1982), sobre a experiência de participação popular na administração do município catarinense.

Em seu currículo figuram a produção e co-direção de vários documentários sobre o Brasil para a BBC de Londres e outras televisões européias, além de O Ar Nosso de Cada Dia e Pai de Gigantes, este sobre os famosos megabonecos do carnaval de Olinda. O Sol – Caminhando Contra o Vento, lançado recentemente em DVD, tem um tempero autobiográfico, já que a diretora integrou o memorável grupo de jornalistas, intelectuais e artistas que propôs um jornal alternativo, politizado e inteligente em 1967.

Além de trabalhar no curta Fruto da Terra, Tetê está pesquisando e captando recursos para Simplesmente João Donato, um perfil do músico precursor da Bossa Nova e do jazz brasileiro. O roteiro está sendo concebido em parceria com seu companheiro Lysias Enio, irmão e parceiro de Donato numa série de sucessos. Um filme em família, mas não tão diferente dos demais dessa realizadora que sempre se irmana com seus personagens e marcha junto com eles.

A seguir, os filmes-faróis de Tetê Moraes:

“Eu poderia citar também filmes mais contemporâneos, mas preferi voltar ao meu começo e mencionar aqueles que mais me tocaram intelectual e emocionalmente no momento em que eu tomava o caminho do cinema. Filmes que me impressionaram pelas histórias e pela forma de contar.

Corações e Mentes (Hearts and Minds), de Peter Davis (1974). Vi o filme quando exilada nos EUA. A reflexão que ele fazia sobre o Vietnã e os anos 1960 foi muito forte e mobilizadora para quem, como eu, estava interessado no movimento social e político da época. Aqui eu incluiria também Letter to Jane, de Jean-Luc Godard e Jean-Pierre Gorin, e Hanoi, Martes 13, de Santiago Alvarez, uma jóia que diz tudo sem usar palavras.

Harlan County, USA, de Barbara Kopple (1976). Exemplo de um cinema participativo, onde o realizador não dissimula sua posição. Talvez tenha me influenciado um pouco quando filmei Terra para Rose, pois é também a “saga’ de um grupo de pessoas lutando por algo indispensável à sua sobrevivência e foi filmado também em etapas, acompanhando os acontecimentos e com grande envolvimento da equipe com a situação e personagens.

Le Fond de l’Air est Rouge, de Chris Marker (1977). Mais uma reflexão profunda sobre a política da década de 60, aqui como uma colagem das esquerdas e sua crise no período. Sempre que penso nesse documentário, lembro do efeito semelhante que me produziu a ficção Jonas que Terá 25 Anos no Ano 2000 (Jonas qui Aura 25 Ans en l’An 2000), de Alain Tanner.

Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho (1964-1984). Um filme que parte da História para se concentrar nas pessoas é particularmente inspirador para mim. Junto com Os Anos JK e Jango – importantes pesquisas e reflexões de Silvio Tendler sobre o Brasil feitas pós-anistia –, o Cabra mostrou que havia possibilidades para o documentário chegar às salas de cinema. De certa forma, eles abriram caminho para Terra para Rose.

O Declínio do Império Americano, de Denys Arcand (1986). O cinema social feito através de histórias de pessoas. Política e comportamento numa perspectiva subjetiva. Isso me interessa de maneira especial.”

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