Os Documentários Semeiam

O segundo debate da mostra Faróis do Cinema reuniu ontem, dia 29 de março, dois dos melhores documentaristas do cinema brasileiro, Evaldo Mocarzel (“À Margem da Imagem”) e Tetê Moraes (“Terra para Rose”), que puderam expor suas influências cinematográficas em um papo franco mediado pela jornalista Andréa Cals.

A sessão foi iniciada com uma breve apresentação do histórico dos dois homenageados e uma singela homenagem ao montador, cineasta e professor Ricardo Miranda, que infelizmente faleceu no dia 28 de março, deixando um enorme vácuo para o cinema brasileiro. Em seguida, a mediadora promoveu as conexões entre os realizadores: ambos além de diretores são jornalistas, ligados a temas políticos e de direitos dos cidadãos. Exatamente por essas características, Andréa propôs a primeira questão: ‘Existe limite entre o jornalismo e o documentário?’ “O jornalismo é reportagem, fato e contexto de informação. O cinema documentário até parte da notícia, mas usa a dramaturgia e outros elementos para mostrá-la. A diferença principal está na linguagem e na forma”, disse a cineasta Tetê Moraes. Já para Mocarzel, “o jornalismo e o cinema são linguagens muito distintas. O cinema é uma arte fragmentária, que tem um olhar profundo sobre os temas, onde selecionamos um recorte. O jornalismo é construído através do empobrecimento da imagem, que é refém da palavra”.

Após a explanação inicial, os diretores repassaram filme a filme as suas escolhas pessoais de influências, os filmes faróis, presentes na edição do catálogo. Tetê reafirmou que várias referências marcam a sua carreira e isso sempre muda. Mas, com certeza, os cinco longas escolhidos trazem características em comum: “eles pegam a alma da história através dos sentimentos dos personagens. ‘Cabra Marcado para Morrer’ faz isso de maneira exemplar. E é algo que tentei manter em toda minha carreira. Essas inspirações ficam. A linguagem do documentário reside entre a música, a montagem e a emoção”. E Evaldo completou: “todos os filmes selecionados me marcaram profundamente. A maneira de Tarkovski trabalhar o tempo e o sentimento de impotência da arte em mudar são alicerces que levo para a vida toda. Filme é processo. O que restou do processo é incluído nos meus filmes. A discussão do documentário está inserida no próprio cinema. Fazer doc é uma forma de ver o mundo e filmar os movimentos sociais me deixam com vida”.

Tetê Moraes arrematou a conversa e refletiu sobre o papel do documentário: “começamos a fazer documentários sem entender totalmente o objeto e os personagens. Os docs podem não mudar o mundo, mas eles semeiam e abrem portas”.

A mostra Faróis do Cinema continua em cartaz na Caixa Cultural/RJ até o dia 6 de abril, sempre com sessões diárias. O próximo debate acontece no dia 1º de abril, às 19h, e reúne os cineastas Murilo Salles (“Nunca Fomos Tão Felizes”) e Eduardo Nunes (“Sudoeste”). Até lá!

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