Viva a película!

Veteranos premiados do nosso cinema, Antonio Carlos da Fontoura e Walter Carvalho concordaram mais do que discordaram, em termos gerais, no debate mediado pela jornalista Andrea Cals, ontem, 27 de março, em seguida às exibições de “O Balão Vermelho” (um dos faróis de Walter) e “A Rainha Diaba” (grande sucesso de Fontoura).

Apesar de suas personalidades e formações originais bem distintas, Fontoura e Walter defenderam vigorosamente suas escolhas em comum por “Acossado” (Godard) e “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (Glauber) como dois de seus filmes faróis, em função do que representam, atemporalmente, em termos de liberdade: tanto no ato de criar quanto na forma de fazer filmes.

Walter, formado em design e explicitamente influenciado pela pintura – uma de suas atividades pontuais, inclusive – comentou que enxerga um filme literalmente quadro a quadro, confessando que apaixonou-se pela estória do menino e seu balão, realizada por Albert Lamorrisse, em forma de livro impresso, no qual a saga dos personagens é contada visualmente, através de frames retirados do filme, ao qual ele, Walter, viria a assistir algum tempo mais tarde e confirmar seu deslumbramento por aquelas imagens em sequência. Ele fez questão de levar o livro para que o público conferisse a razão de seu encanto.

Fontoura, também interessado em artes plásticas, além da música – uma paixão permanente – contou que atirou-se ao cinema de maneira mais personalista, colocando-se na pele de alguns de seus primeiros personagens, como por exemplo na do jovem típico de uma parcela da classe média da Zona Sul carioca, em “Copacabana me Engana”. Sobre “A Rainha Diaba”, Fontoura reconhece que, mesmo como integrante da intelectualidade meio hippie, meio burguesa do cenário ipanemense da época, já se preocupava com o sangue que corria por trás do cenário onde se comercializavam as drogas no Rio de Janeiro; nesse filme, Fontoura acredita que foi uma espécie de seminal ao levar a questão às telas.

Sobre o panorama atual do cinema em geral, e do brasileiro em particular, quando questionados pela plateia, Walter mostrou-se um tanto pessimista e algo saudosista, argumentando que os formatos cada vez mais exigentes por parte dos mercados estão engessando a forma e esvaziando o conteúdo dos filmes, a ponto de afirmar que muitas vezes enxerga o roteiro como um opressor da autoralidade. Fontoura, por sua vez, acredita que as novas gerações vão encontrar novas formas de fazer cinema, driblando as dificuldades, como vem acontecendo desde sempre.

Ao longo do debate, mais dois pontos de concordância veemente: a rejeição por filmar em digital e o desconforto em assistir filmes em 3D: “Eu passo mal”, diz Fontoura; “Isso não é cinema”, completa Walter.

Numa última rodada de perguntas, os cineastas contaram quais são seus trabalhos em curso: Fontoura está prestes a trabalhar como diretor contratado no documentário “Estado de coisas: São Sebastião do Rio de Janeiro” e Walter está iniciando “Brincante”, com o músico performático Antonio Nóbrega, e, ao mesmo tempo, tirando da gaveta um projeto que alimenta de longa data: “Uma História de Cinema” – a composição de uma sequência de partes não aproveitadas em seus filmes anteriores.

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Uma resposta a Viva a película!

  1. Não pude ir ao debate, mas, depois de ler o ótimo texto da Olga, foi como se tivesse ido. Esse tipo de registro é fundamental para o compartilhamento da mostra.