A Preponderância da Imagem

Um, “cria” da UFRJ dos anos de chumbo; o outro, o equivalente em relação à UFF do início dos anos 2000. Murilo Salles e Eduardo Nunes, respectivamente, cineastas que ontem, 1º de abril de 2014 – dia seguinte à data emblemática que marcou os 50 anos da instauração da ditadura militar no Brasil – conversaram descontraidamente, sob a mediação da jornalista Andréa Cals, no terceiro debate promovido pela Mostra Faróis do Cinema.

Na tarde que precedeu o encontro, foram exibidos seus longas-metragens de estreia: Murilo, com “Nunca Fomos tão Felizes”; Eduardo, com “Sudoeste”. Cineastas de gerações e linguagens diferentes que convergiram o tempo todo num ponto crucial para ambos: a preponderância da imagem sobre qualquer outro elemento no momento exato em que se forma uma ideia, na mente do realizador, que pode vir a transformar-se numa obra audiovisual.

Não coincidentemente, Eduardo Nunes, que contabiliza seis anos de curso de cinema e mais o equivalente como professor, elege entre seus faróis um filme mudo – “Limite”, de Mário Peixoto – e tem em Tarkovski uma referência recorrente que beira o sagrado. Foi nessa linha mais filosófica existencial, uma característica pessoal, que urdiu e realizou seu belíssimo “Sudoeste” ao longo de 10 anos, que hoje é reprisado às 16h30, na Sala 1, da Caixa Cultural. Cineasta formado numa época duríssima para o cinema brasileiro, pós-extinção da EMBRAFILME, praticamente sem qualquer apoio, Eduardo, assim como seus amigos de mesma formação, realizou muitos curtas até chegar a seu primeiro longa, persistindo sempre na busca pelo lúdico; inclusive, sua relação com o mundo virtual exclui o excesso de informação que esses meios acarretam, respeitando de forma extremamente afetuosa o ato de assistir a um filme numa sala de cinema absolutamente escura: “A ida a uma sessão de cinema é acima de tudo uma experiência de sentidos.”, como definiu.

Murilo, confessando-se um típico “rato de cinemateca”, aquela espécie de caçador de filmes que levavam os cinéfilos mais aguerridos a enfrentar longas filas para conferir exibições de conteúdo fora do mainstream nos anos 70, assume que é um produto de sua época, e que toda a sua cinematografia é essencialmente política, mesmo que parta de imagens/ sentimentos de seus personagens, caso típico de “Nunca Fomos tão Felizes”. Fotógrafo de formação, disse que já se sentia cineasta desde seus 16 anos de idade, fazendo curtas enquanto galgava sua carreira, que, de diretor de fotografia, chegou inevitavelmente à de realizador. Confirmando “8 1/2″, de Fellini, como seu filme farol mais marcante, paralelamente aponta, no entanto, Antonioni como seu cineasta favorito. Tendo na personagem do fotógrafo de “Blow Up” seu alter ego projetado, reconhece o filme também como um farol importantíssimo: “Eu queria ser aquele cara!”.

Murilo Sales, no momento, tem uma obra já finalizada: “Os Fins e os Meios”. Eduardo Nunes, por sua vez, está trabalhando na adaptação para cinema do livro “A Morte Feliz”, de Albert Camus. Mais uma vez, cada qual em consonância com suas respectivas essências, tanto como pessoas quanto como diretores.

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