Eduardo Coutinho, um farol para o cinema brasileiro

Inevitável reunir dois grandes amigos do documentarista Eduardo Coutinho (São Paulo, 11/ 05/ 1933 – Rio de Janeiro, 02/ 02/ 2014) – o grande homenageado desta terceira edição da Mostra Faróis do Cinema – sem ter seu nome citado diversas vezes ao longo do debate entre o cineasta e produtor João Moreira Salles e o crítico de cinema José Carlos Avellar. No debate de 03 de abril de 2014, mediado pela jornalista Andréa Cals, João e Avellar conversaram com o público sobre Coutinho e sobre seus outros respectivos faróis.

No início de sua carreira como jornalista, como crítico de cinema responsável por “dar nota” aos filmes que entravam em cartaz no circuito, Avellar começou a se sentir ao mesmo tempo incomodado com as regras rígidas de se avaliar e recomendar ou não uma obra e cada vez mais instigado a conhecer melhor a intenção do realizador por trás da mesma. Assim, começou a ler sobre cinema, e foi taxativo ao eleger o russo Sergei Eiseinstein, através de seus textos da segunda metade dos anos 1920, em especial “A Dramaturgia do Filme”, como seu grande farol – responsável mesmo pela sua migração de mero classificador da qualidade formal dos filmes a ensaísta sobre os mesmos, seus diretores e a linguagem cinematográfica em si. Avellar também se sentiu instigado a fotografar nas ruas, sem uma meta específica; isso, porém, gerou imagens hoje históricas dos anos de chumbo, como o enterro do estudante Edson Luis. Foi nesse métier, inclusive, que se consolidou a amizade, para além do companheirismo de trabalho no Jornal do Brasil, com Eduardo Coutinho.

João Salles, por sua vez, economista que já imaginava que não exerceria a profissão, menciona em sua lista de faróis filmes mais contemporâneos do que seus colegas em geral, tais como os documentários “Videogramas de Uma Revolução” e “Diário de uma Busca” (este da também brasileira Flavia Castro) – precedentes a seu “Notícias de Uma Guerra Particular”, exibido antes do debate. Confessando-se não propriamente um cinéfilo, mas sim alguém apaixonado por pintura e literatura, prefere colocar-se como influenciado mais pelo que lê do que pelo que assiste, no tocante a seus filmes. Egresso da televisão nos anos 1980, quando aceitou ser sócio de seu irmão Walter Salles na produtora Videofilmes, João revelou que seu processo de transição, tanto de seus documentários para TV quanto da direção de comerciais, passando a valorizar mais a imagem e o modo de fazer do que um tema específico, deu-se a partir da decisão de lecionar – o que o motivou a ler ainda mais, especialmente sobre como fazer filmes. João aponta a amizade com Coutinho, que veio a conhecer numa edição do Festival “É Tudo Verdade” – ele, com seu “Notícias…”; Coutinho, com “Santo Forte” – como preponderante e acima de qualquer influência que possa ter sofrido a partir de então. João relata que, daquele encontro em diante, Coutinho se tornou seu grande farol, passando a produzir o veterano. “Babilônia 2000″ foi o primeiro de uma parceria/amizade firmada até o último dia de vida de Coutinho.

Nos momentos finais do debate, instigados pelo crítico de cinema Carlos Alberto Mattos, tanto João quanto Avellar reconheceram que puderam, de alguma forma, também influenciar Eduardo Coutinho: Avellar, ao ter apoiado o cineasta a realizar “Santo Forte”, um filme considerado difícil; João, pelo incentivo constante sobre qualquer ideia que mantivesse Eduardo em atividade, percebendo que era num set de cinema que o grande amigo, mestre e mentor se sentia plenamente feliz.

Enquanto Avellar continua escrevendo sobre cinema e participando de festivais ao redor do mundo, João tomou para si a missão de finalizar o último filme de Eduardo Coutinho: “A Palavra”. Totalmente filmado, será montado por Jordana Berg, e terá seus cortes finais realizados por João – “O filme vai ser feito.”, garante o cineasta. Ao mesmo tempo, inicia as pesquisas em torno da ideia de um documentário de compilação de imagens de 1968, tanto no Brasil quanto no mundo.

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