O Cinema entre a Realidade e a Ficção

João Batista de Andrade

Em função da ausência involuntária da cineasta Tata Amaral ao último debate da terceira edição da Mostra Faróis do Cinema, o mesmo, conduzido pela jornalista Andréa Cals na noite de 05 de abril de 2014, voltou-se para uma conversa em torno do veterano João Batista de Andrade. O cineasta discorreu tanto sobre sua trajetória de vida pessoal quanto profissional, enfatizando sempre sua inquietação, tanto como pessoa quanto como artista, desde muito cedo – com um foco especial na realidade brasileira.

João Batista, mineiro de nascimento, partiu para São Paulo em 1960, levando na mala sua crise existencial; lá chegando, a fim de cursar engenharia na USP, tendo seu curso interrompido pelo golpe de Estado de 1964. Porém, João contou que foi exatamente na Faculdade, enquanto pôde cursá-la, que descobriu de tudo um pouco em termos de arte, como leitor e escritor voraz que sempre havia sido. No entanto, foi ao deparar-se com o cinema que sofreu seu grande impacto: “O cinema foi avassalador para mim.” Começava então sua carreira, inicialmente como participante do grupo “Kuatro”, sem, no entanto, jamais ter parado de escrever.

A partir da descoberta de um cinema fora do mainstream hollywoodiano, seu ponto de vista acerca de filmes e de como fazê-los tornou-se algo para além da mera descrição da realidade, e sim tendo esta como ponto de partida para uma investigação. Em 1967, já filmando de forma independente, realizou o documentário “Liberdade de Imprensa”, o primeiro de uma série de outros de conteúdo político-social.

Ao longo da conversa com o público, João reconheceu influências em seu trabalho, podendo ser literárias, como “O Vermelho e o Negro”, ou inevitavelmente cinematográficas, como o neorrealismo japonês e italiano. Quanto a esse último, reconhece a ligação que existe naturalmente entre “O Bandido Giuliano”, de Francesco Rossi, um de seus faróis, com o episódio por si produzido e dirigido para o Globo Repórter, tendo sua exibição proibida por todas as instâncias do governo: “Wilsinho Galiléia”.

Utilizando atores em seus filmes desde 1977, João opta a partir de então pela fusão da realidade com a ficção, objetivando mostrar um fato consumado, para de forma imaginativa, buscar as razões várias que levaram à consumação daquele fato. Apesar das coincidências que envolvem os bandidos Giuliano e Wilsinho – dois renomados marginais que têm por trás de si histórias contundentes e reveladoras de questões sociais graves – João insiste em filmar sem pesquisa ou qualquer excesso de preparação. Conta que foi assim que descobriu muito mais sobre Wilsinho e seu universo do que se tivesse pesquisado. “Eu faço filmes.” – afirma o cineasta, que de certa forma repudia a ideia de uma separação radical entre documentário e ficção.

Questionado sobre algum farol contemporâneo, João Batista reconhece que considera atualmente muito difícil inspirar-se em algo ou alguém; cita, então, “Melancolia”, de Lars Von Trier, pela sua carga de desesperança perante um mundo tão conturbado. Ainda assim, afirma que se deve seguir em frente, evitando abordar os assuntos pelas beiras: “Vamos direto ao meio do prato!”, propõe.

Atualmente, o cineasta está envolvido na pré-produção do filme “Bravo!”, sobre o músico e regente Carlos Gomes, foco de um projeto para o qual foi contratado como diretor.

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