Faróis: Adirley Queirós

Foto: Iano Andrade/CB/D.A PressUm dos mais peculiares cineastas brasileiros contemporâneos, Adirley Queirós é filho de uma família de imigrantes mineiros que se instalou em Goiás nos anos 1960. Cresceu na periferia de Brasília, onde foi jogador de futebol até se afastar dos campos por causa de uma contusão. Trabalhou em hospital e deu aulas particulares de reforço antes de entrar para o curso de Comunicação da Universidade de Brasília. Seu primeiro curta, Rap, o Canto da Ceilândia, ganhou diversos prêmios e rapidamente projetou seu jeito franco, popular e ao mesmo tempo sofisticado de fazer cinema.

Depois do curta Dias de Greve e do média Fora de Campo (sobre boleiros da periferia), Adirley estreou no longa com A Cidade é uma Só? e prosseguiu com o inovador Branco Sai. Preto Fica, sempre mesclando gêneros e driblando as linhas divisórias entre ficção e documentário.

Quando elegeu seus filmes-faróis para a revista Filme Cultura, em julho de 2013, ele já trabalhava no projeto de um futuro filme, que assim apresentou ao crítico Daniel Caetano:

“Um filme sobre um concurso que fizeram em Brasília em 1995, um concurso de cartas de pessoas das periferias que seriam abertas em 2010 – iam ser abertas, mas não foram, e o tema era para que cada um falasse do seu amor por Brasília. Agora nós estamos achando esses personagens. Dessa vez eu vou ter que trabalhar com muitas personagens femininas, é uma experiência diferente para mim – eu sou um cara das quebradas, do universo da periferia, machista. E o filme também trata disso, desse universo por onde essas mulheres circulam e vivem”.

Os comentários de Adirley sobre suas escolhas definem à perfeição esse cineasta que se coloca entre a cinefilia mais inocente e as atrações do “grande cinema”:

Django, de Sergio Corbucci
Eu não sou cinéfilo desde novo, a minha cinefilia é muito recente, de uns anos para cá. Hoje em dia eu tenho até que me segurar, porque a curiosidade acaba sendo grande sobre um universo que eu ainda estou descobrindo. Mais jovem, os filmes que eu curtia eram os de caratê ou bangue-bangue. E esse filme é uma coisa fantástica.

Se Encontrar Sartana, Reze pela sua Morte, de Gianfranco Parolini
Outro faroeste e, como o Django, outra história de vingança. É uma história que ficava na imaginação das cidadezinhas do Brasil – ia chegar um forasteiro e aconteceria a vingança.  Eu ainda quero fazer um filme de vingança, já tenho até título para ele: Grande sertão: quebradas, uma vingança contra o poder instituído.

RoboCop – o Policial do Futuro, de Paul Verhoeven
Foi um filme que eu vi no cinema na época, na tela grande, e isso me marcou muito, acho que permanece até hoje no meu imaginário.

Blade Runner, o Caçador de Androides, de Ridley Scott
Foi outro filme que me abalou muito quando vi no cinema, saí da sala meio fora do eixo… Não ficava pensando em estética do cinema, mas mexeu comigo.

Serras da Desordem, de Andrea Tonacci
Aí já é um filme do tempo em que eu comecei a fazer cinema e a querer conhecer mais. É um filme que eu já vi mais de 10 vezes e acho que é o filme de que eu mais gosto.  Se eu tivesse que dizer qual é o melhor documentário do mundo, eu ia dizer que é esse.

O homem-urso, de Werner Herzog
Eu fiquei impactado com essa narrativa dele, como ela te joga para aquele lugar.

Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia, de Hector Babenco
É um filme que eu só vi na televisão e me marcou bastante, era o que a gente podia chamar de cinema policial brasileiro.

O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho
É um filme que parece ser um documentário, é um grande documentário!

Fantasmas, de André Novais Oliveira
Eu passei esse filme outro dia para uma turma de estudantes e é impressionante como os moleques ficam arregalados com aquela narrativa, com as falas do Gabriel e do Maurílio, aquele sotaque mineiro das quebradas.

São Bernardo/ABC da Greve, de Leon Hirszman
Sempre que começam a falar para a gente do Cinema Novo vem a figura do Glauber – e eu gosto muito dos filmes dele, tem que falar dele mesmo. Mas eu não conhecia nada sobre o Leon e o São Bernardo. Quando vi o filme, gostei demais. Também é um faroeste, do jeito dele. A minha memória é toda de filmes de faroeste, o Fantasmas também é um… E o ABC foi um filme que me impressionou pelas cenas da greve no estádio, eu não tinha ideia de como tinha sido a coisa no ABC.

Esta entrada foi publicada em Adirley Queirós. Adicione o link permanenteaos seus favoritos.

Os comentários estão encerrados.