Faróis: Aurélio Michiles

A Amazônia, onde nasceu, e o cinema, onde se criou, são os grandes temas por onde passeia o cinema de Aurélio Michiles. Sua formação em artes cênicas passou por Brasília e Rio de Janeiro, mas sua atividade profissional se estabeleceu principalmente em São Paulo. Dirigiu os documentários O Sangue da Terra, A Agonia do Mogno, Teatro Amazonas, Que Viva Glauber! e Lina Bo Bardi, entre outros.

Suas obras mais conhecidas, porém, são as que juntam Amazônia e cinema: o mix de fic e doc O Cineasta da Selva, sobre o pioneiro Silvino Santos, e o recente Tudo por Amor ao Cinema, sobre o manauara Cosme Alves Netto. Michiles é um cinéfilo apaixonado e com frequência deixa marcas disso no seu blog Ceuvagem. Outro rastro seu é o filho André Lorenz Michiles, jovem e promissor cineasta que já demonstrou talento como um dos diretores dos longas Osvaldão e Através.

Solicitado a apontar seus filmes-faróis, Aurélio começou por comentar a difícil tarefa:

“Como selecionar 10 filmes favoritos? Filme favorito é uma cena, um fotograma, talvez uma sequência de um tempo-determinado, algo como um álbum de família, todas as vezes que se aprecia, logo descobre-se uma foto, um instante que faz crescer o significado desta ou daquela imagem. Por fim, aqui temos corajosamente um seleção. Meu deus, quantos favoritos ficaram de fora. Mas quem sabe de uma outra vez possa incluí-los.”

Aí estão os filmes-faróis de Aurélio Michiles:

O Homem com a Câmera (Chelovek s kinoapparatom), de Dziga Vertov
Trata-se de um autêntico farol. Para os cineastas, sobretudo aqueles que realizam documentários, é sem dúvida um dos filmes mais importantes de todos os tempos. Dziga Vertov acreditava  na teoria do cinema-verdade (Kino Pravda), na qual propõe filmar apenas a “verdadeira realidade”, com a câmera representando o olho do homem ou o cineasta-máquina. Neste filme-doc as imagens são de grande impacto visual. Vertov, ainda hoje, mantém o frescor da inventividade. Qual é o segredo do “cinema-verdade”? A realidade é aquilo que você enquadra, filma, monta e mostra.

Aguirre, a Cólera dos Deuses (Aguirre, der Zorn Gottes), de Werner Herzog
Do meu ponto de vista, não conheço nenhum filme que tenha retratado tão bem o imaginário megalômano que impregna aqueles que ousam colonizar a selva amazônica do que este filme de Herzog.  É uma espécie de O Coração das Trevas (Joseph Conrad) ou Apocalipse Now (F.F. Coppola), onde aflora o lado sombrio da natureza humana. A câmera desliza respeitosamente sobre as cenas. Somos acachapados pela interpretação de Klaus Kinski, seus olhos e sua boca obscena a todo instante revelam a sua atormentada alma. Ele não abrirá mão, em hipótese alguma, da sua tenacidade em dominar e conquistar aquela imensidão e dela se proclamar todo-poderoso. A sua cobiça encontra-se ao nível das tragédias shakespearianas. A sequência final, depois de ter praticado todas as atrocidades contra todos que se encontravam ao seu alcance, Aguirre, por fim sozinho, vestido pateticamente com uma armadura de ferro e couro em pleno calor amazônico, navega à deriva, sem poder ancorar em terra-firme… Acompanhado de centenas de macacos.

Iracema, uma Transa Amazônica, de Jorge Bodanzky e Orlando Senna
Tanto na maneira como foi produzido como na condução duma sofisticada e reveladora narrativa cinematográfica, onde ficção e documentário se misturam para nos revelar aquilo que não se podia mostrar, “a verdadeira Amazônia que ninguém via”. Um filme fundamental sobre a permanente estranheza amazônica.

Dersu Uzala, de Akira Kurosawa
Um personagem que assume significado metafórico de um tempo que chega ao fim. Refiro-me ao elogio do início do século XX às máquinas, às cidades e ao progresso. No filme, quando o personagem Dersu vai passar um tempo na cidade, ele se sente um animal enjaulado, ao contrário da sua vida na natureza, quando a liberdade lhe é plena, tanto física como espiritualmente. Nesse sentido, Kurosawa se antecede aos movimentos que começam a ganhar voz em defesa da preservação do meio-ambiente sob a ameaça do progresso e de uma civilização que cultua a urbanização e o consumo. Tema que retoma no filme Sonhos (1990), onde Kurosawa revela a sua preocupação  com a ameaça da civilização industrial.

Nostalgia da Luz (Nostalgia de la Luz), de Patricio Guzmán
Este é um documentário assombroso, mas que transita com delicadeza entre a poesia e a política. No deserto de Atacama (Chile), enquanto os astrônomos procuram as nossas origens nas longínquas galáxias, um grupo de mulheres removem areia e pedras, na esperança em encontrar vestígios dos seus familiares enterrados aí, clandestinamente, durante a ditadura Pinochet.

O Poderoso Chefão (I, II e III) (The Godfather), de Francis Ford Coppola
Eis um filme que nasceu clássico. Impossível ficar indiferente àquela família de imigrantes italianos nos EUA – a saga pela sobrevivência e permanência nesta terra prometida do “novo mundo”. Um filme sobre o crime, tema recorrente na filmografia estadunidense, mas aqui, nesta sua versão, Coppola retrata o cotidiano de uma família italiana vinculada ao crime organizado com um carisma que se torna impossível não admirá-la. Talvez tenha sido um dos filmes a que mais assisti em toda a minha vida e não canso de re-assistir. Sempre haverá algo a descobrir. É cinema na veia.

O Desprezo (Le Mépris), de Jean-Luc Godard
Este filme pode até ser sobre a subjetividade do fim de um casamento, mas desconfio que aí esteja o incômodo constatar de Jean-Luc Godard sobre os limites da linguagem cinematográfica, ao menos, de um  certo cinema. Tanto que nesta mesma época ele declara: “Aguardo com tranquilidade o fim do cinema”. Em O Desprezo, Godard, em parceria com Alberto Moravia, realiza um sofisticado enredo em que se misturam mitologia grega (Odisseia) e a indústria de cinema. Ele nos brinda sem sutilezas, e em primeiríssimo plano, a nudez da mulher mais desejada do mundo naqueles anos 1960, a atriz Brigitte Bardot, que neste filme interpreta uma Penélope às avessas.

Di-Glauber ou Ninguém Assistiu ao Formidável Enterro de Sua Última Quimera; Somente a Ingratidão, Essa Pantera, Foi Sua Companheira Inseparável, de Glauber Rocha
A filmografia de Glauber é uma permanente referência do cinema brasileiro, mas não podia perder esta oportunidade de celebrar a sua inventividade cinematográfica (Deus e o Diabo, Terra em Transe, O Dragão da Maldade, A Idade da Terra…) escolhendo este doc-curta essencialmente glauberiano. Este filme é uma explosão de irreverência e criatividade como somente os grandes artistas podem se dar de corpo e alma a liberdade. Apesar de ter sido reconhecido com o Prêmio de Melhor Curta no Festival de Cannes, a incompreensão dos herdeiros do pintor Di transformou a existência deste filme num dos mais longos casos de censura a uma obra de arte no Brasil. Até hoje continua sonegada ao acesso público esta visceral homenagem de um amigo vivo a outro amigo morto.

Verdades e Mentiras (F For Fake), de Orson Welles
A filmografia de Orson Welles é uma referência permanente, sobretudo Cidadão Kane, mas ouso celebrar F for Fake. Realizado em 1973, tornou-se uma premonição desses tempos em que vivemos. “Fake” virou um adjetivo, os limites do engodo, da mentira – a Verdade implodida pela ganância. Vale o baixo preço, não importa o quanto de tragédia tenha custado: “made in paraguay”…”made in china”… Filmaço imperdível.

Morangos Silvestres (Smultronstället), de Ingmar Bergman
Tenho por este filme um princípio transformador. Tinha 13 anos quando assisti a Morangos Silvestres pela primeira vez. Era uma cópia 16mm, riscada, quem sabe faltando muitos fotogramas, numa sessão de cineclube em Manaus. Havia entrado na sala quando a sessão já havia começado. Ao final da sessão não tinha entendido muita coisa, mas sentia-me arrebatado por este filme de Bergman, e pensava que em cinema se podia contar uma história do jeito que se queria contar, afinal, o cinema é uma linguagem de imagens(!). O frescor surrealista da narrativa pegou-me radicalmente. Mas foi cinco anos depois que assisti novamente e aí, desta vez, desde o início. Bergman com maestria recorre à psicanálise, à História e sobretudo à memória para destrinchar nossas avaliações sobre a vida, amor, sonhos e morte.

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