Faróis: Carlos Manga

Foto: Tânia Rêgo/Universo ProduçãoEm 2010, a revista Filme Cultura publicou os filmes-faróis de Carlos Manga (1928-2015) na seção “E agora?”. Na ocasião, Daniel Caetano conversou com ele e colheu impressões sobre sua carreira e a atualidade do cinema brasileiro. Transcrevemos a matéria a seguir:

Reconhecimento
“Eu parei depois de 25 filmes. Todo mundo me anarquizava. Eu atualmente recebo cada homenagem que chego a ficar confuso, com vergonha. Eu não esperava, porque só levava porrada. Os caras citam as cenas, os textos dos meus filmes. O cara sabe o texto! Você sabe o que sinto aos 82 anos quando alguém fala este tipo de coisa sobre um filme que eu fiz aos 20 anos? Eu vejo um garoto de 19, 20 falar isso… Você pode imaginar o que eu sinto? (longo suspiro emocionado). O Manga é um tremendo sentimental. Sou um homem extremamente sensível, que desenvolve a sensibilidade como um lutador desenvolve seus músculos”.

Último filme
“Eu renovei em dezembro meu contrato com a TV Globo por mais três anos. Eles querem que eu veja o todo, opine sobre tudo. Em seguida, volto para fazer o meu último filme. Já fiz bastante comédia. Agora quero fazer alguma coisa mais profunda, mais dentro de mim. A gente com 82 anos tem uma sensibilidade diferente. Estou indeciso, mas que vou fazer, eu vou. Não tenho queixas da televisão, que me tratou muito bem. Mas eu quero fazer cinema”.

Carmen Miranda
“Fui a uma festa com a presença de Carmen Miranda, nos anos 50. Durou uma noite e um outro dia inteiro. Ela cantou e dançou até que uma hora não aguentava mais, se deitou no sofá e pediu para que eu tirasse aqueles seus imensos sapatos. Me pediu uma massagem, e eu disse ‘claro!’. Ela me disse: ‘Você conhece muito o que é brasileiro. Eu queria que você dirigisse um filme sobre a minha vida’. Mas não consegui fazer o filme. A família veio aqui na minha casa, querem que eu faça. Mas estão cheios de compromissos, pegaram dinheiro com um, pegaram com outro. Os direitos são uma confusão. Eu não quero me meter nisso. Me faz mal essa negociação por causa da Carmen”.

Amor pelo cinema
“A primeira vez que fui ao cinema foi no Cine Ipiranga, em Jacarepaguá. Vi o absurdo de Dr. Gogol, o médico louco, que me deixou alucinado. Me apaixonei. Anos depois, quando já trabalhava e fazia faculdade, cheguei um dia para o meu pai e disse: ‘Vou pedir demissão e trabalhar em cinema’. Ele me disse: ‘Você vai ser porteiro do Cinema Odeon?’. (risos) Mas depois que ele se aposentou, botava terno e saía só para dizer que era pai do Carlos Manga. Tenho muito amor pelo cinema. É uma arte maravilhosa. Eu tenho que completar estes 80 e tantos anos dentro do cinema. Antigamente, eu ia ao cinema todo dia e quatro vezes no fim de semana. Continuo vendo muitos filmes. Ontem mesmo comprei 15 DVDs. Quando vejo um filme, esqueço da vida. E o que é pior, esqueço que trabalho em cinema, que dirijo. Eu me vendo todo. Depois eu volto para ver como é que o diretor fez aquilo.”

De quem é o filme?
“50% do diretor, 40% do roteirista e 10% do ator. É difícil roteirizar, o cara saber como é que conta uma história.” E o produtor? “Tem alguns de capacidade, mas a maioria bota dinheiro para ganhar”.

Meus melhores filmes
“Sem ser comédia, eu gosto de O marginal. Das comédias, O homem do Sputnik é a melhor.”

Cinema brasileiro de hoje
“O cinema brasileiro, assim como o italiano, perdeu o seu caminho e está procurando um rumo. Eles vão achar. O cinema não acaba nunca. O cinema brasileiro não está definido. Acabou a fase política (do Cinema Novo), e está meio zonzo: tem filme de Lula, sobre a polícia, aí vem uma comédia com o Daniel… Falta um desenho. O cinema tem que ser um desenho exato dos costumes de um povo. As comédias que a Atlântida fazia, embora tenham o epíteto de chanchada, representavam a alegria do brasileiro, a irresponsabilidade do carioca. Mas nós vamos nos compor e encontrar o nosso caminho.

Abaixo, os filmes-faróis de Carlos Manga:

Houve uma Vez um Verão (Summer of ‘42), de Robert Mulligan
Eu vi uma cena que eu fiquei abismado. Acabou o filme, eu fiquei sentado e vi de novo. Uma cena de amor entre um garoto e uma mulher linda que perdeu o marido durante a guerra. Robert Mulligan é pouco conhecido, mas cada diretor tem um momento…

Pão, Amor e Fantasia, de Luigi Comencini
Com Gina Lollobrigida. O cinema italiano teve uma fase maravilhosa. O filme é tão simples, tão meigo, tão bonito.

Ladrões de Bicicleta, de Vittorio de Sica
Um homem, um garoto e uma bicicleta, e você sai do cinema assim… O cinema italiano era muito carinhoso, ao contrário do (homem) italiano, sempre expansivo.

O Grande Momento, de Roberto Santos
É um filme brasileiro, com costumes brasileiros, hábitos brasileiros, e muito bem feito.

A Ponte de Waterloo, de Mervyn LeRoy
Com Robert Taylor e Vivien Leigh. Eu gosto de romances açucarados. Eu tenho um lado emocional muito aguçado. Às vezes eu gosto de coisa piegas.

A Mulher Faz o Homem (Mr. Smith Goes to Washington), de Frank Capra
O James Stewart falando horas no Senado sem poder parar… Gosto de todos os filmes de Capra.

Gangues de Nova York, de Martin Scorsese
Eles reconstruíram a Nova York da época inteira. Uma coisa impressionante. Não tem uma cena que não tenha no mínimo 50, 60, 70 pessoas. É de um calor, de uma firmeza. Eu não tinha muita simpatia pelo Leonardo DiCaprio, mas com aquele diretor qualquer um é ator.

Scarface (1932), de Howard Hawks
Com Paul Muni. É um filme de um matador e você desculpa todos os erros que ele cometeu. Fazer isso é difícil.

Matar ou Morrer (High Noon), de Fred Zinnemann
Com Gary Cooper. Um cara esperando o bandido que vai chegar no trem. A cidade toda se acovarda. Ele fez o filme na duração da chegada do trem.

Seu Único Pecado (The Way of All Flesh), de Louis King
Com Akim Tamiroff. Um homem que volta para casa depois de muitos anos de cadeia, vê os filhos grandes e a mulher já senhora através da janela. Ele de barba. É piegas, mas eu tenho esse lado.

De Orson Welles, John Ford e John Huston, gosto de todos os filmes, todos! A começar pelo Cidadão Kane, que é um filme muito bem dirigido, cheio de novidades, com um roteiro originalíssimo. Você fica falando de alguém que você não sabe quem é. E você fica cada vez mais preso na tela. E sou fã dos musicais e das comédias americanas. Um Convidado Bem Trapalhão… Peter Sellers me fez rir muito. Gosto de todos os filmes dos irmãos Marx e também de alguns do Jerry Lewis.

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