Faróis: Jia Zhang-ke

Jia Zhang-ke, o mais prestigiado cineasta da chamada Sexta Geração do cinema chinês, tem suas memórias e sua obra investigadas no documentário Jia Zhang-ke, um Homem de Fenyang, de Walter Salles, em lançamento no Brasil. Com filmes como Xiao Wu, Plataforma, O Mundo, Em Busca da Vida (Leão de Ouro no Festival de Veneza) e Um Toque de Pecado (prêmio de roteiro em Cannes), entre outros, Zhang-ke revelou-se um criador tão pessoal quanto identificado com uma tradição do cinema autoral chinês e internacional.

Em 2013, por ocasião de um encontro com estudantes da Academia de Cinema de Pequim – onde ele estudou na juventude e agora é considerado um ídolo –, o diretor de Prazeres Desconhecidos discorreu sobre os realizadores e filmes que tiveram importância na sua formação e influenciaram seu trabalho. Uma edição desse depoimento está no livro O Mundo de Jia Zhangke, organizado pelo crítico francês Jean-Michel Frodon e Walter Salles. Com base nesse texto, extraímos aqui os Faróis de Jia Zhang-ke e os respectivos comentários.

Esta é primeira edição dos Faróis do Cinema com um realizador estrangeiro.

O Deserto Vermelho, de Michelangelo Antonioni
Utilizamos no curso para estudar as cores no cinema. Mas o que me marcou foi o espaço, o espaço da fábrica e a sensação de solidão e alienação. Fascinado por Antonioni, consegui todos os seus filmes na videoteca. Ainda hoje gosto particularmente de A Noite e de Chung Kuo – China. Adoro o passeio meditativo de A Noite. Com Antonioni, eu me dei conta de que o espaço pode perfeitamente tornar-se protagonista de um filme.

Um Condenado à Morte Escapou, de Robert Bresson
Esse filme me fez descobrir a noção de tempo no cinema. Os gestos cotidianos do personagem na prisão, a utilização dos objetos servem menos para obter um resultado particular do que para fazer com que os espectadores entrem na percepção da duração tal como o prisioneiro a sente. Foi então que comecei a questionar a ideia de eficácia na narrativa.

Ladrões de Bicicleta, de Vittorio De Sica
Ensinou-me muito sobre a estrutura das imagens, e que há uma ordem natural nessa estrutura. A passagem do dia à noite, do vento, da chuva, do trovão e dos raios: para mim, o cotidiano está contido nessa organização natural das condições climáticas. Gosto principalmente de uma cena onde o pai e o filho fogem da chuva. Nas ruas de Roma, de repente começa a chover, e os vendedores ambulantes dão no pé. Pai e filho se abrigam debaixo de uma marquise, e um grupo de religiosos se aproxima. Para mim, isso é poesia do cotidiano. A chuva traz um vocabulário e uma linguagem poéticos, e o barulho da chuva cria um momento poético.

Onde Fica a Casa do Meu Amigo? e O Passageiro, de Abbas Kiarostami
O que mais me impressionou nos filmes de Kiarostami foi sua forma simples e, com essa simplicidade, como ele consegue revelar um pensamento filosófico delicado e rico.

Pai e Filha, de Yasujiro Ozu
Era uma Vez em Tóquio é perfeito, no entanto, prefiro Pai e Filha, no qual os sentimentos humanos me são mais diretamente familiares. Os filmes de Ozu mostram as mudanças nas relações humanas tradicionais provocadas pela industrialização, modernização e transformação. Elas são bem parecidas com a vida dos chineses dos anos 90.

Dersu Uzala, de Akira Kurosawa
Eu não sabia bem o que pensar do filme, mas alguma coisa me emocionou: o caçador deixa sal e fósforos para os que passarão mais tarde. Deixa um meio de sobrevivência para eles. O lado mais luminoso da humanidade surgia nesse entorno primitivo.

Os Garotos de Fengkuei, de Hou Hsiao-hsien
É a história de um grupo de jovens de um vilarejo de pescadores em Taiwan, que deixa o vilarejo para ir morar na capital da província. Essa experiência é parecida com a de grande parte de meus amigos e com a minha. Eu me dei conta de quanto a experiência pessoal era importante, pois Hou Hsiao-hsien havia filmado sua própria experiência, mas ela tinha valor universal. A partir de 1949, conforme a definição das artes revolucionárias, o cinema chinês não mostrou mais indivíduos, ele perdeu seu “eu”. A experiência ou a vida pessoal já não tinham valor. O que valia era a descrição de herói, era preciso contar uma história lendária a serviço da revolução. Aos poucos a vida cotidiana e o “eu” do ser humano desapareceram. E de repente um filme de Taiwan me fazia aceder à experiência de alguém muito diferente de mim, mas em quem eu me reconhecia. Ele inspirou minha concepção de cinema.

A Tocha de Zen, Raining in the Mountain e Legend of the Mountains, de King Hu
Além de serem filmes de artes marciais, fiquei impressionado com a imaginação do cineasta para descrever a sociedade chinesa do passado. Eles me permitiram precisar minha compreensão do tempo e do espaço naquela época distante, semilendária. O cinema de King Hu me fez compreender a relação inalienável entre o homem e a natureza.

As Coisas Simples da Vida, de Edward Yang
Imediatamente senti que Yang havia encontrado um ótimo enfoque para fazer com que se compreendesse a sociedade chinesa, as relações sociais, para reproduzir de modo correto e significativo a maneira como o personagem principal se conduz com sua mulher e seu antigo mestre, como ele trata seus filhos e seus amigos. As Coisas Simples da Vida me comoveu por sua capacidade de mostrar em um mesmo movimento a vida de um ser particular e a do mundo de que faz parte.

Terra Amarela, de Chen Kaige
Para mim, continua sendo o mais importante da Quinta Geração, foi o filme que me levou a me tornar cineasta, mesmo o tendo visto com atraso. Durante os anos 80 e até o início dos 90, os cineastas da Quinta Geração foram muito criativos, tanto em termos de linguagem cinematográfica como em termos de reflexão sobre a história e a tradição chinesas. Havia neles uma revolta que provocou um impacto enorme sobre a cultura.

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