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	<title>Faróis do Cinema &#187; Luiz Carlos Lacerda</title>
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		<title>Curto-circuito de literatura-cinema-arte</title>
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		<pubDate>Fri, 16 Dec 2011 13:17:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>carmattos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Luiz Carlos Lacerda]]></category>
		<category><![CDATA[Malu De Martino]]></category>
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		<category><![CDATA[Mostra 2011]]></category>

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		<description><![CDATA[por Patricia Rebello Ele acha que roteiro é uma peça de literatura, no sentido de que informa o desenvolvimento de uma história. Ela acha que roteiro não tem nada de literário, e que é a descrição dos enquadramentos do filme, &#8230; <a href="http://www.faroisdocinema.com.br/2011/12/curto-circuito-de-literatura-cinema-arte/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>por Patricia Rebello</strong></p>
<p><a href="http://www.faroisdocinema.com.br/blog/wp-content/uploads/2011/12/Encontro-Bigode-Malu.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1243" title="Foto: Maria Eduarda Tavares" src="http://www.faroisdocinema.com.br/blog/wp-content/uploads/2011/12/Encontro-Bigode-Malu.jpg" alt="Foto: Maria Eduarda Tavares" width="800" height="358" /></a></p>
<p>Ele acha que roteiro é uma peça de literatura, no sentido de que informa o desenvolvimento de uma história. Ela acha que roteiro não tem nada de literário, e que é a descrição dos enquadramentos do filme, o quinhão de literatura que se transforma em imagem. Ele veio da literatura. Ela do vídeo. Ele chegou no cinema através das sessões de desenho animado do <em>Tom &amp; Jerry </em>no Metro Copacabana. Ela não gosta de desenhos animados, e entrou na tela grande pela porta dos museus de arte. E talvez porque a beleza no cinema esteja na promoção de encontros entre heterogeneidades e diferenças, Luiz Carlos Lacerda, o &#8220;Bigode&#8221;, e Malu De Martino são grandes amigos. E foi justamente a cumplicidade nas diferenças que deu o tom do terceiro encontro da II Mostra Faróis do Cinema, onde o curto-circuito entre cinema, literatura e arte, o cinema americano e, claro, filmes que &#8220;dão tesão de fazer cinema&#8221;, foram discutidos com muito bom-humor.</p>
<p>Mas não são apenas as diferenças que unem os dois realizadores. Logo de saída, o mediador Carlos Alberto Mattos lançou uma provocação à mesa: &#8220;Será que, de uma maneira inversamente proporcional ao espaço ocupado no mundo inteiro, o cinema americano não influencia tanto assim o cinema brasileiro?&#8221;. Malu e Bigode concordaram que existe, sim, uma influência do cinema americano por aqui. Mas de um certo cinema. &#8220;Cinema independente americano é independente como em qualquer lugar do mundo. Acho que o cinema deles tem a ver com o trabalho da gente&#8221;, disse Malu. Já Bigode comentou sobre o impacto da descoberta dos filmes de Orson Welles e Andy Warhol. &#8220;E de Billy Wilder, que fazia filmes de estúdio sem deixar a coisa ficar apenas na indústria&#8221;, disse ele, lembrando de <em>Quanto Mais Quente Melhor</em> (&#8220;foi um filme precursor ao colocar a questão da sexualidade de uma forma amoral&#8221;, disse). Vale dizer que um dos filmes-faróis de Malu De Martino é uma das pérolas da cinematografia wilderiana, <em>Crepúsculo dos Deuses.</em> &#8220;A primeira cena do filme&#8221;, disse ela, &#8220;que mostra o cadáver na piscina gera um tremendo impacto quando você descobre que é o cadáver que vai narrar a história. Isso é cinema&#8221;, conta. Vale também lembrar que <em>For All</em>, o filme de Bigode que está em cartaz na Mostra, gira em torno da presença de americanos em uma base militar em Natal (RN) durante a II Guerra Mundial, e todas as (novas) relações morais e amorais que se estabelecem a partir do contato. &#8220;Me interessa a transgressão&#8221;, disse Bigode.</p>
<p><a href="http://www.faroisdocinema.com.br/blog/wp-content/uploads/2011/12/Bigode.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1246" title="Foto: Maria Eduarda Tavares" src="http://www.faroisdocinema.com.br/blog/wp-content/uploads/2011/12/Bigode.jpg" alt="Foto: Maria Eduarda Tavares" width="302" height="326" /></a>Filho de João Tinoco de Freitas, importante produtor e financiador de filmes nos anos 1950, seria natural pensar que o cinema era uma carta marcada no destino de Bigode. Mas não. &#8220;Eu achava um saco ficar nos bastidores. Nunca pensei em fazer cinema. Meu primeiro contato foi durante a filmagem de <em>Balança Mas Não Cai</em>, baseado em um programa de rádio. Um dia eu fui ao estúdio e me botaram em uma fila para ganhar presente do Primo Rico (Paulo Gracindo). A gente pegava o saquinho e saía de cena. Quando eu abri o &#8220;presente&#8221;, descobri que tinha só serragem. Pensei: <em>o cinema é isso então, mentiroso e pobre</em>&#8220;. Com o bom-humor que lhe é peculiar, Bigode continuou: &#8220;Eu escutava o povo lá de casa falar de uma das produções de papai, <em>Rio 40 Graus,</em> e achava que era coisa de previsão do tempo, não entendia nada&#8221;. A luz do projetor só foi acender para ele no dia que, acompanhado do pai, foi assistir a <em>Ladrões de Bicicleta</em>, um de seus faróis. &#8220;Eu escutava todo mundo falar sobre esse filme nas reuniões de papai com o grupo que, mais tarde, iria formar o Cinema Novo. Um cinema político, que falasse da realidade social. Nessa época, o cinema que eu conhecia era entretenimento. Quando vi <em>Ladrões de Bicicleta</em>, percebi que o cinema também serve para contar histórias pequenas, humanas, a partir de uma realidade terrível. Foi um impacto enorme compreender que podia fazer algo mais que contar histórias, sem precisar, necessariamente, servir a uma causa&#8221;. Uma explicação semelhante justifica a presença da animação <em>Sinfonia Amazônica</em> na sua lista de faróis. &#8220;Acostumado que estava com os desenhos de <em>Tom &amp; Jerry, </em>me surpreendi ao ver curumins, araras e papagaios falando português, elementos do folclore brasileiro, na tela. O cinema tornava isso possível.&#8221;</p>
<p><a href="http://www.faroisdocinema.com.br/blog/wp-content/uploads/2011/12/Malu.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-1247" title="Foto: Maria Eduarda Tavares" src="http://www.faroisdocinema.com.br/blog/wp-content/uploads/2011/12/Malu.jpg" alt="Foto: Maria Eduarda Tavares" width="278" height="335" /></a>Já Malu faz parte de uma geração que abriu caminho a golpes de foice durante a década de 1980, quando o hiato entre o cinema nacional e o grande público foi estendido ao extremo. Ela começou na fotografia, em São Paulo, lapidada nos trabalhos com fotógrafos de peso, como Vânia Toledo, Paulo Rocha e Alberto Travassos. &#8220;Foi assim até o Marcelo Machado, um dos fundadores da produtora independente Olhar Eletrônico, me convencer a ir para Nova York estudar vídeo&#8221;. O curso de seis meses se estendeu por um período de dois anos. De volta ao Brasil, Malu desembarcou na nova cultura do vídeo que começava a proliferar. Fez videoclipes, vídeos de arte sobre instalações e exposições. Foi desse circuito entre arte e vídeo que surgiu sua primeira produção para o cinema, <em>Ismael &amp; Adalgisa</em>, uma mistura de documentário e ficção sobre o triângulo afetivo-intelectual entre Ismael e Adalgisa Nery e Murilo Mendes. &#8220;Tenho muito interesse no cinema como representação plástica, e o cinema expressionista alemão é a síntese dessa ideia&#8221;, disse ela ao comentar um de seus faróis, <em>O Gabinete do Dr. Caligari</em>.</p>
<p>A relação entre cinema e literatura também tem forte apelo nos dois diretores. &#8220;Sou um leitor compulsivo&#8221;, disse Bigode, acrescentando que a mistura entre escrita e imagem, a ênfase no discurso, foram os elementos que o aproximaram de realizadores como Jean-Luc Godard (<em>Pierrot le Fou</em> é um de seus faróis). &#8220;Me sinto atraído pela maneira como o Godard desrespeita regras estabelecidas, os cânones sagrados&#8221;. Esse gosto pela transgressão também se estende na relação entre literatura e cinema. &#8220;A realidade é tão mais cinematográfica que não é possível permanecer prisioneiro da realidade dos livros. Mas as pessoas são caretas, gostam de uma camisa de força&#8221;, comentou. &#8220;É preciso fazer o cinema abrir as portas para a realidade, para daí então ele se transformar em outra coisa&#8221;. Foi exatamente o que impressionou Malu ao cotejar a leitura de <em>Vidas Secas</em>, de Graciliano Ramos, ao filme de mesmo título adaptado para o cinema por Nelson Pereira dos Santos. &#8220;Quando você lê um livro, você está fazendo suas próprias imagens, projetando seus sentimentos, fazendo seu filminho pessoal. Da primeira vez que vi <em>Vidas Secas</em> fiquei encantada em como era possível transformar aquele filminho que era só meu em algo que podia alcançar muito mais gente.</p>
<p><strong>Patricia Rebello</strong></p>
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		<title>Faróis: Luiz Carlos Lacerda</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Aug 2011 20:24:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>carmattos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Luiz Carlos Lacerda]]></category>
		<category><![CDATA[Faróis de cada um]]></category>

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		<description><![CDATA[Filho do produtor João Tinoco de Freitas, ex-assistente de Ruy Santos e Nelson Pereira dos Santos, o célebre “Bigode”, menos conhecido como Luiz Carlos Lacerda, carrega o cinema no sangue desde que botou a literatura em segundo plano a partir &#8230; <a href="http://www.faroisdocinema.com.br/2011/08/farois-luiz-carlos-lacerda/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.faroisdocinema.com.br/blog/wp-content/uploads/2011/08/Luiz_Carlos_Lacerda.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-924" src="http://www.faroisdocinema.com.br/blog/wp-content/uploads/2011/08/Luiz_Carlos_Lacerda.jpg" alt="" width="249" height="314" /></a>Filho do produtor João Tinoco de Freitas, ex-assistente de Ruy Santos e Nelson Pereira dos Santos, o célebre “Bigode”, menos conhecido como Luiz Carlos Lacerda, carrega o cinema no sangue desde que botou a literatura em segundo plano a partir dos anos 1960. Suas referências e admirações são tantas que ele não conseguiu limitar-se a 10 filmes-faróis. Citou 16 (ou melhor, 17), obrigando o blog a listar seus “extras”, conforme abaixo.</p>
<p>Os filmes mais conhecidos de &#8220;Bigode&#8221; têm a marca da contestação comportamental, sendo dois deles em torno de sua grande amiga Leila Diniz: <em>Mãos Vazias </em>(1971), protagonizado por ela, e <em>Leila Diniz </em>(1987), uma cinebiografia amorosa. <em>O Princípio do Prazer </em>(1979) incluía entre vários temas controversos o incesto, a alienação social e a criação de um monstro em cativeiro. Autor de muitos curtas documentais sobre artistas brasileiros, “Bigode” teve as relações internacionais como subtema de suas duas últimas comédias, <em>For All – O Trampolim da Vitória </em>(1997) e <em>Viva Sapato! </em>(2004). Desde então, há quem pense que ele desligou a máquina criativa. Mas isso está longe de ser verdade.</p>
<p>A televisão e os festivais continuam exibindo seus vídeos mais recentes, que não são poucos. É o caso de <em>A Morte de Narciso</em>, perfil do fotógrafo Alair Gomes, precursor do nu masculino na fotografia brasileira. Ou de <em>Ze.com </em>e <em>Esta Pintura Dispensa Flores</em>, perfis dos pintores Zé Tarcísio e Victor Arruda, respectivamente. A partir de contos de João do Rio, realizou o vídeo de ficção <em>Vida Vertiginosa</em>. Sobre a passagem pelo Brasil do grupo Living Theatre, fez o média <em>Diário de Aquário</em>. Para a série Retratos Brasileiros do Canal Brasil, dirigiu programas sobre os atores Paulo Villaça, Arduíno Colasanti, Carlos Kroeber, Maria della Costa e Nildo Parente; os cineastas Alex Viany e Ruy Santos (este ainda inédito), o dramaturgo Oduvaldo Viana Filho, o cenógrafo Anísio Medeiros e o montador Raimundo Higino, além de seu pai João Tinoco.</p>
<p>Este ano, “Bigode” concluiu e estreou no Cine-PE o longa documental <em>Casa 9</em>, evocação de um célebre endereço no Rio, onde ele morou nos anos 1970 e era um <em>point</em> de gente de cinema e de música. Nos últimos anos escreveu os roteiros dos longas <em>Bom Crioulo</em> (adaptação do romance homônimo de Adolfo Caminha); <em>Nisia</em> (sobre a feminista potiguar do século XIX); e <em>Gloria</em> (vida da atriz Darlene Gloria). No momento, dedica-se a roteirizar o longa <em>Introdução à Música do Sangue </em>a partir de um argumento inédito deixado especialmente para ele pelo escritor Lúcio Cardoso (1912-1968), um dos seus mentores intelectuais e cujos 100 anos de nascimento se comemoram em 2012.</p>
<p>Outra atividade frequente têm sido os workshops de direção nas Mostras de Tiradentes, Ouro Preto e Belo Horizonte, entre outros locais. A oficina do Recine este ano será com ele – e já está batendo recorde de inscrições.</p>
<p>Quem quiser conhecer melhor a trajetória de Luiz Carlos Lacerda pode ler o livro preparado por Alfredo Sternheim para a Coleção Aplauso, <em>Prazer &amp; Cinema</em>. <a href="http://aplauso.imprensaoficial.com.br/livro-interna.php?iEdicaoID=163" target="_blank">Clique para ler ou baixar</a>.</p>
<p>Mas só aqui no blog você encontra os comentários de “Bigode” sobre os filmes que mais pesaram na balança da sua formação. Fique, então, com os seus Faróis:</p>
<p><strong>Sinfonia Amazônica</strong>, de Mario Latini<br />
Acostumado a ver as sessões Tom &amp; Jerry nos primeiros domingos do mês às 10 h da manhã no Metro Copacabana com minha mãe, assistir a um filme falado em português, com curumins, araras, saguis, papagaios e tamanduás foi um dos maiores acontecimentos na minha infância. Essa foi a primeira grande emoção que o cinema me proporcionou.</p>
<p><strong>Ladrões de Bicicleta</strong>, de Vittorio De Sica<br />
Eu fazia parte do público dos filmes americanos da Metro, os musicais com Fred Astaire e Ginger Rogers; os capa-e-espadas com Stewart Granger; os dramas com Elizabeth Taylor e Montgomery Clift, etc.Ver com meu pai esse filme do De Sica – P&amp;B, com não-atores selecionados entre os pobres vitimados pelo desemprego do pós-guerra – foi muito marcante. Não tinha ainda consciência do quanto aquela forma de filmar influenciaria o cinema independente no mundo, impulsionaria através do Nelson Pereira dos Santos a ir pras ruas filmar a nossa realidade, com nossos atores, brancos e negros, alguma coisa a que hoje chamamos de identidade cultural.</p>
<p><strong>Rio 40 Graus</strong>, de Nelson Pereira dos Santos<br />
Meu pai, João Tinoco de Freitas, foi um dos produtores.Vi a filmagem da sequência com Glauce Rocha e Roberto Bataglin (de fuzileiro naval) na Avenida Atlântica. Esse filme marcou a minha vida pessoal – os amigos de meu pai Alex Viany, Ruy Santos e o próprio Nelson frequentavam nossa casa aos domingos, e eu ouvia as discussões políticas e estéticas, a proibição do filme pela polícia.Vê-lo na tela confirmava tudo aquilo que eles falavam : a necessidade de um cinema que refletisse e ajudasse a discutir os problemas brasileiros. Foi emocionante constatar que havia uma preocupação com a psicologia dos personagens, herança das emoções contidas nos filmes neorrealistas italianos.Gostava muito e era frequentador das chanchadas, mas o mesmo efeito que me provocou <em>Ladrões de Bicicleta</em> em relação aos filmes da Metro, foi o de <em>Rio 40 Graus</em> em relação às chanchadas maravilhosas com Oscarito, Grande Otelo, Ankito, Zé Trindade e Violeta Ferraz.</p>
<p><strong>Tabu</strong>, de F. W. Murnau<br />
A utilização de não-atores, a deslumbrante luz de sua fotografia (somente comparável à de Gabriel Figueroa nos filmes de Buñuel, com certeza seu discípulo), a mise-en-scène despojada e que poderia vislumbrar-se no que mais tarde se convencionou chamar de naturalismo, a narrativa quase <em>naïf,</em> talvez numa homenagem inconsciente às pinturas de Paul Gauguin em seu exílio voluntário na então colônia francesa – o Taiti&#8230;. Esse filme também revi muitas vezes, movido pela paixão da primeira visão.</p>
<p><strong>Pickpocket, </strong>de Robert Bresson<br />
Esse mestre do cinema europeu reafirmava minha experiência estética que os filmes de Mário Peixoto, Bergman, Murnau, Buñuel, e mais tarde Pasolini, Antonioni, Bertolucci e Visconti provocavam. Bresson era a radicalidade da autoria, da afirmação soberana do tempo infinito enquanto necessário de um plano; a construção cinematográfica que contestava a pressa burguesa de um cinema que se pretendia mercadológico e de entretenimento puro e simples.Alguma coisa também moral me sinalizava, a admiração pelo personagem do ladrão, que o aproximava de Jean Genet no pavilhão do malditismo de outros artistas <em>outsiders</em> que sempre admirei.</p>
<p><strong>Pierrot le Fou</strong>, de Jean-Luc Godard<br />
Essa versão de <em>Une Saison en Enfer</em>, de Rimbaud, me arrebatou. Não sei se pelo anarquismo de seu discurso cinematográfico, pelo descumprimento das regrinhas de continuidade, de edição, da quebra de uma hierarquia convencional de decupagem, ou pela imediata identificação com a poesia do jovem Rimbaud – meu poeta preferido.</p>
<p><strong>Zabriskie Point</strong>, de Michelangelo Antonioni<br />
A beleza das imagens, a fotografia hiperrealista e antropofagizada da TV, em especial da publicidade, substituíram com esse filme todo e qualquer discurso político sobre a questão da poluição do meio-ambiente, da dominação do marketing e sobretudo da sociedade de consumo que nos levou ao desastre em que o planeta se transformou hoje. No longuíssimo plano final, uma explosão de tudo o que podemos imaginar de chamados “bens duráveis”, em câmera lenta, toda a produção do capitalismo midiático e consumista vai pelos ares. E identificamos a solidão de cada objeto, como se fosse possível esculpir o retrato da solidão do homem moderno através deles.</p>
<p><strong>Panorama do Cinema Brasileiro</strong>, de Jurandyr Noronha<br />
Trabalhei nesse filme como assistente. Foi a grande aventura que me possibilitou ver filmes raros e conhecer algumas figuras históricas do nosso cinema (Humberto Mauro, Mário Peixoto, Adhemar Gonzaga, José Medina, o crítico Jose Sanz). Foi o filme que me revelou a grandeza da cinematografia realizada pelos cineastas brasileiros, a diversidade de olhares e de intenções estéticas ou simplesmente comerciais – mas até essas, equivocadas ou não, reveladoras de um estilo que nos distingue e nos identifica. Esse filme solidificou minha formação como cineasta, numa época em que o acesso a essas informações era tida como impossível. A sensibilidade de J. Noronha ao lidar com uma equipe de “consultoria histórica” que tenderia a  consolidar suas preferências cinematográficas, a sua imparcialidade, me impressionaram e me ensinaram muito. E o seu faro, paciência de arqueólogo dessas imagens que hoje constituem um patrimônio dos mais importantes da nossa cultura .</p>
<p><strong>Verdades e Mentiras (F for Fake)</strong>, de Orson Welles<br />
Sempre fui aficionado dos filmes de Welles, mas esse especialmente, por tratar de questões contemporâneas como a ética e a autoria na obra de arte. O que são a mentira e a verdade? – seus conceitos cambiáveis e mutantes, determinados pela bússola da moral que está no poder no momento. E inaugura uma montagem nova, desde os tempos de Eisenstein congelada, que Glauber batizaria mais tarde como “nuclear”, utilizada em seu filme “Di” – hoje absorvida pela TV e pela publicidade.</p>
<p><strong>Almodóvar</strong><br />
Difícil definir um dos filmes dele que me marcaram e continuam me marcando. Na contemporaneidade, Pedro Almodóvar me trouxe a alegria e o resgate do prazer do cinema, de assistir e ter vontade de realizar. Representante do que se chama por cultura “camp”, mescla suas referências culturais “eruditas” (de Buñuel, inclusive) com a glorificada cultura pop da Factory de Andy Warhol, do “mau gosto” kitsch de todo o imaginário latino (de Sarita Montiel e de tangos) também incorporados pelo Tropicalismo de Caetano Veloso –  presença em alguns de seus filmes. E principalmente por ser o arauto, através de seus personagens, da inserção da expressão da homossexualidade no cinema contemporâneo, sem fazer disso uma performance mal-humorada, ressentida ou chata – que costuma ser a marca de todo e qualquer discurso militante.</p>
<p><strong>EXTRAS</strong></p>
<p><strong>A Idade do Ouro</strong>, de Luis Buñuel<br />
Na Cinemateca do MAM, reduto dos jovens cinéfilos da minha geração, comandado por Cosme Alves Neto, vi a obra-prima do mestre do surrealismo cuja obra acompanhamos enquanto ele existiu. Era a consubstanciação dessa  poética vislumbrada em <em>Limite</em> (que eu vira antes) como se fosse a materialidade do movimento surrealista que eu conhecia na pintura. Mestre Buñuel, for ever!</p>
<p><strong>Ludwig</strong>, de Luchino Visconti<br />
Toda a obra requintada e passional desse grande autor do cinema moderno me proporciona um prazer muito grande. Mas esse filme, em particular. Não é à toa que Visconti também dirigiu óperas. A concepção “espetacular” de seus filmes, onde o detalhe tem a fundamental importância na arquitetura conjuntural, não abandona o foco na paisagem emocional de seus personagens. A tragédia de Ludwig, sua obstinada paixão, solidão e decadência não deixam de ser uma metáfora política do mundo em que viveu Visconti – sensível às questões sociais e políticas.</p>
<p><strong>Morangos Silvestres</strong>, de Ingmar Bergman<br />
Assisti com minha amiga Leila Diniz, adolescentes, no Cinema Alvorada – no Posto 6, o primeiro “cinema de arte”, programado por Fabiano Canosa. Leila chorava, eu me dividia entre uma narrativa às vezes confusa para mim e as belas imagens, os muitos e  emocionantes closes daqueles rostos torturados – que se assemelhavam aos personagens de Lúcio Cardoso, mestre da introspecção psicológica no romance brasileiro. Havia naquele filme, além da problemática da morte – tema que os neobeatniks com os quais  me identificava também prezavam –, uma construção da narrativa num tempo especial jamais visto por mim.</p>
<p><strong>Memórias do Subdesenvolvimento</strong>, de Thomaz Gutiérrez Aléa<br />
O cinema godardiano filmado na ebulição da revolução cubana inaugura um rompimento na linguagem do cinema latino só comparável ao que a fotografia de Luiz Carlos Barreto em <em>Vidas Secas</em> (de Nelson P. S.) seria capaz de provocar. Impressionante e provocadora também é a coragem de um enfrentamento político com o status revolucionário (a revolução dentro da revolução), seus excessos e marchas-a-ré. A antológica sequência dos “delegados do povo” em visita ao apartamento “burguês” do personagem principal que pretende continuar acreditando na revolução, a revelação do preconceito e da inveja humanos travestidos de luta de classes é inusitada, especialmente naquele momento.</p>
<p><strong>Édipo Rei</strong> e <strong>Medeia</strong>, de Pier Paolo Pasolini<br />
Dois exemplos de um cinema poético que me impressionaram muito. Referência onde me inspirei para realizar alguns filmes ou sequências inteiras, inconscientemente. Nos filmes de Pasolini identifico a pintura de grandes mestres (Caravaggio, por exemplo) que foram buscar na beleza do povo das ruas a fonte inspiradora de suas obras.</p>
<p><strong>Limite</strong>, de Mário Peixoto<br />
Era a constatação de que podia existir um cinema poético! Toda a minha formação de esquerda, os discursos patrulheiros que eu ouvia contra o filme (Glauber e Alex Viany escreveram) não foram suficientes para manter o distanciamento político recomendado. A arrebatadora poética de <em>Limite</em> me revelou uma nova maneira de se fazer cinema.</p>
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