Faróis: Victor Lopes

Victor Lopes está a ponto de se tornar o mais eclético dos realizadores brasileiros. Não fossem algumas pendências de direitos, ele já estaria mostrando no Festival do Rio o esperadíssimo Serra Pelada, documentário que promete ser definitivo sobre aquele pedaço da história recente brasileira. Há pouco concluiu as filmagens principais de Agamenon – o Filme, faltando agora os “depoimentos” que vão ancorar esse falso documentário. Se será o Zelig brasileiro, só a estreia em 2012 o dirá. Ao mesmo tempo, Victor finaliza uma série sobre o Enem para o Canal Futura. “É um retrato de uma geração de brasileiros, em torno dos 17 anos, que está protagonizando uma grande transformação, principalmente no interior do país”, resume.

Se você prestar atenção, encontra na fala de Victor Lopes um resquício de sotaque lusitano, sobretudo nos seus momentos de entusiasmo oral, quando fala de cinema. Victor nasceu em Moçambique, tem nacionalidade portuguesa e radicou-se no Brasil há cerca de 30 anos. Em 2004, ele passeou pelo idioma de Camões, Machado e Mia Couto no doc Língua – Vidas em Português, rodado no Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Goa (Índia), França e Japão.

Conheci-o em 1994, no rastro do sucesso de Vênus de Fogo, vídeo-alerta sobre Aids para prostitutas que virou cult dos antenados de então – uma geração que lhe deve, no mínimo, a fundação do histórico Núcleo Atlantic de Vídeo, em parceria com Ulysses Nadruz, também corroteirista de Língua. Os trabalhos de Victor para a TV incluem as séries Noções de Coisas, escrita por Darcy Ribeiro, e Free Jazz, composta de 45 docs musicais dirigidos em parceria com Roberto Berliner. Realizou, ainda, TVdocs sobre dança contemporânea e quatro trabalhos para a vídeo-instalação permanente do Museu da Língua Portuguesa, em SP. Para a Copa do Mundo de 2006, criou em Berlim uma instalação de 42 metros de altura, simulando um estádio virtual com jogadas históricas de Pelé. Perdeu a conta dos prêmios recebidos por seu curta de ficção Bala Perdida.

Suas escolhas de filmes-faróis e, mais ainda, a qualidade de seus comentários revelam uma compreensão profunda dessa consulta aos cineastas brasileiros. São observações pessoais, refletidas e bem apresentadas. Confiram:

O Homem com a Câmera, de Dziga Vertov
Num mundo onde em breve teremos mais câmeras do que pessoas, a dinastia dos Kinoks estava apenas começando. Um filme vertiginoso, arrebatador, inesquecível e inalcançável por conta da montagem sagrada do cinema mudo. É parte de uma família muito especial de filmes sobre o cotidiano e a transformação da paisagem urbana durante a década de 20 em que tenho uma predileção por Rien que les Heures, de Alberto Cavalcanti (uma presença vital na minha história do documentário), e Chuva, de Joris Ivens. Assisti durante um curso com José Carlos Avellar, Ronald Monteiro e Cosme Alves Neto no MAM, aos 17 anos, e me lembro até hoje do sentimento de andar por aqueles corredores e sentir a certeza de que pertencia a alguma coisa. Para mim o ritmo é um elemento essencial no Cinema, e O Homem com a Câmera marcou uma certa forma sensorial, invisível e percussiva que atravessa os filmes que mais me impressionam em todas as épocas e gêneros. Para além do futuro, ficam também os textos de Vertov. E tudo começou com cidades em silêncio.

Gare du Nord, de Jean Rouch
O filme que me apresentou a Jean Rouch é o seu único trabalho em ficção que conheço, episódio de Paris visto por… Um curta composto por um plano-seqüência magistral que marca também a ascendência de Rouch na genética da Nouvelle Vague. Só depois fui mais fundo na obra deste homem incrível, poeta entre mundos, eras e culturas diferentes que antecipa o planeta migrante que atravessamos hoje. Crônica de um Verão, Eu, um Negro, Jaguar, e Os Mestres Loucos são forças profundas que acompanham todo documentarista quando liga a câmera, mesmo que ele não saiba disso. A primeira versão de Língua, exibida só no circuito de festivais, abria na Gare du Nord com um enorme plano-sequência casual que acabava num beijo não encenado de um casal se encontrando. A cena, pensada em homenagem a Rouch, ficou excelente mas, supérflua para o filme, foi cortada na versão final lançada nos cinemas.

I Clowns, de Federico Fellini
Um documentário felliniano que mora também na dimensão afetiva de uma sessão na casa de Joaquim Pedro de Andrade em 1983, depois do seu curso no Circo Voador. Na minha formação, representou a afirmação do documentário como uma força poética e cinematográfica capaz de avançar em novas possibilidades de narrativa e realização. Já marcado pelo ideário de Glauber (o caminho do cinema são todos os caminhos), foi o filme que me mostrou que fazia sentido dirigir ficção e documentário. Ainda que os dois só se misturem como farsa – ou F for Fake – posso apontar a sequência do enterro do palhaço como uma de minhas prediletas na história do cinema.

Short Cuts, de Robert Altman
O conceito dos contos originais de Raymond Carver já seria por si só uma boa definição do documentário, ou de uma de suas muitas formas: levantar os telhados das casas, entrar e atravessar a vida de algumas pessoas. Nas mãos de Robert Altman, mestre em narrativas com muitos personagens, tornou-se uma obra-prima que instiga a construção de dramaturgias mais amplas. Acho que o filme tem muito a ver com a narrativa documental e foi um farol importante na elaboração de Língua. Penso que há sempre a presença de uma dramaturgia na realização do documentário, seja ele contemplativo, investigativo ou experimental.

Santo Forte, de Eduardo Coutinho
Eduardo Coutinho já está introjetado nos corações e mentes de cada documentarista brasileiro. Ainda que o nosso ofício seja profundamente marcado por Cabra Marcado pra Morrer, para mim, Santo Forte foi uma revelação que depurou novas formas de concisão, poesia, reverência pelo “personagem” e uma intensa densidade humana. Um documentário que clareou a minha aproximação das histórias por contar, ou ouvir, e alterou a minha percepção fílmica do mundo. Pontual, um filme feito de conversas que levou o público aos cinemas, e marcou o início de um ciclo vital para o documentário e sua potência no cinema brasileiro contemporâneo.

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Faróis: Luiz Carlos Lacerda

Filho do produtor João Tinoco de Freitas, ex-assistente de Ruy Santos e Nelson Pereira dos Santos, o célebre “Bigode”, menos conhecido como Luiz Carlos Lacerda, carrega o cinema no sangue desde que botou a literatura em segundo plano a partir dos anos 1960. Suas referências e admirações são tantas que ele não conseguiu limitar-se a 10 filmes-faróis. Citou 16 (ou melhor, 17), obrigando o blog a listar seus “extras”, conforme abaixo.

Os filmes mais conhecidos de “Bigode” têm a marca da contestação comportamental, sendo dois deles em torno de sua grande amiga Leila Diniz: Mãos Vazias (1971), protagonizado por ela, e Leila Diniz (1987), uma cinebiografia amorosa. O Princípio do Prazer (1979) incluía entre vários temas controversos o incesto, a alienação social e a criação de um monstro em cativeiro. Autor de muitos curtas documentais sobre artistas brasileiros, “Bigode” teve as relações internacionais como subtema de suas duas últimas comédias, For All – O Trampolim da Vitória (1997) e Viva Sapato! (2004). Desde então, há quem pense que ele desligou a máquina criativa. Mas isso está longe de ser verdade.

A televisão e os festivais continuam exibindo seus vídeos mais recentes, que não são poucos. É o caso de A Morte de Narciso, perfil do fotógrafo Alair Gomes, precursor do nu masculino na fotografia brasileira. Ou de Ze.com e Esta Pintura Dispensa Flores, perfis dos pintores Zé Tarcísio e Victor Arruda, respectivamente. A partir de contos de João do Rio, realizou o vídeo de ficção Vida Vertiginosa. Sobre a passagem pelo Brasil do grupo Living Theatre, fez o média Diário de Aquário. Para a série Retratos Brasileiros do Canal Brasil, dirigiu programas sobre os atores Paulo Villaça, Arduíno Colasanti, Carlos Kroeber, Maria della Costa e Nildo Parente; os cineastas Alex Viany e Ruy Santos (este ainda inédito), o dramaturgo Oduvaldo Viana Filho, o cenógrafo Anísio Medeiros e o montador Raimundo Higino, além de seu pai João Tinoco.

Este ano, “Bigode” concluiu e estreou no Cine-PE o longa documental Casa 9, evocação de um célebre endereço no Rio, onde ele morou nos anos 1970 e era um point de gente de cinema e de música. Nos últimos anos escreveu os roteiros dos longas Bom Crioulo (adaptação do romance homônimo de Adolfo Caminha); Nisia (sobre a feminista potiguar do século XIX); e Gloria (vida da atriz Darlene Gloria). No momento, dedica-se a roteirizar o longa Introdução à Música do Sangue a partir de um argumento inédito deixado especialmente para ele pelo escritor Lúcio Cardoso (1912-1968), um dos seus mentores intelectuais e cujos 100 anos de nascimento se comemoram em 2012.

Outra atividade frequente têm sido os workshops de direção nas Mostras de Tiradentes, Ouro Preto e Belo Horizonte, entre outros locais. A oficina do Recine este ano será com ele – e já está batendo recorde de inscrições.

Quem quiser conhecer melhor a trajetória de Luiz Carlos Lacerda pode ler o livro preparado por Alfredo Sternheim para a Coleção Aplauso, Prazer & Cinema. Clique para ler ou baixar.

Mas só aqui no blog você encontra os comentários de “Bigode” sobre os filmes que mais pesaram na balança da sua formação. Fique, então, com os seus Faróis:

Sinfonia Amazônica, de Mario Latini
Acostumado a ver as sessões Tom & Jerry nos primeiros domingos do mês às 10 h da manhã no Metro Copacabana com minha mãe, assistir a um filme falado em português, com curumins, araras, saguis, papagaios e tamanduás foi um dos maiores acontecimentos na minha infância. Essa foi a primeira grande emoção que o cinema me proporcionou.

Ladrões de Bicicleta, de Vittorio De Sica
Eu fazia parte do público dos filmes americanos da Metro, os musicais com Fred Astaire e Ginger Rogers; os capa-e-espadas com Stewart Granger; os dramas com Elizabeth Taylor e Montgomery Clift, etc.Ver com meu pai esse filme do De Sica – P&B, com não-atores selecionados entre os pobres vitimados pelo desemprego do pós-guerra – foi muito marcante. Não tinha ainda consciência do quanto aquela forma de filmar influenciaria o cinema independente no mundo, impulsionaria através do Nelson Pereira dos Santos a ir pras ruas filmar a nossa realidade, com nossos atores, brancos e negros, alguma coisa a que hoje chamamos de identidade cultural.

Rio 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos
Meu pai, João Tinoco de Freitas, foi um dos produtores.Vi a filmagem da sequência com Glauce Rocha e Roberto Bataglin (de fuzileiro naval) na Avenida Atlântica. Esse filme marcou a minha vida pessoal – os amigos de meu pai Alex Viany, Ruy Santos e o próprio Nelson frequentavam nossa casa aos domingos, e eu ouvia as discussões políticas e estéticas, a proibição do filme pela polícia.Vê-lo na tela confirmava tudo aquilo que eles falavam : a necessidade de um cinema que refletisse e ajudasse a discutir os problemas brasileiros. Foi emocionante constatar que havia uma preocupação com a psicologia dos personagens, herança das emoções contidas nos filmes neorrealistas italianos.Gostava muito e era frequentador das chanchadas, mas o mesmo efeito que me provocou Ladrões de Bicicleta em relação aos filmes da Metro, foi o de Rio 40 Graus em relação às chanchadas maravilhosas com Oscarito, Grande Otelo, Ankito, Zé Trindade e Violeta Ferraz.

Tabu, de F. W. Murnau
A utilização de não-atores, a deslumbrante luz de sua fotografia (somente comparável à de Gabriel Figueroa nos filmes de Buñuel, com certeza seu discípulo), a mise-en-scène despojada e que poderia vislumbrar-se no que mais tarde se convencionou chamar de naturalismo, a narrativa quase naïf, talvez numa homenagem inconsciente às pinturas de Paul Gauguin em seu exílio voluntário na então colônia francesa – o Taiti…. Esse filme também revi muitas vezes, movido pela paixão da primeira visão.

Pickpocket, de Robert Bresson
Esse mestre do cinema europeu reafirmava minha experiência estética que os filmes de Mário Peixoto, Bergman, Murnau, Buñuel, e mais tarde Pasolini, Antonioni, Bertolucci e Visconti provocavam. Bresson era a radicalidade da autoria, da afirmação soberana do tempo infinito enquanto necessário de um plano; a construção cinematográfica que contestava a pressa burguesa de um cinema que se pretendia mercadológico e de entretenimento puro e simples.Alguma coisa também moral me sinalizava, a admiração pelo personagem do ladrão, que o aproximava de Jean Genet no pavilhão do malditismo de outros artistas outsiders que sempre admirei.

Pierrot le Fou, de Jean-Luc Godard
Essa versão de Une Saison en Enfer, de Rimbaud, me arrebatou. Não sei se pelo anarquismo de seu discurso cinematográfico, pelo descumprimento das regrinhas de continuidade, de edição, da quebra de uma hierarquia convencional de decupagem, ou pela imediata identificação com a poesia do jovem Rimbaud – meu poeta preferido.

Zabriskie Point, de Michelangelo Antonioni
A beleza das imagens, a fotografia hiperrealista e antropofagizada da TV, em especial da publicidade, substituíram com esse filme todo e qualquer discurso político sobre a questão da poluição do meio-ambiente, da dominação do marketing e sobretudo da sociedade de consumo que nos levou ao desastre em que o planeta se transformou hoje. No longuíssimo plano final, uma explosão de tudo o que podemos imaginar de chamados “bens duráveis”, em câmera lenta, toda a produção do capitalismo midiático e consumista vai pelos ares. E identificamos a solidão de cada objeto, como se fosse possível esculpir o retrato da solidão do homem moderno através deles.

Panorama do Cinema Brasileiro, de Jurandyr Noronha
Trabalhei nesse filme como assistente. Foi a grande aventura que me possibilitou ver filmes raros e conhecer algumas figuras históricas do nosso cinema (Humberto Mauro, Mário Peixoto, Adhemar Gonzaga, José Medina, o crítico Jose Sanz). Foi o filme que me revelou a grandeza da cinematografia realizada pelos cineastas brasileiros, a diversidade de olhares e de intenções estéticas ou simplesmente comerciais – mas até essas, equivocadas ou não, reveladoras de um estilo que nos distingue e nos identifica. Esse filme solidificou minha formação como cineasta, numa época em que o acesso a essas informações era tida como impossível. A sensibilidade de J. Noronha ao lidar com uma equipe de “consultoria histórica” que tenderia a  consolidar suas preferências cinematográficas, a sua imparcialidade, me impressionaram e me ensinaram muito. E o seu faro, paciência de arqueólogo dessas imagens que hoje constituem um patrimônio dos mais importantes da nossa cultura .

Verdades e Mentiras (F for Fake), de Orson Welles
Sempre fui aficionado dos filmes de Welles, mas esse especialmente, por tratar de questões contemporâneas como a ética e a autoria na obra de arte. O que são a mentira e a verdade? – seus conceitos cambiáveis e mutantes, determinados pela bússola da moral que está no poder no momento. E inaugura uma montagem nova, desde os tempos de Eisenstein congelada, que Glauber batizaria mais tarde como “nuclear”, utilizada em seu filme “Di” – hoje absorvida pela TV e pela publicidade.

Almodóvar
Difícil definir um dos filmes dele que me marcaram e continuam me marcando. Na contemporaneidade, Pedro Almodóvar me trouxe a alegria e o resgate do prazer do cinema, de assistir e ter vontade de realizar. Representante do que se chama por cultura “camp”, mescla suas referências culturais “eruditas” (de Buñuel, inclusive) com a glorificada cultura pop da Factory de Andy Warhol, do “mau gosto” kitsch de todo o imaginário latino (de Sarita Montiel e de tangos) também incorporados pelo Tropicalismo de Caetano Veloso –  presença em alguns de seus filmes. E principalmente por ser o arauto, através de seus personagens, da inserção da expressão da homossexualidade no cinema contemporâneo, sem fazer disso uma performance mal-humorada, ressentida ou chata – que costuma ser a marca de todo e qualquer discurso militante.

EXTRAS

A Idade do Ouro, de Luis Buñuel
Na Cinemateca do MAM, reduto dos jovens cinéfilos da minha geração, comandado por Cosme Alves Neto, vi a obra-prima do mestre do surrealismo cuja obra acompanhamos enquanto ele existiu. Era a consubstanciação dessa  poética vislumbrada em Limite (que eu vira antes) como se fosse a materialidade do movimento surrealista que eu conhecia na pintura. Mestre Buñuel, for ever!

Ludwig, de Luchino Visconti
Toda a obra requintada e passional desse grande autor do cinema moderno me proporciona um prazer muito grande. Mas esse filme, em particular. Não é à toa que Visconti também dirigiu óperas. A concepção “espetacular” de seus filmes, onde o detalhe tem a fundamental importância na arquitetura conjuntural, não abandona o foco na paisagem emocional de seus personagens. A tragédia de Ludwig, sua obstinada paixão, solidão e decadência não deixam de ser uma metáfora política do mundo em que viveu Visconti – sensível às questões sociais e políticas.

Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman
Assisti com minha amiga Leila Diniz, adolescentes, no Cinema Alvorada – no Posto 6, o primeiro “cinema de arte”, programado por Fabiano Canosa. Leila chorava, eu me dividia entre uma narrativa às vezes confusa para mim e as belas imagens, os muitos e  emocionantes closes daqueles rostos torturados – que se assemelhavam aos personagens de Lúcio Cardoso, mestre da introspecção psicológica no romance brasileiro. Havia naquele filme, além da problemática da morte – tema que os neobeatniks com os quais  me identificava também prezavam –, uma construção da narrativa num tempo especial jamais visto por mim.

Memórias do Subdesenvolvimento, de Thomaz Gutiérrez Aléa
O cinema godardiano filmado na ebulição da revolução cubana inaugura um rompimento na linguagem do cinema latino só comparável ao que a fotografia de Luiz Carlos Barreto em Vidas Secas (de Nelson P. S.) seria capaz de provocar. Impressionante e provocadora também é a coragem de um enfrentamento político com o status revolucionário (a revolução dentro da revolução), seus excessos e marchas-a-ré. A antológica sequência dos “delegados do povo” em visita ao apartamento “burguês” do personagem principal que pretende continuar acreditando na revolução, a revelação do preconceito e da inveja humanos travestidos de luta de classes é inusitada, especialmente naquele momento.

Édipo Rei e Medeia, de Pier Paolo Pasolini
Dois exemplos de um cinema poético que me impressionaram muito. Referência onde me inspirei para realizar alguns filmes ou sequências inteiras, inconscientemente. Nos filmes de Pasolini identifico a pintura de grandes mestres (Caravaggio, por exemplo) que foram buscar na beleza do povo das ruas a fonte inspiradora de suas obras.

Limite, de Mário Peixoto
Era a constatação de que podia existir um cinema poético! Toda a minha formação de esquerda, os discursos patrulheiros que eu ouvia contra o filme (Glauber e Alex Viany escreveram) não foram suficientes para manter o distanciamento político recomendado. A arrebatadora poética de Limite me revelou uma nova maneira de se fazer cinema.

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Faróis: Anna Muylaert

No ano passado, Anna Muylaert estudou a obra de Stanley Kubrick. Este ano, mergulhou profundamente em Woody Allen. Antes de se firmar como realizadora, ela foi crítica de cinema – e gosta de ver filmes tanto quanto de fazer. E de escrever. Colaborou no roteiro de trabalhos de Cao Hamburger (Castelo Rá-Tim-Bum, O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias e o próximo, Xingu), Alain Fresnot (Desmundo), Roberto Moreira (Quanto Dura o Amor?) e Karim Aïnouz  (Praia do Futuro).

Escreveu seus próprios filmes, desde os curtas Rock Paulista (1988), As Rosas Não Calam (1992) e o delicioso A Origem dos Bebês Segundo Kiki Cavalcanti (1995) até os premiadíssimos longas Durval Discos (2002) e É Proibido Fumar (2009). Para a revista Filme Cultura, no ano passado, Anna comentou a influência dos filmes contemporâneos sobre a sua obra:

- Acho que minhas maiores influências, desde a época dos meus curtas até os longas, são cineastas independentes americanos como Wes Anderson e os irmãos Coen, e também Woody Allen. Talvez porque sejam cineastas que trabalham com a ironia, assim como eu. Mas Gus van Sant, por exemplo, é um mestre do estilo. É impossível não aprender com ele. O bom do cinema é que, por mais que se aprenda, você está sempre começando.

No momento, Anna está “começando” em três novos projetos. Está transformando seu telefilme Para Aceitá-la Continue na Linha numa versão longa (e com pegada mais social) para cinema, Chamada a Cobrar. O longa seguinte vai tratar de um tema que ela há muito considera, que são as babás. O filme se chama Que Horas Ela Volta? e, segundo a diretora, “é sobre educação”. Regina Casé vai viver uma babá em relação dramática com o menino que criou em São Paulo e a filha que deixou na Bahia. Ao mesmo tempo, prepara o projeto de Mãe Só Há Uma, história de um menino roubado na maternidade que cresce com a família trocada. Além disso, foi convidada para dirigir dois episódios da série Preamar, coordenada por Estevão Ciavatta para a HBO.

Com seus títulos quase sempre extraídos de expressões corriqueiras, Anna Muylaert vai criando uma dramaturgia bem marcante no cinema brasileiro, com personagens um tanto gauches em encontros calorosos. “Acho que estou me especializando em cotidiano”, brinca meio a sério. Mais informações sobre sua carreira, que também inclui poesia e literatura infantil, estão no seu site pessoal.

Para reeditar aqui seus filmes-faróis, Anna quis mexer um pouco na lista publicada na Filme Cultura nº 53. Refez também alguns comentários. “Essas listas são sempre móveis. Como podia não ter nenhum Kubrick ou Woody Allen?”

Fiquem então com os “faróis” de Anna Muylaert:

“Nem todos esses filmes me influenciaram. Mas todos são filmes que eu considero como referências.

1. Amarcord, de Federico Fellini
Eu vi este filme no Cine Bijou, ainda adolescente, e assim como no filme os personagens se encantam pela grandeza do navio Rex, eu me encantei pela grandeza do filme. Com certeza foi um grande inspirador para que eu quisesse ser cineasta.

2.  Estranhos no Paraíso, de Jim Jarmusch
Este filme foi um marco no cinema pop, porque valoriza a diversão que há no tédio e no silêncio.

3. Pulp Fiction, de Quentin Tarantino
Um filme que encantou a mim e ao mundo principalmente porque rompeu com padrões de narrativa, mas tambem pela excelência da direção, diálogos e ambiente, além de ter resgatado a figura de John Travolta.

4. Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall), de Woody Allen
Annie Hall foi o primeiro filme em que Woody Allen trabalhou com o diretor de fotografia Gordon Willis e por isso o filme foi um turning point em sua carreira. Parece que o fotógrafo ensinou a ele que o cinema vai muito além do plano e contraplano. Apesar de ser uma mera comédia romântica, a partir desse filme Woody Allen levou em  conta a possível dança da câmera e seu cinema mudou de patamar.

5. Fargo, dos Irmãos Coen
Considero este filme uma obra-prima dos irmãos Coen pelo equilíbrio entre crueldade e ironia, sem falar na firmeza de cada detalhe da direção.

6. Whisky, de Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll
Mínimo filme uruguaio, perfeito em sua simplicidade visual, técnica e humana.

7. Elefante, de Gus van Sant
Considero este filme uma obra-prima do grande diretor americano: original na forma de contar a história, belo na sensualidade da câmera e da direção, na escolha da trilha sonora.

8. Baixio das Bestas, de Cláudio Assis
Cláudio Assis é um dos grandes diretores de cinema do Brasil desde sua estreia em Amarelo Manga. No seu segundo filme ele consegue narrar atrocidades humanas através de um cinema que beira a poesia.

9. Madame Satã, de Karim Aïnouz
Primeiro filme de um dos nossos mais sensíveis cineastas, me abriu as portas para um cinema brasileiro cujo protagonista não é a narrativa, mas sim a sensualidade dos personagens em sua relação com a câmera.

10. Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick
Considero este um dos melhores filmes de todos os tempos, se não o melhor. O perfeccionismo de Kubrick aterriza em cada mínino detalhe, criando um ambiente fílmico que se passa em algum ponto entre o passado e o futuro, e pode ser  visto mil vezes que sempre revelará novidades.”

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Faróis: Silvio Tendler

Foto: Gabriela Nehring

Foto: Gabriela Nehring

Aos 61 anos e vencendo bravamente problemas de saúde, Silvio Tendler encontra-se numa das fases mais prolíferas de sua carreira. Depois de lançar o longa Utopia e Barbárie e exibir no É Tudo Verdade Tancredo, a Travessia, ele acaba de botar nas lojas uma caixa de DVDs e um livro sobre os “Quatro Baianos Porretas” já revisados por suas lentes: Glauber Rocha, Milton Santos, Castro Alves e Carlos Marighella. Ao mesmo tempo, vê-se envolvido em quatro novos projetos de documentário de longa metragem.

Já na Mostra Fotocine, que começa dia 28 de junho no Centro Cultural Correios (Rio), Silvio vai exibir uma versão in progress de Caçadores da Alma II, sequência longa do seu média de 1988 sobre fotógrafos. Outra acepção de alma estará em jogo no filme que vai fazer a partir do livro A Alma Imoral, do rabino Nilton Bonder. “Vai ser um desafio transpor para o cinema esse livro anti-darwinista e transgressor”, prepara-se.

Mais adiantado está o projeto de levar para as telas o Poema Sujo de Ferreira Gullar. Intitulado Há Muitas Noites na Noite, o filme vai integrar atores, músicos, animadores e grafiteiros, com filmagens em São Luís e Buenos Aires. O enfoque político não desaparecerá por conta da poesia: “O Poema Sujo foi o ‘lugar’ onde o Gullar se exilou no auge da ditadura”, situa o cineasta.

O papel heróico dos advogados que correram riscos e sofreram humilhações para defender, voluntária e muitas vezes gratuitamente, presos políticos durante o regime militar vai ser abordado por Silvio em outro longa. Os Advogados Contra a Ditadura Por uma Questão de Justiça terá como base uma pesquisa de professores da PUC-Rio, universidade em que Silvio leciona.

Por fim, o incansável Tendler está fechando a edição de um média para campanha da Fiocruz contra agrotóxicos e um curta sobre o multi-artista e ativista israelense Juliano Mer-Khamis, personagem de Utopia e Barbárie que foi misteriosamente assassinado em abril último. O curta vai se chamar Matzeiva, que significa lápide. “Será uma lápide cinematográfica para o Juliano”, explica Silvio.

Sobre o realizador, chegou recentemente às livrarias um estudo filme a filme por Marcia Paterman Brookey, intitulado História e Utopia – O Cinema de Silvio Tendler.

Os Faróis de Tendler foram publicados pela primeira vez no DocBlog, em 2007. Na ocasião, ele apresentou sua lista com a seguinte introdução: “Vivo de memória(s), gosto do jogo. Não direi que são os melhores filmes da minha vida, mas os que mais me influenciaram”. Para essa reaparição, ele pediu para incluir Trabalho Interno, Oscar de melhor doc de 2010. Fica, então, assim:

1- Caravana Farkas (Não se trata de um filme mas de um momento mágico: a descoberta do documentário) e suas cercanias: Viramundo de Geraldo Sarno e Roda e Outras Histórias de Sérgio Muniz. Além do Lavra-Dor de Paulo Rufino. No primeiro momento, contam como um só filme.

2- Manhã Cinzenta de Olney São Paulo. A proximidade com o cineasta foi fascinante para um menino de 18 anos, no bar do MAM, nos intervalos das sessões de Cinemateca.

3- A Sexta Face do Pentágono de Chris Marker e François Reichenbach, visto na mesma Cinemateca do MAM em sessão organizada pelo grande Cosme Alves Netto com filmes independentes “norte-americanos”. Anos depois descobri que Chris Marker era francês.

4- O Sertão do  Rio do Peixe, que vi pela primeira vez, com os mesmos 18 ou 19 anos, na moviola da Mapa filmes do Zelito Viana. Magia pura: cinema, documentário e moviola giravam na minha cabeça de menino que queria mudar o mundo. Estávamos em 68 ou 69. O filme virou O País de São Saruê e o menino, um cineasta eternamente grato a Zelito, Vladimir Carvalho, Geraldo Sarno, Sérgio Muniz, Paulo Rufino, Olney São Paulo e Chris Marker. A Cosme minhas melhores lembranças.

5- O segundo momento: Chile, governo do Allende: filmes do cubano Santiago Alvarez (Now, LBJ, 79 Primaveras), Joris Ivens (o clássico Terra Espanhola, Borinage e a série sobre o sudeste asiático). E os filmes militantes dos chilenos: Venceremos de Pedro Chaskell, Mijita dos Irmãos Castilla.

Estes são os cinco primeiros “filmes” que fizeram minha cabeça, depois vieram os outros mil, mas isto será outra história. O filme mais importante realizado no Brasil durante a ditadura é Os Inconfidentes de Joaquim Pedro de Andrade, que fez minha cabeça para fazer Castro Alves.

Depois terá a suíte do remorso pelos não citados: Manoel Horácio Giménez e Maurice Capovilla em Brasil Verdade, Roberto Santos e Marcelo Tassara em Tributo a Guimarães Rosa. Viva João Batista de Andrade e Jorge Bodanzki, que entraram em minha vida depois!!!

6 – Trabalho Interno (Inside Job), de Charles Ferguson. Um filme seminal. Botou o dedo na ferida das falcatruas que custaram milhões de dólares não só aos EUA, mas ao mundo inteiro. Modéstia à parte, ele dialoga com o meu Encontro com Milton Santos, embora vá além ao apresentar os dados e dar nomes aos bois. Inside Job mostra que o cinema está indo cada vez mais para o campo da ação política. E que esse modelo de documentário dominante no Brasil, de reproduzir o que Jonas Mekas fez nos anos 1960, está superado.

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Faróis: Joel Pizzini

Foto: Alexandre Sobral R. Horta

Joel Pizzini nasceu no Rio mas viveu dos seis meses aos 15 anos no Mato Grosso antes que o estado se dividisse em dois. O Marechal Rondon, a atriz Glauce Rocha e o poeta Manoel de Barros nasceram lá. Todos os três já foram objetos de filmes de Pizzini. Agora ele finaliza Olho Nu, um trabalho sobre outro nativo que carrega o estado no nome artístico: Ney Matogrosso, que já havia atuado para Joel no curta Caramujo-Flor, transmutação da poesia de Manoel de Barros. No longa 500 Almas, foi a vez dos índios guatós entrarem para a crônica matogrossense do diretor.

Recentemente Joel habitou com freqüência o planeta Glauber-Sganzerla. Enquanto foi casado com Paloma Rocha, filha mais velha de Glauber e Helena Ignez, formou com ela uma parceria na criação de filmes e na restauração e reedição em DVD das obras de Glauber. Depois do Transe, Anabazys e Milagrez foram docs nascidos dessa experiência de retornar em profundidade à obra de Glauber. Retrato da Terra, também da dupla, enfocou a obra de Glauber a partir da chamada Trilogia da Terra. Até Dona Lúcia Rocha mereceu o seu quinhão no inusitado doc Abry, instantâneo da mãe-coragem quando paciente de uma cirurgia cardíaca. Foi Pizzini também o curador da Ocupação Sganzerla, evento do Itaúcultural no ano passado, e que vai render o longa Mr. Sganzerla. De Helena Ignez ele realizou um perfil poético-experimental, Helena Zero, numa linha próxima à do magnífico ensaio Glauces – Estudo de um Rosto, que montou a partir de cenas de filmes com Glauce Rocha.

Quem vê a série Retratos Brasileiros do Canal Brasil se surpreende com o diferencial de qualidade dos programas assinados por Joel Pizzini. Em Um Homem Só, por exemplo, o reservadíssimo Leonardo Vilar aceitou entreabrir para ele a intimidade de seu apartamento e de sua vida. De Paulo José, Joel soube extrair toda a verve em Um Auto-retrato Brasileiro. Por sua vez, O Evangelho Segundo Jece Valadão enfocava o contraste entre o “cafajeste” de ontem e o pastor religioso de ainda há pouco.

Curiosamente, Othon Bastos não aprovou a versão do seu “retrato” preparada por Pizzini. Em compensação, Mário Peixoto confiou nele para uma missão sublime: recontar as filmagens de Limite numa obra de ficção. Joel sonha com esse projeto há uns 20 anos. Vai se chamar Mundéu – A Invenção de Limite. Antes disso, porém, a usina Pizzini já produziu o curta A Morte do Pai, sobre a passagem de Roberto Rossellini do cinema para a TV.

Depois de se exercitar em instalações, Joel prepara agora sua primeira investida nos palcos. Em São Paulo, ensaia o espetáculo de teatro-dança Luares, juntamente com a dançarina-performer Emilie Sugai.

Os faróis de Joel foram publicados originalmente no DocBlog, em 2007. Veja abaixo as suas cinco (na verdade, sete) escolhas e as “linhas tortas” que enviou sobre cada uma delas:

Ritmos de uma Cidade, de Arne Sucksdorff – uma descoberta quando me tornei amigo de Arne e comecei a desenvolver nos anos noventa um projeto de documentário (abortado com a extinção da Embrafilme) sobre o cineasta sueco. Um retrato lírico de Estocolmo, onde o ritmo guia um cotidiano imaginado.

Di-Glauber – a dessacralização, a narração vibrante, meio turfe, suíngue & futebol, encara a morte com um registro atrevidamente amoroso. Através de Di, uma celebração de outro morto-vivo: Rossellini. Lance de craque.

Limite, de Mário Peixoto, empatado com Arraial do Cabo, de Paulo César Saraceni e Mário Carneiro – fiquei desconcertado na primeira visão de Limite, com seu estado de suspensão poética. Não era um filme sobre poesia, mas sob poesia. Senti-me encorajou a fazer cinema. Além disso, fiquei fascinado pela história por trás do filme; Em Arraial do Cabo, destaco a trilha ousada, a música industrial no filme seminal do Cinema Novo, antecipando o uso do ruído integrado à banda sonora. O filme não se rende ao tema, não teme enquadrar, compor, e aponta os paradoxos do desenvolvimento. Contraponto a Aruanda, na tradição de Limite.

Verdades e Mentiras, de Orson Welles – a meta-montagem, o autor como ator de sua reflexão sobre os limites, segredos e ilusões da realidade da imagem. A prova dos nove de que “é tudo verdade” (de verdade).

O Poeta do Castelo, de Joaquim Pedro de Andrade, empatado com Mato Eles?, de Sérgio Bianchi – no primeiro, a espontaneidade provocada, a decupagem do cotidiano criativo do poeta. “Pasárgada” é um lugar que despista o desdobramento naturalista que a locução, neste tom, naturalmente sugere. Um docomentário que vai para lugar-nenhum, ou melhor, para o reino da poesia; quanto a Mato Eles?, fiquei impressionado quando vi o filme na Cinemateca de Curitiba, em 1983, quando ainda não tinha me decidido pelo cinema. Um filme quase cínico, que destoava de tudo o que havia visto do gênero. Uma nota dissonante que recusava as regras dos documentários bem intencionados, tomando uma posição, mesmo que um tanto “irresponsável”.

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Boa Esperança

O faroleiro no Cabo da Boa Esperança, África do Sul

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Faróis: Laís Bodanzky

São Paulo já está vendo a segunda direção teatral de Laís Bodanzky. Menecma foi escrita pelo roteirista de cinema Bráulio Mantovani, e seu personagem central está editando um documentário. Ou seja, embora classifique como “muito diferente do meu cinema”, o universo dos filmes não está de todo ausente desse “intervalo” da carreira da cineasta.

Em sua edição nº 51, de junho do ano passado, a revista Filme Cultura publicou os Faróis de Laís e algumas ideias suas sobre a própria trajetória. Por exemplo:

“Quando assisti ao documentário Apocalipse de um Cineasta / Hearts of Darkness: a Filmmaker’s Apocalypse (1991), vi no experiente Coppola a crise da criação e, mesmo ainda amadora na profissão, eu me identifiquei profundamente com a dor dele e pensei com meus botões ‘será que eu vou aguentar esta vida?’. E não deu outra, no meu terceiro longa (As Melhores Coisas do Mundo) a dor da criação é a mesma”.

Laís tem transitado com segurança entre a ficção, o documentário e os projetos de difusão cinematográfica. Sua competência na construção de personagens é notória no meio, com os exemplos se multiplicando desde o impressionante solo do jovem Neto (Rodrigo Santoro) em Bicho de Sete Cabeças ao painel de gente madura no filme-baile Chega de Saudade e ao retrato penetrante da pós-adolescência em  As Melhores Coisas do Mundo. Ela arrisca uma explicação:

“Acho que isso tem a ver com o fato de eu me interessar mais pelas evoluções emocionais das personagens, me ocupar mais com as tramas internas do que com as externas. E fazer das tramas externas um jogo de espelhos e um catalisador das tramas internas”.

Laís costuma dizer que aprende a fazer filmes exibindo filmes. Seu antigo projeto Cine Mambembe, tocado com o marido e roteirista Luiz Bolognesi, evoluiu para o Cine Tela Brasil, que leva o cinema a populações sem tela, promove oficinas e tem um portal voltado para a educação audiovisual. O antigo e “romântico” Cine Mambembe gerou o primeiro doc de Laís e Luiz, Cine Mambembe – O Cinema Descobre o Brasil (1999), premiado como melhor doc no Festival de Havana. Mais tarde, eles voltariam ao cinema do real com A Guerra dos Paulistas (2002).

Em breve, a moça se muda de malas e bagagens para o desenvolvimento do seu novo projeto de longa-metragem, que tem o título provisório de Como Nossos Pais.

A seguir, os dez filmes-faróis de Laís Bodanzky:

Iracema, uma Transa Amazônica, de Jorge Bodanzky e Orlando Senna
Por motivos óbvios de reconhecer um cinema inovador até hoje, mas por ser uma gostosa lembrança de infância das sessões lá de casa (N.R. Laís é filha de Jorge Bodanzky).

Guerra nas Estrelas, de George Lucas
Uma experiência sensorial cinematográfica que me pegou ainda menina, sonhando em ser princesa.

La Boum – No Tempo dos Namorados, de Claude Pinoteau
Um filme francês que me colocou adolescente na tela e me fez rir de mim mesma.

Meu Gato Sumiu / Chacun Cherche son Chat, de Cédric Klapisch
Outro francês que me despertou para o cinema de busca das personagens.

O Carteiro e o Poeta / Il Postino, de Michael Radford
O único filme que me fez pagar duas vezes o ingresso.

Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen
O melhor do melhor cineasta de todos os tempos.

A Hora da Estrela, de Suzana Amaral
Cinema de verdade, sobre a verdade, com muita ficção.

A Família, de Ettore Scola
Scola é o pai que acolhe todos os seus personagens, sem esquecer de nenhum e com o mesmo carinho por todos.

Trainspotting, de Danny Boyle
Para suportar a barra pesada, só sendo pop.

O Ilusionista, de Jos Stelling (N.R. Um filme de pantomima, sem diálogos)
Um dia vou fazer um filme assim.

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Faróis: José Joffily

Foto: Álvaro RiverosA marca desse paraibano criado no Rio está em parte importante do cinema brasileiro das últimas três décadas, seja como roteirista, diretor, produtor, professor de cinema ou ocasionalmente ator. Seus curtas de fins dos anos 1970 (Copa Mixta, Curta-sequência: Galeria Alaska, Alô Teteia, Praça Tiradentes 77) lançaram um realizador com pinta de marginal, mas logo substituída pela busca persistente de um cinema popular de porte médio, que alia traços do filme de gênero a uma vontade autoral.

José Joffily já se exercitou na comédia social (Urubus e Papagaios), no policial (A Maldição de Sampaku, Achados e Perdidos), no drama metacinematográfico (Quem Matou Pixote?) e na tematização de um Brasil imigrante (Dois Perdidos numa Noite Suja, Olhos Azuis). O documentário já contou com sua visita em dois longas, O Chamado de Deus e Vocação do Poder (este codirigido por Eduardo Escorel).

É um cinema que se sofistica gradativamente no que diz respeito às estruturas narrativas, ao trabalho com o elenco e às relações entre filme e realidade. No momento, Joffily está envolvido com dois novos docs. Na mesa de edição, procura a forma final de Vida de Artista, em que acompanhou os ritos de passagem profissionais de jovens músicos de três orquestras brasileiras, em mais uma tentativa de entender o fenômeno da vocação. Está ainda coproduzindo um filme da filha, Isabel Joffily. Bela Casa Cinza inspira-se no clássico Grey Gardens, dos irmãos Albert e David Maysles, para enfocar duas personagens cariocas fora do comum.

Seus faróis, comentados de maneira bastante pessoal, foram enviados com a seguinte nota introdutória:

“Depois da lista entregue, tentarei não ficar mudando. Afinal, poderiam ser cem, duzentos filmes. A preferência pode favorecer uns títulos hoje e outros amanhã. Assim, considerei ser melhor atender logo ao convite e acabar com isso. Segue a lista do dia 11 de fevereiro de 2011. Se fosse redigida no dia 10 poderia ser outra, mas hoje é dia onze, e se eu remexesse amanhã, farei umas mudanças.  

Os Desajustados (The Misfits), de John Huston
Pela mais breve, poética e eficaz apresentação de personagem na história do cinema. Convidado para participar de um rodeio, o peão, interpretado por Montgomery Clift, antes de responder pede um tempo para falar com a mãe. Cata moedas no bolso, liga de um orelhão enquanto os amigos aguardam no carro. Naqueles dois minutos de diálogos e de silêncios sabemos tudo que é possível ou preciso saber do personagem. É evidente também que a Marilyn Monroe não era só uma louraça, mas uma das melhores atrizes da sua geração. 

Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman
Porque sempre me espantou alguém saber tanto da velhice tendo apenas 42 anos (acho que Bergman tinha essa idade quando filmou a história). Vi e revi o filme através dos anos e ele só fez melhorar. Certamente também porque eu estou entendendo ainda melhor do que se trata ficar velho. Gosto cada vez mais da viagem do velho com sua nora e com os jovens caronas. Uma viagem pontuada por recordações, simpatias e repulsas.

Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha
Pelo susto que tive quando vi pela primeira vez. Como muitos, saí atordoado com tanta ópera, tanto barroco, beleza e revelação. Saí do Bruni Copacabana ainda dia claro e quente. Ali, na Barata Ribeiro, cheio de fumaça de ônibus, barulhos de buzina, no meio do caos, caminhava tentando entender o que tinha visto. Sair das salas de cinema, depois de ver bons filmes, nunca é tarefa fácil. É sempre um choque. E acho que essa foi a saída de cinema mais esquisita que vem à memória: sair do Corisco de Othon Bastos para a trivialidade ali da Barata Ribeiro.

Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos
Porque através dos anos revi o filme, alternando revisitas com releituras do livro do Graciliano Ramos. Primeiro foi o filme, li o livro depois. No início considerei que o livro era bem melhor, superior. Depois vi o filme mais uma vez e mudei de opinião. E li o livro de novo, pulando os capítulos, começando por Baleia, que teria sido o primeiro capítulo, achei o inverso mais uma vez. E assim essa alternância se repetindo. Até que entendi que os dois eram mesmo muito bons e definitivos, cada um no seu suporte. Os cineastas que pertenciam ao que seria o Cinema Novo tiveram essa sabedoria, escolheram bons livros, soberbos. A literatura sempre esteve na frente dos filmes e pode ser sempre uma boa alternativa para os filmes.

Memórias do Subdesenvolvimento, de Tomás Gutiérrez Alea
O filme do Gutiérrez Alea foi o primeiro a me fazer entender perfeitamente o que foi a Revolução Cubana. Através das ironias e vacilações do Sergio, na posição de um cara de classe média, pude me colocar na pele de um cubano diante da Revolução. Tratar do papel de um intelectual burguês dentro da revolução é uma premissa boa para quem tem a mesma origem do protagonista.

Copacabana me Engana, de Antonio Carlos Fontoura
Me vi muito no filme, nos dois irmãos, naquela turma desnorteada. E nada melhor que as cenas do Paulo Gracindo determinado a humilhar o personagem do Carlo Mossy. Com essa intenção, o filme narra o passeio no carrão conversível, o porre e a volta para a maravilhosa Odete Lara, quando Gracindo devolve o jovem e derrotado concorrente. E de quebra, o filme ainda tem o Armando Costa como corroteirista e ator, fazendo uma memorável ponta de arruaceiro disposto a avacalhar com uma reunião de sindicato (pelo que me lembro de pelegos). Assim é na minha memória.

Até a Última Gota, de Sérgio Rezende
Filme feito em grupo, do qual fazíamos parte eu, Sergio Rezende, Jorge Abranches, Mariza Leão e Zé Dummont. Naquele final dos anos setenta achávamos que o filme ia conquistar o Brasil, arrebatar corações e sensibilizar e indignar espectadores/cidadãos. Em seguida, considerávamos que o mundo também se renderia às denúncias do filme. Sergio, Mariza e eu morávamos na mesma rua e ao longo de 1978 ficávamos tempo integral à disposição do filme, prontos a filmar o que surgisse de novidade para revelar o que era a exploração do sangue brasileiro como matéria-prima para a confecção de remédios do primeiro mundo. A Vera Freire montou esse primeiro longa-metragem de todos nós e em seguida o saudoso Paul de Castro compôs uma pungente música. Pronta a primeira cópia foi uma experiência inesquecível distribuir filipetas e pregar cartazes nos postes anunciando as pouquíssimas sessões do filme. Achávamos que as multidões iam se interessar por aquele filme. Ficou na lembrança. 

Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa
Um mundo de injustiças que era corrigido por sete caras não podia ficar fora da lista. Os camponeses, mesmo que japoneses, se unindo para derrotar um claro inimigo comum. Pouco a pouco, do lado do bem, se alistavam uns caras que se propunham por muito pouco a corrigir as injustiças. Era a verdadeira jornada dos heróis. E tudo feito com o talento de Kurosawa. Não podia sair melhor. E ainda tinha Mifune, encantadoramente destemido. Inesquecível.

Aruanda, de Linduarte Noronha
Pode-se imaginar o que deve ter surpreendido na época. Talvez tenha sido tão ou mais forte que o Plínio Marcos, que em outro canto do país, 7 anos depois (em 1966), surpreendeu a todos colocando os ferrados Tonho e Paco no palco. Até então, o documentário, mesmo os bons, tinha um ar institucional. Na tela, aquelas imagens de Aruanda indicavam um norte a ser seguido pelo cinema de vanguarda que queria representar o Brasil nas telas.

Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard), de Billy Wilder  
Um filme narrado por um morto sempre será interessante. E o oportunismo é um ótimo tema para se falar. Não pertence à categoria dos grandes temas, como inveja, ciúme ou ambição, mas todos nós temos um pouco de Joe Gillis e  Norma Desmond. É o melhor filme que já vi sobre este singelo sentimento. Sem falar que o elenco tinha tudo para caprichar nos personagens. Gloria Swanson estava de fato no ostracismo e Stroheim idem. Nancy Olson era de fato a boazinha na vida real e o William Holden agarrou o papel com voracidade”.

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Faróis: Carlos Adriano

Foto: Bernardo Vorobow

O Festival Videobrasil já construiu um cineminha só para exibir os filmes dele em looping. A New York Public Library comprou uma cópia de Remanescências, eleito por especialistas internacionais um dos 100 filmes experimentais mais importantes da história do cinema. O Festival de Locarno já fez retrospectiva de sua obra. Caetano Veloso disse que “seus filmes são feitos para o espectador-artista, isto é: fazem do espectador que de fato os vê um artista”. E Décio Pignatari resumiu, à sua maneira: “He’s reel!”.

O trocadilho procede. Carlos Adriano trabalha quase sempre a partir da manipulação (física e digital) de materiais de registro, sejam eles pedaços de filmes muito antigos, fragmentos de pré-cinema, fotos, discos de vinil etc. Seu cinema é não-narrativo, não-ilusionista, não exatamente documental, mas onde a matéria-prima do mundo real é a base de tudo. Ele tem algo de alquimista e um tanto de fetichista, sempre disposto a explorar a materialidade do cinema e das coisas que filma. Em Remanescências, por exemplo, retrabalhou durante 18 minutos uma única sequência de 11 fotogramas – ondas batendo na madeira de um píer – que podem ter sido os primeiros a serem jamais filmados no Brasil (a discussão histórica é polêmica). Para A Voz e o Vazio – A Vez de Vassourinha, Adriano explorou apenas 12 fotos do compositor e a superfície dos velhos discos de onde emana sua voz. Em trabalhos da década de 1990, repaginou letreiros luminosos de São Paulo e criou um filme a partir de rasgos e inscrições no negativo.

Amir Labaki já disse dele: “É um outro cinema, construído pela manipulação de seus materiais essenciais (luz e tempo). Nem narrativos, nem abstratos, são filmes que oscilam entre a admiração pelo tema proposto e o fascínio pelo próprio aparato cinematográfico”. Já Augusto de Campos o definiu assim:

“ele caminhou
da pele da palavra ao cerne da película
anemic cinema
enigma imagen”

Mesmo nos filmes sobre artistas, Adriano passa ao largo da mera informação. Militância, sobre o fotógrafo de lanterna mágica Militão Augusto de Azevedo; O Papa da Pulp, sobre o camaleônico escritor Rubens F. Luchetti; e Um Caffé com Miécio, com o caricaturista e colecionador Miécio Caffé, são ensaios intertextuais, cuja forma se deixa profundamente contaminar pelo tema e o personagem. Entre 2004 e 2006, Adriano criou o média-metragem Porviroscópio a partir de um raro filme doméstico de Monteiro Lobato. O curta Das Ruínas a Rexistência é apresentado como uma “montagem poética sobre fragmentos dos desconhecidos filmes inacabados (1961-1962) de Décio Pignatari”.

A faceta de pesquisador aparece também na forma de livros e estudos. Junto com seu produtor e parceiro Bernardo Vorobow (1946-2009), Adriano organizou o volume Julio Bressane: CinePoética (1995) e escreveu o livro Peter Kubelka: A Essência do Cinema (2002). Na ECA-USP, onde graduou-se em cinema e obteve o título de mestre, desenvolveu tese de doutorado sobre aparelhos pré-cinematográficos, material de arquivo e cinema de vanguarda.

Resultado dessa tese foi também seu primeiro longa, Santos-Dumont Pré-cineasta? (leia resenha), já exibido no Festival do Rio e na Mostra de Tiradentes. Nesse filme, o magnífico achado de uma cena de mutoscópio mostrando Santos-Dumont detona não só uma investigação sobre os primórdios da aviação e do cinema, como uma homenagem póstuma a Bernardo Vorobow, falecido enquanto o filme era finalizado.

Os Faróis de Carlos Adriano apareceram pela primeira vez em 2007, no antigo DocBlog. Para esta nova publicação, ele pediu para incluir a referência saudosa a um sexto “farol”: o seu companheiro Bernardo.   

Com ele, a palavra:

“Esta não é uma lista ‘dos’ meus filmes preferidos, mas sim a lista ‘de alguns dos’ meus filmes preferidos. Não posso dizer que sejam filmes que particularmente tenham me influenciado ‘no ofício de fazer documentários’; são (p)referências de uma constelação improvável. Em ordem cronológica …

O Homem da Câmera (União Soviética, 1929), Dziga Vertov.

Epistemologia engajada de um pioneiro meta-cinema em ritmo de utopia político-social. Dziga Vertov (1896-1954) mostra a preparação, a produção, a filmagem, a revelação, a montagem e até a projeção do filme (dentro do seu filme) na tela (dentro da tela) do cinema, configurando um cinema reflexivo e ensaístico. O câmera (Mikhail Kaufman, irmão do diretor) põe em ação o “kino-glaz” (cine-olho) e sai à cata da “vida de improviso”. As imagens flagradas por sua câmera identificam-se com as deflagradas pela montagem do filme a que estamos assistindo, ao mesmo tempo, na linha geral on line. Tomando o cinema como “a decifração comunista da realidade”, Vertov esbanja exuberância formal: vale-se de sobreposições e fusões de imagens, tomadas de câmera em angulações insólitas, metáforas sinestésicas, cortes ousados. Para Annette Michelson, “Vertov mapearia uma mudança de articulação: de uma visão de mundo dialética para a exploração do terreno da própria consciência”, abandonando o didático pelo maiêutico e fazendo “uma teoria do cinema como investigação epistemológica”. O filme do vórtice Vertov foi o sumo paradigma do metacinema estruturalista e anti-ilusionista (não só para o grupo de Godard), pedra de toque da crítica dos anos 60 e 70 que elegeu a desconstrução como tábula rasa e tábua de salvação.

Terra sem Pão (1932), Luis Buñuel.

Um dos documentários mais brutalistas sobre um dos assuntos mais brutais, a fome. Buñuel (1900-1983) foi um dos mais inventivos transgressores de formas na história do cinema. Insólitas provocações visuais que desafiam tabus de toda ordem (igreja, governo, burguesia) fazem dele um iconoclasta inconteste. Autor de contundentes autópsias de uma civilização necrosada, seu inconformismo sem concessões logrou elaborar metáforas contundentes sobre a condição humana. Rodou “Las Hurdes” na região (antes refúgio de bandidos e judeus perseguidos pela inquisição) entre Cáceres e Salamanca, incrustada entre pedras, cabras e miséria. No Café Ambos Mundos, em Zaragoza, Ramón Acín prometeu financiar um filme de Buñuel se ganhasse na loteria. Ao saberem do prêmio-doação do líder, os anarquistas saíram pelas ruas de Huesca gritando: “repartir, repartir…”. Imagens desconcertantes contaminam de desespero o espectador face ao desamparo dos habitantes, arraigados ao solo remoto. O método de produção também era povero, estética da fome: Buñuel montou o filme sem moviola, na mesa da cozinha. Envergonhado, o governo impediu sua difusão internacional. Ainda hoje os habitantes da região amaldiçoam o filme e sofrem estragos com a imagem negativa.

Um Homem e O Cinema (Brasil, 1976), Alberto Cavalcanti.

Literal e alegoricamente, é uma antologia de quase todas as possibilidades do cinema. Cavalcanti (1897-1982) compila e comenta trechos de seus filmes. Ele se vinculou à avant-garde francesa – cenógrafo de Louis Delluc em L’Inondation (1923); assistente de direção e cenógrafo de Marcel L’Herbier em L’Inhumaine e Résurrection (1923) e Feu Mathias Pascal (1924); diretor de En Rade e La P’tite Lilie (1927), e Somente as Horas (1926), a primeira sinfonia de cidades européia – e ao General Post Office da Inglaterra – produziu animações para Norman McLaren (Love on the Wing, 1939) e Len Lye (Rainbow Dance, 1936) e revolucionou o filme institucional e o documentário nos anos 30-40 com técnicas experimentais, como produtor, diretor de som (Night Mail, 1936) e autor de um filme de montagem (Yellow Caesar, 1941). No final dos anos 40 e começo dos 50, foi chamado ao Brasil para criar as bases de uma indústria. Aqui dirigiu Simão, O Caolho (1952), O Canto do Mar e Mulher de Verdade (1954). Deixou ainda um legado decisivo na televisão européia dos anos 60-70. Acabou banido de sua própria terra, para retomar a sina de exilado errante. Publicou um livro fundamental para a arte do documentário: Filme e Realidade, que também é título de um outro antológico filme de montagem (1939-1942).

Disorient Express (Estados Unidos, 1996), Ken Jacobs.

Um deslumbramento rigoroso do cine-artista que opera no registro do found footage (gênero que reprocessa imagens de arquivo). Ken começou a explorar a Paper Print Collection da Biblioteca do Congresso (Washington) com Tom, Tom, The Piper’s Son (1969). Até 1912, uma cópia em papel extraída do negativo do filme era depositada, para efeito de copyright. Fotogramas impressos em papel não se projetam, mas assim o cinema do começo americano foi preservado. E ali permaneceu para ser redescoberto. Disorient Express parte de imagens achadas em A Trip Down Mount Tamalpais (1906), de autoria desconhecida, refotografando uma série de planos e expandindo-a com duplicações e inversões topofílmicas em várias permutações. Jacobs subverte os códigos previsíveis do “cinema estrutural” em favor de um método renovador e revigorador da experiência. Vemos a paisagem transfigurada (cenas de uma viagem de trem pelas montanhas) como só pode ser vista no (e pelo) cinema. Outro filme de Ken, The Georgetown Loop (1996), vale-se da mesma abordagem com outros parâmetros e outra viagem de trem (The Scenic Wonder of Colorado, 1903). A animação dos passageiros do começo do século passado encontra o entusiasmo da aventura da percepção dos espectadores do fim daquele século, expandindo nossa consciência.

Quei Loro Incontri (Itália, 2006), Danièle Huillet e Jean-Marie Straub.

O curador de programação cinematográfica Bernardo Vorobow e eu fomos convidados pelo próprio casal de autores para a primeira sessão deste que acabou sendo a última obra-prima de Straub-Huillet. Não creio que com a morte de Danièle (1936-2006), Jean-Marie (1933) volte a filmar. A cabine para convidados aconteceu em Paris, no começo de abril de 2006, numa sala catacúmbica de um cineclube perto do Arco do Triunfo. Três dias depois, fazíamos uma visita ao apartamento parisiense do casal francês que vivia na Itália desde 1969. O relato destes “encontros com eles” (tradução do título do filme) está em artigo da revista eletrônica Trópico. Jean-Marie e Danièle se conheceram em Paris em novembro de 1954 e militaram por um cinema radical e sem concessões por quase quarenta anos, numa rara combinação de modernidade estética e político engajamento. Cada filme era um manifesto civilizador para o nosso tempo. Método de ética, rigor e essência. Este último, baseado em Cesare Pavese (como Da Nuvem à Resistência, 1978), não é um documentário, mas concentra uma súmula de postura e procedimentos de sua obra intransigente. Tem algo a ver com dois de seus documentários maravilhosos – Cézanne (1989) e Uma Visita ao Louvre (2004), este, por sua vez, foi lançado em duas versões: uma de 48 minutos e outra de 47 minutos.

Farol e âncora no mar da memória

Meu farol apagou. Mas sua luz não se extinguiu. Se um farol é um rotatório projetor de cinema, meu farol permanece em rotação, pois irradiava em múltiplas direções. Meu farol iluminou filmes dos outros, porque fazia programação de cinema. Meu farol iluminou os arquivos, porque arquitetou uma cinemateca. Meu farol iluminou meus filmes, porque produzia meu cinema. Orgulho-me de que foram feitos com ele, para ele, por ele: arqueologia de invenção com restos esquecidos ou desconhecidos da memória cultural brasileira. No último, filme-testamento em quase tudo (de sua respiração colada à câmera em meu peito sob a placa no começo ao “vou andar até ali” na rue Dumont antes do mutoscópio afinal emitir o filme Biograph), nossos espectros acabam tragados no mutoscópio de 1901, fabricado no mesmo ano e na mesma cidade que o filme com Santos Dumont. Campo e contracampo, agora, só no cinema; ou no campo de marte. No fim, um fenômeno da natureza, do acaso, e ao acaso, que, em retroprojeção, por ressonâncias, vira quase um milagre: a refração de estrelas de luz no olhar, antes de partir. Meu farol chama-se Bernardo Vorobow. Ele dirigiu um dos documentários mais deslumbrantes, libertários e inventivos do cinema que eu já vi e ouvi: “Cinema Paulista: Ovo de Codorna” (1974). Meu farol apaga em 2009. Mas sua luz não se extingue.”

Bernardo Vorobow e a refração de luz

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Faróis: José Eduardo Belmonte

Foto: Nina Jacob (divulgação)Se o cinema brasileiro de ficção contemporâneo tem duas correntes dominantes – a procura do blockbuster e o experimentalismo blasé –, não contem com José Eduardo Belmonte em nenhuma das duas. Esse paulista com muita vivência em Brasília, onde fez seus primeiros curtas, muitos videoclipes célebres e o primeiro longa, Subterrâneos, opta por um caminho próprio, singular. Seus filmes são viscerais, surpreendentes e lidam com a matéria bruta do cinema: rupturas amorosas, violência do cotidiano, corpos jovens que se agitam numa teia de palavras e músicas, citações cinematográficas.

Goste-se ou não dos seus filmes (eu, por exemplo, não apreciei o radicalíssimo A Concepção), é inegável que circula vida nas veias deles. Depois de ganhar diversos prêmios com Se Nada Mais Der Certo e enfim lançar o eletrizante Meu Mundo em Perigo, Belmonte deu um depoimento para a revista Filme Cultura 50, no ano passado, em que falou de seus próximos projetos:

“Tenho na mão alguns projetos prontos. Uma volta ao estilo das comédias anárquicas dos curtas, que se chama The Billi Pig, onde um curandeiro de bairro e um casal de fracassados se juntam para realizar um milagre. Seria também minha homenagem à chanchada. O filme que mais acalento fazer trata de um diário do Oswald de Andrade anterior à Semana de 22. E também pretendo passar pela experiência de diretor contratado, embora considere o projeto como se fosse meu. Chama-se O Gorila, adaptação de uma novela do Sérgio Sant`ana com Otávio Muller e produção do Rodrigo Teixeira.

Tenho outros roteiros, algumas ideias de guerrilha cinematográfica para me manter na ativa experimentando, me jogando em abismos e voltando. Outros são projetos com ambições de diálogo com o grande público. Seja como for, pretendo continuar contando histórias de pessoas tentando se encontrar no seu tempo, se conectar à sua realidade, sem dogmatismos, certezas ou fatalismos, e com isso também me divertir. Como diria Drummond: O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.”

Belmonte também tem sido citado como corroteirista do projeto Janis Joplin: Get it While You Can, caso este venha mesmo a ser dirigido por Fernando Meirelles.

Ainda para a Filme Cultura, ele listou e comentou os 10 filmes que mais influenciaram sua concepção de cinema:

1. Prénom Carmen, de Jean-Luc Godard
O filme todo é arrebatador. Soberbo uso do som com a imagem que seguem caminhos divergentes e se somam. Conceitual, poético. Talvez o filme que mais me impressionou junto com…

2. Touro Indomável, de Martin Scorsese
Personagens brigando contra sua própria natureza. O olhar para miudezas que revela o todo, a montagem que acelera e retarda desconstruindo o tempo e revelando os personagens. Preparação, tensão, resolução.

3. Meu Tio da América, de Alain Resnais
Uma vez dentro do cinema, tudo é possível. Assumir na arte e na vida toda a contradição de ser humano.

4. Asas do Desejo, de Wim Wenders
O olhar reflexivo, humanista e afetuoso sobre o outro. Desapego. O cinema mais próximo da poesia que da prosa.

5. Terra em Transe, de Glauber Rocha
Dentro do cinema tinha a sensação de quem tem um êxtase religioso, tal a excelência da câmera, da montagem, do texto, da atuação, do que era dito… Experiência igual tive com…

6. A Estrada Perdida, de David Lynch
Senti que fui a outro mundo e voltei. A imagem e o som entrando por todos os poros. Mexendo em todos os sentidos.

7. Confiança, de Hal Hartley
Digam o que quiserem: que está datado, que Hal Hartley era um blefe. Esse é o filme da minha geração, junto com…

8. Amores Expressos, de Wong Kar Wai
Filmes e sentimentos baratos com paixão, honestidade, sem empáfia e com atenção ao agora.

9. O Homem com a Câmera, de Dziga Vertov
Antes das coisas serem inventadas, já estava tudo lá.

10. Cantando na Chuva, de Stanley Donen
Cinema também tem que fazer você gozar da cintura pra baixo.

Menções Honrosas para Gaviões e Passarinhos, de Pier Paolo Pasolini, e Solaris, de Andrei Tarkovski. Ao ver esses dois filmes, aos 15 anos numa mostra de cinema fantástico, vi que o cinema podia ser algo muito além de Marcelino pão e vinho ou Se meu fusca falasse. E também para O Incrível Homem que Encolheu, de Jack Arnold, um dos melhores contrabandos da história do cinema. Filosofia disfarçada em filme B de ficção cientifica.

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Faróis: Geraldo Sarno

Foto: Leonardo LaraOs dois últimos longas-metragens de Geraldo Sarno ainda não encontraram o caminho da exibição. Tudo Isso Parece um Sonho, prêmio de melhor direção no Festival de Brasília de 2008, é um ensaio documental sobre como fazer um filme sobre um general brasileiro (nordestino) que participou de lutas de libertação na América Latina. Já O Último Romance de Balzac, prêmio especial do júri em Gramado 2010, é uma investigação sobre criação literária e psicografia.

Os mecanismos da criação, seja em cinema ou na literatura, ocupam o centro do interesse do baiano Sarno. Pensador longe ou perto da câmera, ele foi um dos fundadores da revista Cinemais e parece estar de novo caindo nas graças dos jovens estudantes e praticantes de cinema. O Último Romance de Balzac foi uma das atrações da última Mostra de Cinema de Tiradentes.

Historicamente, Sarno é um gigante do cinema brasileiro. A partir do clássico Viramundo, ele se tornou um dos principais documentaristas críticos da cultura popular no ciclo Thomaz Farkas. Prosseguiu com filmes penetrantes sobre religiosidade e política, como Iaô, A Terra Queima e Deus é um Fogo. Entre seus trabalhos de ficção, destaca-se Coronel Delmiro Gouveia (1977).

Dono de vasta cultura cinematográfica, literária e filosófica, estudou com paixão as relações entre o neorrealismo italiano, o cinema latino-americano e o Cinema Novo brasileiro. É autor de dois livros: Glauber Rocha e o Cinema Latino-americano (CIEC/Riofilme, 1995) e Cadernos do Sertão (NAU, Bahia, 2006).   

A seguir, os filmes que ele considera seus principais “faróis” no horizonte do cinema:

Aruanda, de Linduarte Noronha
Um cine-poema. Épico. Da reconstituição ficcional ao registro documental, da história mítica de Zé Bento e sua família aos planos documentais da constituição de Talhado e do trabalho das mulheres na cerâmica, o filme passa da memória ao fato, do passado ao presente, do mito ao propriamente histórico, da ficção ao propriamente documental.

Mar de Rosas, de Ana Carolina
Um dos mais explosivos e criativos filmes da cinematografia brasileira. Não perde atualidade, parece realizado nos dias de hoje.

Outubro, de Sergei Eisenstein
Um exercício exemplar e não superado de montagem cinematográfica inteligente; composição da expressão a partir da imagem visual, tendo a montagem como princípio criador e criando uma nova poética no cinema.

O Homem com a Câmera, de Dziga Vertov
O mais inteligente filme documentário de todos os tempos; poética e vida se combinam, teoria e realização, novas técnicas e um novo olhar para nos dar a imagem de um novo mundo em  gestação.

Acossado, de Jean-Luc Godard
O filme-ruptura que dá início à aventura mais extraordinária e trágica de um cineasta em busca de uma renovação da linguagem do cinema.

Rocco e seus Irmãos, de Luchino Visconti
O cinema de Visconti, como nenhum outro, reflete profundamente sobre o humano e sua circunstância social. Rocco é um filme exemplar nesse sentido.

Cidadão Kane, de Orson Welles
Memória e história ocupam o núcleo mesmo de uma nova forma de narrar. Um filme que funda uma nova era na história do cinema.

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Faróis acesos novamente

O destino dos faróis é se manterem acesos. Aqui não é diferente com os nossos Faróis do Cinema. Depois de sua temporada inicial no antigo DocBlog e de inspirar um ciclo de filmes e encontros no ano passado, na Caixa Cultural RJ e no Oi Futuro Ipanema, os Faróis estão de volta. Vamos retomar a consulta a outros cineastas, assim como republicar os posts do DocBlog.

Obrigado à turma boa da Dulado Design, que atualizou a cara do blog para nós.

Amanhã você vai encontrar aqui os Faróis de Geraldo Sarno, que ainda não tinha participado da série. E volte sempre. Ao menos uma vez por semana teremos novidades.

Enquanto isso, para reaquecer poeticamente o assunto, veja esse belo curta Farol, realizado por alunos da Universidade Católica Portuguesa:

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Mostra Faróis no Canal Brasil

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A última noite

Abaixo, alguns flashes da noite de encerramento da Mostra Faróis

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A Carta da Bahia

Durante o encontro na Mostra Faróis, Octávio Bezerra leu a Carta da 37ª Jornada Internacional de Cinema da Bahia.

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Cinema que resiste

No vídeo abaixo, alguns trechos do encontro com Octávio Bezerra e Maurice Capovilla, no último sábado, na Caixa Cultural-RJ.

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Tempo de balanço

por Carlos Alberto Mattos

É hora de fazer meu balanço pessoal da experiência de curador da Mostra Faróis do Cinema – Documentário Brasileiro. Por três meses estive conectado prioritariamente com este projeto, montando programação, fazendo convites, ajustando detalhes com a produção, mediando encontros, escrevendo textos e mantendo o blog em dia. Concluído o ciclo, ficou uma grande satisfação, mas também algumas perguntas.

Apesar da concorrida sessão de abertura com a homenagem a Mário Carneiro, não foi um evento blockbuster. A oferta de atividades culturais na cidade foi grande no período, especialmente em matéria de mostras de cinema. As pessoas estão muito ocupadas, o tempo é escasso. O interesse pelo documentário, embora crescente, ainda é residual no espectro do grande público. Ainda assim, tivemos espectadores fiéis que se mobilizaram em torno das exibições e dos encontros. Houve os que se emocionaram em rever obras consagradas, os que puderam descobrir filmes e diretores de circulação mais restrita, e ainda os que se divertiram com as histórias que emergiram nos encontros.

Posso dizer que o objetivo principal foi alcançado, qual seja o de oxigenar a discussão em torno do fazer documental no Brasil. As conversas com os diretores versaram principalmente sobre estética e linguagem, coisa rara em eventos da espécie. A abordagem das grandes referências na formação do olhar de cada um trouxe à tona uma série de pontes e linhas evolutivas que ajudaram a pensar o documentário. Essa forma de cinema surgiu então como o que de fato é: um estuário para onde confluem experimentação, paixões pessoais, ensinamentos, heranças, rupturas e ousadias. Em lugar do debate autocentrado, privilegiamos as contaminações e os diálogos entre épocas, cinematografias, formatos e gêneros muito diversos.

Ver Eryk Rocha falar de Pelechian, Vladimir Carvalho de Joris Ivens, Bodanzky de Herzog, Silvio Da-Rin de Vertov, Coutinho de Lanzmann, Capovilla de Birri, Octávio Bezerra de Nelson Pereira dos Santos, e por aí afora, foram momentos de grande prazer e aprendizado. Cada encontro forjou uma dinâmica própria, conjugando atualidade e História, cinefilia e criação. Com a Sessão Novas Luzes, trouxemos filmes e palavras de uma geração que está recebendo o bastão, revigorando os métodos e elastecendo as fronteiras da expressão documental entre nós.   

Muitos cineastas poderiam ter se juntado ao nosso elenco, não fossem os limites compulsórios do evento e os compromissos que impediram a participação de alguns. Mas eles estarão contemplados na continuidade da série Faróis, aqui mesmo neste blog, e em possíveis desdobramentos futuros.

Outro motivo de contentamento foi a participação de alunos de cinema da cidade, que trouxeram questões relevantes às mesas e ampliaram o alcance das reflexões para um futuro que já bate à nossa porta.

Quero dividir cada manifestação de reconhecimento com os patrocinadores Oi e Caixa Cultural-RJ, os apoiadores (ver no rodapé do blog), as feras da Dulado Design, a coblogueira Patricia Rebello e sobretudo as equipes da Laffilmes Cinematográfica e do Instituto Femina, que conduziram a produção e ajudaram a conceber a mostra como uma contribuição nova para o pensamento em torno do cinema brasileiro. Agradeço também a todos os que colaboraram com filmes, divulgação, sugestões e presença. Como o cinema, uma mostra como essa só se realiza enquanto trabalho de muita gente e objeto a ser  compartilhado.

Finalmente, algumas perguntas que rondam minha cabeça na hora deste balanço:

- O que fazer para aprofundar essa ideia no rumo de melhor estudar a formação dos cineastas brasileiros, e não apenas documentaristas?

- Como ampliar o público desse tipo de evento, buscando uma equação mais produtiva entre o dispêndio de dinheiro público e a distribuição dos benefícios?

- De que maneira podemos engajar mais efetivamente os estudantes de cinema numa programação potencialmente afeita a seus interesses?

- Diante da crescente dificuldade em se obter cópias 35mm de filmes mais antigos, como aperfeiçoar a exibição de cópias digitais?

Entre comemorações e indagações, vamos seguir com os Faróis acesos, como é da natureza e vocação dos faróis. Não se desliguem do blog. Ele vai tocar o barco adiante.

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Sobre filmes e viagens

Assista aos melhores momentos do encontro entre Jorge Bodanzky e Eryk Rocha na Mostra Faróis:

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Vá de Trem

O clipe Vá de Trem foi produzido para a 37ª Jornada Internacional de Cinema da Bahia como um manifesto contra a abertura de novas rodovias na Amazônia. Bruno Nunes compôs a música. As imagens são de um magnífico plano-sequência do filme A Dívida da Vida, de Octávio Bezerra, fotografado pelo mestre Hélio Silva. Na Mostra Faróis, o clipe foi exibido antes do longa Uma Avenida Chamada Brasil, também de Octávio Bezerra.     

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Farol da cidadania

por Patricia Rebello

Carlos Alberto Mattos, Octávio Bezerra, Maurice Capovilla e Miguel Coral

O último encontro da mostra Faróis do Cinema – Documentário Brasileiro cristalizou uma ideia que, silenciosamente, vinha deslizando de mesa em mesa, e de encontro em encontro. Para além de uma reunião entre quem faz e quem inspira, de uma reflexão do processo de formação e de construção do olhar, essas duas semanas consolidaram o documentário como um imponente farol. Farol do cinema, porque responsável por invenções de linguagem, desenvolvimento de narrativas e criação de personagens que são páreo duro para a melhor das ficções. Farol do Brasil, porque bem sucedido, ao longo da história, em iluminar recantos perdidos, descobrir realidades censuradas, clarear horizontes e lançar luz sob ângulos criativos. E, enfim, farol de cada um que se deixa penetrar por esse tipo de cinema, notável pela forma como pensa e dá a pensar o mundo, generoso pela criatividade que empresta ao desenho dos acontecimentos, e brilhante porque produtor de um inequívoco sentido de expansão dos limites, das fronteiras e das formas do que a gente se acostumou a chamar de VIDA.

Maurice Capovilla e Octávio Bezerra são diretores que ajudaram a fazer do documentário brasileiro um lugar de aprofundamento, de penetração e de pensamento do Brasil. Na noite de ontem, eles deram testemunho de uma trajetória rica em experiências e criatividade, essencialmente permitida pelo fazer documentário.

Sempre lutando para levar adiante projetos corajosos e independentes, Octávio Bezerra contou interessantes detalhes da produção de Uma Avenida Chamada Brasil (1988). “Acampados” em um galpão abandonado no CTAv, durante oito meses ele e o fotógrafo Miguel Rio Branco percorreram de cabo a rabo a  gigante avenida, ponto de entrada da cidade do Rio de Janeiro. Munido de um rádio pirata ligado à rádio da polícia militar, Bezerra acompanhava as atividades e os movimentos de confronto entre o Estado e uma população espremida entre o imaginário turístico da cidade e a dureza da violência velada. Aliás, um dos fortes apelos ao rever as imagens de Uma Avenida Chamada Brasil, disse ele, é a percepção de como o quadro de violência se expandiu e banalizou-se nos últimos 20 anos.

Por sinal, essa é uma percepção recorrente em várias mesas dos encontros: Bebeto Abrantes e Jorge Bodanzky, por exemplo, foram alguns dos realizadores que se surpreenderam com as realidades que documentários distantes no tempo ajudaram a descobrir. “Mais motorista que diretor”, como brincou Bezerra, ele foi um dos primeiros realizadores a penetrar nas comunidades à margem da avenida, a negociar e pedir permissão a lideranças locais para filmar suas vidas. Mas é um engano pensar que Uma Avenida Chamada Brasil encerra um denuncismo pelo conteúdo que revela. O documentário mimetiza a narração de um famoso programa de rádio dos anos 1960, o Patrulha da Cidade, programa policial transmitido até hoje, que mistura jornalismo com rádio-teatro.

Maurice Capovilla se deixou contaminar pelo cinema quando foi trabalhar, a convite de Paulo Emilio Salles Gomes, em um projeto de construção de acervo na Cinemateca Brasileira, no final dos anos 1950. De lá, enveredou por uma fundamental experiência orientada pelo documentário na Escola de Santa Fé, na Argentina, dirigida por Fernando Birri. Personagem do período em que o Globo Repórter, na década de 1970, se notabilizou pela presença de diretores como Walter Lima Jr., Eduardo Coutinho e Paulo Gil Soares, pela impressão de uma linguagem de cinema, e, especialmente, por uma independência em relação à central de jornalismo, Capovilla recordou um episódio que aponta para as singularidades destas condições de produção. Bahia de Todos os Santos aconteceu por conta de um ‘engano’ da rede Globo ao comprar os direitos de adaptação da obra de Jorge Amado. Acreditando se tratar de um livro sobre santos e mitologias, o núcleo de projetos de dramaturgia se surpreendeu ao encontrar uma espécie de ‘guia’ da Bahia. Não se pensou duas vezes em passar o texto para o Globo Repórter, que deveria transformá-lo em um documentário. O jornalismo, disse ele, simplifica a informação e não a aprofunda – coisa que o documentário faz.

Tanto Bezerra quanto Capovilla apontaram os filmes de Nelson Pereira dos Santos como faróis em suas carreiras. Para Octávio, Rio 40 Graus foi marcante pela forma como colocou o protagonismo do povo em cena. Para Maurice, Vidas Secas se apresentou como uma “radiografia” de um mundo desconhecido. Estimulados por uma pergunta de Miguel Coral, aluno de cinema da PUC-Rio, presente à mesa, ambos confessaram fazer parte de uma geração que se criou junto à fundação das cinematecas e cineclubes pelo Brasil entre os anos 1950 e 60 – Capovilla, na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, onde conheceu obras fundamentais do cinema italiano, francês e alemão; e Bezerra, no Rio, influenciado pelos filmes que teve acesso nas sessões da Cinemateca do MAM, organizadas por Cosme Alves Neto.

Capovilla apontou para a importância desse período, que está na raiz do Cinema Novo brasileiro de 1960. Para ele, diante da diversidade do que viam no cinema mundial, os realizadores brasileiros se sentiram impelidos a buscar uma identidade própria para o cinema brasileiro. Bezerra comparou esse momento, amplamente influenciado pela introdução da captação sincrônica do som, ao momento de agora, quando novas tecnologias de captação e reprodução, mais uma vez, abalam as estruturas de linguagem e estética da escrita cinematográfica.

Frequentador assíduo da Jornada Internacional de Cinema da Bahia, um dos mais antigos festivais de cinema do Brasil, voltado para o documentário e o cinema de caráter político e social, Octávio Bezerra encerrou a noite lendo um trecho da carta manifesto redigida pelo conjunto de realizadores participantes da jornada deste ano. Documentário, diz ele, é uma forma de cidadania, uma maneira muito particular de olhar para o mundo. Na carta, a urgência pela preservação de um cinema de combate que utiliza como armas a criatividade, a inteligência, a poesia, e que aposta na sagacidade do espectador, sinaliza o documentário como um farol que muito dificilmente se apagará. 

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