Faróis: Tata Amaral

Tata Amaral é uma das mais sólidas autoras do cinema urbano contemporâneo no Brasil. Filmes como o curta Viver a vida (1991) e os longas Um céu de estrelas (1996), Através da janela (2000) e Antonia – o filme (2006) deram provas de uma sensibilidade afinada com o feminino e as micropolíticas do cotidiano. Seu filme mais recente, Hoje, alia esse universo a um tema bastante frequente no cinema brasileiro recente, que são os ecos do regime militar. A seguir, Tata comenta esse filme, seus próximos projetos e a parceria com sua filha Caru Alves de Souza.

Hoje e os filmes sobre a ditadura
No que diz respeito a filmes que falam sobre a ditadura, acho que Hoje traz como novidade o fato de não ser um flashback, não contar uma história que está no passado. O filme conta uma história que se passa HOJE, mas cuja raiz está no passado, na época em que os personagens foram militantes contra a ditadura militar.

O que buscamos foi expressar, de maneira consciente, uma atitude de nós, brasileiros, perante nossos traumas: buscar esquecê-los, escondê-los debaixo do tapete. Isto fica claro quando pensamos na nossa postura como cidadãos: no Brasil, ao contrário dos demais países da América Latina, nunca identificamos ou punimos os crimes de tortura. Muitos alegam que, mesmo que quiséssemos identificar e punir os torturadores, a pena já prescreveu, pois se passaram 30 anos da anistia, que foi em agosto de 1979. No entanto, a tortura é crime de lesa humanidade e portanto a pena é imprescritível.

Os tempos de Hoje
Em termos formais, Hoje se constrói sobre a ideia de que não é possível esquecer o passado, nossos traumas e as emoções ligadas a estes. As projeções têm essa função, a de fazer com que as emoções – não os fatos, mas as emoções decorrentes deles – convivam no mesmo espaço/tempo que as ações diegéticas.

Assim, Hoje rompe com a ideia de linearidade do tempo/espaço, pois tudo pode acontecer ao mesmo tempo: Vera está na sala com Luiz contando como ela pensou em se matar, de tanta falta que sentia dele, e a porta “vira” uma janela evocando aquela pela qual Vera pensou em se jogar.

HOJE é  o tempo/espaço onde todos os tempos e todos os espaços podem conviver.

O futuro próximo
No momento estou trabalhando na finalização de Trago Comigo para longa-metragem, a partir do material bruto filmado para a minissérie homônima da TV Cultura. A previsão é terminá-la no primeiro semestre de 2013. Estou também trabalhando num novo projeto, uma história de amor da minha adolescência. Amor e militância, amor e sonho. Caru, minha filha, está escrevendo o roteiro.

O trabalho com a filha
Caru e eu temos uma relação profissional das mais criativas. Ela gosta muito de escrever e duas vezes escreveu roteiros para eu dirigir: os curtas Emília escreve um diário e Carnaval dos deuses, este em parceira com Teo Poppovic. Quando eu dirijo, ela produz e vice-versa. Produzi seus dois curtas: Assunto de família e O mundo de Ulim e Oilut. Agora ela dirige seu primeiro longa-metragem, De menor, e escreve Sonhos de Rossi, que é uma espécie de continuação do curta Assunto de família.

Eu sinto muita felicidade em trabalhar com ela. Admiro sinceramente seu trabalho, seu jeito de construir os filmes, tão diferente dos meus. Não sei se ou quanto seguiremos juntas, mas tenho certeza de que seu caminho será lindo e luminoso.

Os filmes-faróis de Tata Amaral

Rio 40 graus, de Nélson Pereira dos Santos
Quando assisti a esse filme, no final dos anos 1970, pensei que eu queria fazer cinema no Brasil e buscar aquela força narrativa, criar personagens que nos dizem respeito e com os quais podemos nos identificar porque são nossos.

Acossado (À bout de souffle), de Jean-Luc Godard
Mais um filme realista para minha coleção do coração. Senti enorme impacto quando assisti: a liberdade narrativa me cativou, os olhares do Belmondo para a câmera, a elegância e rebeldia dos personagens, Paris… tudo me encantou! Uma história contada do ponto de vista de um personagem, com toda a riqueza das suas contradições e fraquezas. Era a época em que nos apaixonávamos pelos anti-heróis.

Noite e neblina, de Alain Resnais
Assisti ao filme ainda adolescente. Além do horror pelas imagens dos campos de concentração do nazismo, o filme me impressionou pelas possibilidades narrativas do documentário e me fez refletir sobre a diferença entre reportagem e cinema.

O vento, de Victor Sjöstrom
Como eu posso ouvir som num filme mudo? Este filme me ensinou sobre o poder das imagens, do plano, do frame.

Outubro, de Serguei Eisenstein
Estudando esse filme, aprendi sobre a construção do discurso e sobre como ele parte de um lugar, de um emissário, portanto cria significados, emite opiniões, conceitos, propaga ideias, provoca. Além disso, tomei contato com a teoria dos ideogramas.

A noite e Passageiro, profissão: repórter (The passenger), de Michelangelo Antonioni
Que beleza de travellings e de deambulações! A noite mostra que o cinema também pode passear por aí… Em Passageiro, a descoberta do plano-sequência.

Guerra nas Estrelas, de George Lucas
O desfrute do espetáculo.

12 Homens e Uma Sentença (12 Angry Men), de Sidney Lumet
Cheguei tarde em casa e liguei a televisão. Estava passando esse filme. Não sabia de quem era e do que se tratava. Estava cansada mas parecia interessante. Pensei: no primeiro flashback eu desligo a TV e vou dormir. Fiquei até o final. Com exceção das sequências inicial e final, este se passa todo dentro de uma sala. Foi um farol para o futuro Um céu de estrelas.

Cidade de Deus, de Fernando Meirelles e Kátia Lund
Estava há alguns anos buscando viabilizar o filme Antônia, que queria fazer com não atores. Tudo o que eu ouvia é que o cinema brasileiro que dá certo é aquele que produz comédias de costumes com atores conhecidos. Cidade de Deus rompe esse paradigma de maneira espetacular.

Nostalgia da Luz, de Patricio Guzmán
É um filme de extrema poesia que fala de um tema sobre o qual estou trabalhando no filme Hoje: a memória e a necessidade de se lembrar daquilo que é doloroso.

(Texto publicado originalmente na revista Filme Cultura nº 58, em janeiro de 2013)

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Faróis: Walter Carvalho

Foto: Vavá Ribeiro

Vai até este domingo, 14 de abril, na Caixa Cultural-RJ, a mostra A Luz (Imagem) de Walter Carvalho. É hora, portanto, de recordar as escolhas desse mestre quando lhe perguntei sobre os seus filmes-faróis, há quase seis anos, para o antigo DocBlog.

Além de grande diretor de fotografia e ótimo diretor, Walter Carvalho poderia ser também um brilhante crítico de cinema. Apesar de turbinados pela paixão, seus comentários sobre o assunto demonstram capacidade de análise para além dos lugares-comuns.

Sua primeira resposta à minha consulta para os Faróis foi concisa, quase telegráfica. Não satisfeito, peguei o telefone e pedi que ele comentasse cada escolha. Foi o estopim para um jorro de impressões pessoais, observações históricas e apreciações estéticas que anotei como pude. Aqui vai, portanto, um resumo inevitavelmente pobre do que ouvi:

O Balão Vermelho, de Albert Lamorisse. Fui apresentado a esse filme pelo meu irmão, quando adolescente em João Pessoa. Fiquei encantado pelo que ele detonou na minha imaginação. Quando o revi, 30 anos mais tarde, descobri que sua sedução está na ausência da palavra, numa narrativa totalmente ancorada na imagem. É cinema puro, sem o suporte do código verbal. Ajudou-me a compreender o universo da imagem.

Acossado, de Jean-Luc Godard. Godard é o mais criativo e mais jovem diretor da atualidade (e digo isso até hoje). Deveria ser currículo obrigatório para qualquer cineasta se situar na história do cinema enquanto inauguração de linguagem. E Acossado é emblemático disso.

Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha. As mesmas características e a mesma densidade do cinema do Godard se encontram em Glauber. Nenhum cineasta latino-americano foi tão seminal e estimulante como ele. Deus e o Diabo é a referência maior desse cinema. Em termos de força inauguradora, foi o mesmo que Limite, de Mário Peixoto, nos anos 1930.

Dois Homens e um Armário, de Roman Polanski. Vi esse curta do Polanski na época em que era rato de cinemateca, nos anos 1970, numa fase de efervescência do curta-metragem. Lembro que, na saída, atravessei a passarela do MAM tomado por um misto de angústia, melancolia e triunfo. Aquilo era fascinante e ao mesmo tempo tão distante de mim. O filme era como um objeto que mantinha uma face oculta, que eu não via mas era capaz de deduzir. De alguma maneira, é disso que trata o trabalho com a luz. Lembro que no dia seguinte falei obsessivamente do filme com meus colegas na ESDI.

Chico Antonio, o Herói com Caráter, de Eduardo Escorel. Considero esse documentário único porque ele ecoa no tempo o caráter quase casual do encontro de Mário de Andrade com o cantador de coco. Escorel também estava na região e decidiu procurar Chico Antonio. O filme revela/sintetiza/evoca/transcende o registro do imaginário literário, simplesmente juntando peças do passado e do presente. É um exemplo de como nasce um filme. Sinto-me completamente indefeso diante dele.

É muito esquisito deixar de fora filmes como O Homem de Aran, de Robert Flaherty, e os nomes de Joris Ivens, Eisenstein, Fellini, Buñuel, Bressane, Antonioni… Blow-Up, por exemplo, é um dos filmes que me influenciam/inspiram até hoje. Matou a Família e Foi ao Cinema foi fundamental para mim. E Os Fuzis? Difícil, muito difícil essa tarefa.

Na verdade não são cinco filmes, mas um conjunto de filmes que me levaram para a loucura de fazer filmes. Inclusive meu irmão (Vladimir).

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Faróis: João Moreira Salles

João Moreira Salles elegeu seus filmes-faróis pela primeira vez há seis anos, no antigo DocBlog. Apontou então apenas cinco filmes. No ano passado, voltei a ele para a revista Filme Cultura nº 56 e pedi-lhe que atualizasse a lista, agora com dez títulos. A nova lista está abaixo, junto com a entrevista que publicamos na ocasião.

Filme Cultura: Notícias de uma guerra particular, Nelson Freire, Entreatos e Santiago são filmes que se tornaram modelos de excelência para o documentário brasileiro. Que papel têm eles na sua autopercepção como documentarista?

João: Os filmes citados têm méritos, mas não acredito que cheguem a configurar uma obra, no sentido de um conjunto cujas partes se articulam para propor uma ideia particular do cinema documentário. O que consigo perceber na sucessão destes filmes é uma progressiva mudança de ênfase nas minhas preocupações, do tema para a forma. Notícias é um filme cujos autores – Kátia [Lund] e eu – estão pouco preocupados com as questões da não-ficção; o que nos interessa é o mundo lá fora. É como se o filme não tivesse consciência de si como cinema. Chega-se ao último título da tua lista, Santiago, e o que se vê é o contrário disso. Entreatos e Nelson Freire são as etapas intermediárias deste processo. Não atribuo a esse percurso um caráter virtuoso, como se ele atestasse o progresso de um documentarista. Filmes voltados para dentro de si mesmos, como Santiago, podem ser insuportavelmente artificiais e presunçosos, enquanto inúmeros filmes para fora, como Notícias, marcaram a história do gênero. O percurso é apenas o reflexo das minhas preocupações: hoje, o filme me interessa mais quando diz algo sobre o próprio cinema.

FC: Há seis anos o público e a crítica se perguntam se e quando você voltará a dirigir.

Do modo como vejo as coisas, não deixei de trabalhar com o que me interessa, que é o mundo e às formas de representá-lo. Continuei a produzir narrativas não-ficcionais, trocando a câmera pelas palavras [na revista piauí]. Minha impressão é que todos os perfis e reportagens que escrevi eram mais apropriados à forma escrita. Jamais me passou pela cabeça filmá-los. Tema e forma estavam bem adequados. Inversamente, há materiais que se prestam mais ao cinema, e há pelo menos um ano venho dedicando meu tempo livre a estudar imagens de arquivo dos anos de 1967 e 1968. Tenho vontade de montar um filme com sequências que não são minhas – um filme de compilação, portanto – que me permita refletir não sobre os acontecimentos históricos ali representados, mas sobre a maneira como as pessoas aparecem nestas imagens. Não sei se dá filme, mas tenho vontade de me dedicar a isso no segundo semestre de 2012.

FC: Chegou a ser noticiado seu projeto de fazer um filme sobre as viagens de sua mãe à China nos anos da Revolução Cultural. Isso foi deixado de lado? Está em alguma gaveta, como tinha ficado o projeto de Santiago?

O projeto que descrevi acima nasceu desse material filmado por minha mãe em 1967. São rolinhos de Super-8 que guardo há muito tempo. Hoje, já não sei se eles serão incorporados ao projeto. As imagens são muito precárias, amadoras, mas essa não é a razão principal. Ao utilizá-las, o filme ganhará imediatamente um caráter autobiográfico, e já não sei se é isso que quero. É uma decisão que tomarei na ilha de edição, caso o filme seja mesmo feito. Não é certo que será.

FC: A piauí acabou se firmando como um espaço de debate também para o cinema, através da coluna do Eduardo Escorel. Como você analisa essa atuação da revista?

Não só cinema. Uma revista como a nossa não pode ficar à margem do debate cultural. A gente tem ambições não realizadas nessa área. Queremos ser relevantes, mas ainda falta estrada para acertar a mão. Eduardo apontou a direção, e hoje continua a contribuir com o blog. A meu ver, o maior mérito das colunas e posts dele é o fato de estarem a serviço de uma ideia de cinema, e é isso que se espera de um crítico. Não se trata de gostar ou não de um filme, mas de entendê-lo no contexto das questões centrais da atividade, indagando sempre como cada realizador responde a cada uma delas. Esses desafios vão desde as implicações econômicas de se fazer cinema num país pobre aos dilemas éticos inerentes a toda tentativa de representar a realidade.

FC: Produzir o Eduardo Coutinho tem sido para você uma atividade paralela no cinema. O que pode dizer dessa relação depois de tantos anos?

Tê-lo como amigo é mais importante do que tê-lo como colega de profissão. Se as recompensas pessoais são hoje bem maiores do que as profissionais, isso te dá um pouco a medida de como essa amizade é importante para mim. Sou produtor dos filmes dele, e não hesito em dizer que boa parte do que pensei a respeito do documentário é resultado direto desse convívio profissional, mas hoje o cinema é secundário na nossa relação. Existem coisas mais fundamentais. E olha que tenho plena consciência de que meu desempenho na produção dos filmes que ele dirigiu desde Babilônia 2000 me torna parte da construção de um dos raros conjuntos de filmes brasileiros aos quais se pode dar o nome de obra. Ainda assim, isso ficou em segundo plano.

Os filmes-faróis de João Moreira Salles

“É importante sublinhar que essa lista não compreende os “dez melhores filmes da minha vida”. São apenas os títulos que me ocorrem no momento em que você me pediu para escrever. Por óbvio, deixei de lado os clássicos acima do bem e do mal, como Cabra marcado para morrer, O homem com a câmera, etc.

A oeste dos trilhos (Wang Bing, 2004): um épico de oito horas sobre a dissolução de uma cidade operária na China. Cinema de observação patologicamente minucioso (ou seja, da melhor variedade). Bing passou anos registrando cada casa sendo destruída, cada forno se desfazendo, cada operário que adoece.

O poeta do Castelo (Joaquim Pedro de Andrade, 1959): pelo simples fato de achar muitíssimo simpático assistir ao Manoel Bandeira fazendo torradas.

Videogramas de uma revolução (Harun Farocki, 1992): um filme de compilação que é simultaneamente o registro em tempo real de uma revolução popular e uma reflexão sobre a relação do poder com as imagens.

A caminho da eternidade (Michael Madsen, 2010): um dos raros filmes com pretensões filosóficas que conseguem estar à altura de suas ambições. A partir do dilema de como acondicionar o lixo nuclear de usinas atômicas, Madsen faz uma reflexão fascinante sobre o abismo linguístico e cognitivo que nos separa das futuras gerações.

As cinco obstruções (Jorgen Leth e Lars von Trier, 2003): por conseguir ser ao mesmo tempo perverso e afetuoso.

Diário de uma busca (Flávia Casto, 2010): para mim, o mais bonito filme sobre a geração dos anos 1960. Uma demonstração de como o afeto e a história pessoal abrem vistas para a grande história.

La bocca del lupo (Pietro Marcello, 2009): uma história de pobreza, violência e tolerância sob o pano de fundo da desindustrialização de Gênova. Triste e tocante.

Terra deu, terra come (Rodrigo Siqueira, 2010): raríssimas vezes vê-se um primeiro filme em que o domínio dos meios narrativos seja tão surpreendente. Rodrigo é capaz de conjurar um mundo de espíritos e palavras raras que pouca gente imaginava existir fora da literatura.

Iracema, uma transa amazônica (Jorge Bodanzky e Orlando Senna, 1976): o fato de não saber se cabe direito nesta lista já o torna suficientemente interessante para constar dela. A meu ver, um dos melhores filmes do cinema brasileiro.

Cocorico Monsieur Poulet (Jean Rouch, 1974): tão híbrido quanto Iracema, a que inspirou, e portanto outro intruso na lista. Não importa: é o melhor road movie já realizado.”

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Faróis: Carlos Alberto Prates

Na filmagem de "Crioulo Doido". Foto: Tiago Veloso

Carlos Alberto Prates Correia está sendo homenageado na Mostra do Filme Livre 2013. No ano passado, o colega Daniel Caetano o entrevistou e apurou seus filmes-faróis para a revista Filme Cultura. Incorporo agora esse material ao nosso acervo de Faróis.  Os comentários de Prates sobre os filmes têm a verve muito típica desse realizador mineiro, autor de filmes como Cabaré Mineiro e Noites do Sertão, entre outros citados abaixo.

Filme Cultura - Você vê relações entre o seu cinema e os filmes de outros realizadores em atividade?

Prates - Não vejo nem nunca vi relações do meu cinema com algo que alguém mais ande fazendo, mas pode ser que elas existam. Essa pretensão à originalidade, no entanto, já teve que ultrapassar obstáculos: quando terminei o roteiro de Minas-Texas, por exemplo, fui ver um filme de Almodóvar e me deparei na tela com a dublagem de Johnny Guitar para o castelhano, justamente de uma cena que sob forma de paródia eu tinha incluído em meu roteiro. Fiquei constrangido e a substituí. Anos depois, ligo a TV e vejo uma cena de outro filme dele, com a mesma gravação de uma música da trilha de Perdida, que ele certamente não viu. Apesar das coincidências, não me sinto relacionado a Pedro Almodóvar.

FC – Depois de um filme memorialístico como Castelar e Nelson Dantas no País dos Generais, você tem novos projetos em vista?

Prates - Todos os que realizei são de alguma forma memorialísticos. Veja como surgiu Terra de Grande Beleza, o próximo. Rio, 2003: estava enfermo e ganhei uma biografia do presidente JK, um volume pesado. Cerrando as pálpebras, JK surgia como candidato, o povo o cercava na Praça da Matriz e ele atravessou a rua para abraçar a minha mãe. Montes Claros, anos 50. Eu era adolescente.

Em sua primeira versão, Terra de Grande Beleza seria a história do sentimento que experimentei, isto é, do ciúme que começa naquela praça, se prolonga quando o político arrebata do futuro cineasta sua prima querida e chega ao clímax quando se vê o diamantinense lhe subtraindo sua companheira de militância num partido extremista. No projeto atual, o filme passou a ser a crônica de uma geração que virava a noite no bar discutindo os rumos da revolução brasileira.

O enredo cobre com humor um período de 35 anos do itinerário dessa geração, inclusive o destino daqueles que deram cabo à vida pelo caminho ou preferiram ingressar na guerrilha contra a ditadura militar e tiveram um fim trágico.

Um outro lado do enredo me atrai igualmente: Terra de Grande Beleza é também a memória de um segmento da população de Minas que fazia da mudança para o Rio o grande sonho de sua vida. O material de arquivo a ser inserido corresponde a uma parcela de menor porte da obra ficcional, mas seu uso intermitente deverá auxiliar na ambientação histórica das cenas relacionadas com o Rio de Noel Rosa, a FEB na Itália, a Ipanema nos anos 50, Jânio, Jango, o golpe de 64, os períodos Médici e Fernando Collor.

Como se vê, contrariando meus argumentos anteriores, desta vez o fluxo da memória participa de um jogo com as imagens e as palavras mais comprometido com uma ostensiva ambição cosmopolita, originária do enredo de apelo popular A Mulher Guerreira, que abandonei para dirigir Minas-Texas e uso aqui sob a forma de lembrança. A Mulher Guerreira pretendia ser um filme de ação, no qual destinos individuais se entrelaçavam com os destinos do país. Terra de Grande Beleza toma dele os ingredientes picantes e muita ação, egressos do best-seller tradicional – lindas mulheres, negociatas, intrigas políticas, chantagens e assassinatos. O filme tem como objetivo prender o espectador do primeiro ao último plano sem perder a linha de sua sensibilidade apurada e jamais deixando de lado a visão poética e principalmente a percepção crítica.

Os filmes-faróis de Carlos Alberto Prates Correia

1 – Chicoteada (La Fille au Fouet), de Jean Dréville (1952) – Genival Tourinho (futuro deputado), aos 18, e Maurício Gomes Leite (futuro crítico e cineasta), aos 15, subiam a Rua Camilo Prates para ver Barba Azul, com Cécile Aubry (impróprio até 18), achando graça da minha petulância quando eu me encontrei com eles, aos 10, perseguindo o mesmo objetivo. Não sabiam que meu tio, representante do juiz de menores na porta dos cinemas, facilitava a minha entrada e a do primo Felisberto em filmes de qualquer impropriedade, menos os proibidos, como Esquina do Pecado. Pelo menos em Montes Claros, havia diferença entre impróprio e proibido. Foi por isso que consegui ver o obscuro Chicoteada, passado nos Alpes suíços, um filme que provavelmente Guimarães Rosa também viu antes de imaginar Diadorim.

2 A última Vez que Vi Paris, de Richard Brooks (1954) – Eu não sabia o que era amor, não entendia Casablanca, que tanto agradava à minha mãe. Fui estudar num colégio interno, onde, aos 12, vi o Festival da Metro e parece que aprendi – com Scott Fitzgerald, Richard Brooks e, principalmente, Elizabeth Taylor. Mandei carta para ela, que mandou como resposta uma foto lindíssima e dedicatória afetiva, mas lacônica. Considerei logo extinta a possibilidade de qualquer relacionamento. Anos depois, filmei em Perdida uma sequência com Helber Rangel tentando reproduzir o sofrimento de Van Johnson diante da morte de Liz. Não sei se ela entendeu como tal a minha declaração de amor.

3 – Férias de Amor (Picnic), de Joshua Logan (1955) – O dorso nu de William Holden, queimando lixo, subvertia a ordem. Kim Novak descia as escadas do picnic ao som de Moonglow. “Eles estão tomando banho nus no lago”, dizia-se mais tarde a respeito da nova mania de Hollywood. Havia Faulkner no ar, Cinemascope, som estereofônico. Kim Novak me enlouquece, mas não consigo transmitir para o curta-metragem que escrevo sua sensualidade absoluta.

4 – Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos (1963) – Juvenil, saio da sessão especial convencido de que o sertão verdadeiro estava ali, na tela grande do Cine Palladium, sem a falcatrua do cangaço, da jagunçada. Na sala de espera ouço a viúva de Graciliano [Ramos] dizer que a miséria era a maior grandeza nacional. Fico perplexo e concluo que nada mais havia a fazer a partir daquele assunto através daquela linguagem. Apego-me inconscientemente apenas ao desejo de filmar um dia com Maria Ribeiro, a protagonista.

5 – Contos da Lua Vaga, de Kenji Mizoguchi (1953)Depois do sucesso de Macunaíma, Joaquim Pedro resolve produzir Cidadão Cana para mim, com Grande Otelo no papel inspirado em Adolfo Bloch, construtor de um império jornalístico atormentado por sua estatura muito baixa. Comecei a esboçar o roteiro com ele, mas logo na primeira reunião percebi que a realização cairia fatalmente num viés tropicalista, que não me agradava de todo – e cada um foi para seu lado. O que eu desejava era cruzar racismo com ascensão social citando os Contos da Lua Vaga. O que me interessava era contar os sonhos de Poder daquele alfaiate e a busca da sua Lady Wasaka, que precederam a loucura que o dominou.

6 – Ano Passado em Marienbad, de Alain Resnais (1961)Escrevi algumas críticas sobre o filme, chegando até a explicar sua montagem através do jogo de palitinhos chinês. Tempos depois, eu varava madrugadas com um colega, militante da POLOP, tomando Perventin para estudar Sociologia e fazer prova no dia seguinte. Numa delas, ele me confessou que preferia Os Companheiros [Mario Monicelli] à obra-prima de Alain Resnais, mas notei que ele estava mesmo era se divertindo com a minha alucinação, recebendo em troca por sua avaliação errônea minha afetuosa e superior compreensão. Mais alguns anos, e eu construo a fantasia de que a bárbara tortura a que Beto, o meu colega, foi submetido em Petrópolis, antes da morte, deveu-se não à sua liderança no movimento guerrilheiro, mas à sua inquestionável capacidade de seduzir. A montagem de Castelar e Nelson Dantas é uma ressonância longínqua de Marienbad, mas também um sorriso compreensivo para ele.

7 – A Adolescente, de Luis Buñuel (1960) – De Buñuel só tinha visto Robinson Crusoé na infância e me lembrava pouco, de forma que ficava meio deslocado à mesa do bar quando se falava de surrealismo, mesmo sendo leitor até frequente da revista Positif. Achava curioso o folclore que atribuía a ele o ato de chutar a câmera, antes de rodar o plano, quando seu operador ajustava o enquadramento. A Adolescente me apresentou um diretor que eu não esperava, primeiro porque sua escrita trazia poucas lembranças do surrealismo, depois porque os enquadramentos do filme eram rigorosos e iluminados com primor por Figueroa. Mas o que me atraiu mesmo foi seu cinema sem maniqueísmos, que tentei homenagear em Cabaret Mineiro numa sequência (agora sim) surrealista, em que o personagem de Nelson Dantas assa e devora uma adolescente no espeto.

8 – A Grande Ilusão, de Jean Renoir (1937)Chego em Montes Claros e me encontro com João Luiz Lafetá, meu primo, no Mangueirinha. Acabo de pagar a dívida de Crioulo Doido. Ele vem de São Paulo, onde dá aulas de Literatura. Eu falo que fiz o pior filme da história do cinema, que ele viu na Cinemateca e gostou. Informo que vou ser produtor executivo daqui pra frente, e ele tem um trabalho danado para me convencer do contrário, elogia algumas cenas, analisa, fala da boa repercussão. Com mais algumas doses vou me reerguendo, aceitando suas ponderações, ganhando ânimo. Ele só faz uma pequena restrição, devido à sinuosidade do meu estilo, mas aí eu já estou forte e digo que meu modelo foi A Grande Ilusão, descarto a crítica e começo naquela mesma noite a escrever o sinuosíssimo roteiro de Perdida.

9 – O Tesouro da Sierra Madre, de John Huston (1948) – Fui rever no Paissandu antes de filmar Minas-Texas. Mais por causa de Tim Holt, que sempre foi meu cowboy favorito. Fiquei surpreso com a exata movimentação da narrativa, destituída de travellings viciosos que apenas enfeitam a cinematografia praticada nos últimos decênios. Eliminei então o maquinista do meu orçamento, retornando à simplicidade de uma câmera sustentada por um bom tripé, como em meus primeiros filmes. Ganhei de bônus a cena com um delirante Walter Houston vendo o ouro em pó se espalhar pela ação do vento, para usar a gosto em Terra de Grande Beleza.

10 – Intriga Internacional (North by Northwest), de Alfred Hitchcock (1959) – Diante dos novos tempos, hesito agora em conservar intocáveis os componentes de um estilo que inclui certo humor, o olhar na direção das mulheres e a presença do trem. Os filmes desprovidos de trem me causam grande enfado, chego a pensar que eles não mereciam ser feitos. Em Crioulo Doido, que reeditei há pouco, ocorria essa lacuna. A personagem era filha de um ferroviário, mas não havia a imagem do trem porque a linha férrea fora desativada em Sabará, a locação. Aproveitei a oportunidade e na trilha sonora usei com desenvoltura o inolvidável ruído de uma locomotiva chegando à estação. O filme virou outra coisa.

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Faróis: Eduardo Nunes

Formado em cinema pela Universidade Federal Fluminense, Eduardo Nunes iniciou sua carreira no próprio ambiente universitário, juntando-se a colegas e concorrendo em editais de curtas-metragens. Além de atuar em várias funções em filmes alheios, dirigiu cinco curtas que o situaram como uma das maiores promessas do cinema brasileiro dos anos 1990. Apesar da diversidade de temas e universos, Sopro (1994), Terral (1995), A Infância da Mulher Barbada (1996), Tropel (2000) e Reminiscência (2001) demonstravam uma consistência autoral rara e uma concepção sofisticada de tempo e espaço. Uma análise detida desses filmes e sua época foi objeto de um ensaio de Carlos Alberto Mattos.

A promessa, enfim, se concretiza com o lançamento de Sudoeste, seu primeiro longa. Não foi nada fácil realizá-lo. Nunes levou mais de 10 anos para levantar e completar a produção, compensando o orçamento exíguo com a determinação na busca do que queria e a colaboração de um elenco e uma equipe excepcionais. Ao mesmo tempo, trabalhava com frequência e afinco para a televisão.

Sudoeste narra a história misteriosa de uma mulher que vive sua vida inteira no tempo de um dia das outras pessoas de um povoado salineiro. Duas mortes marcam a fronteira desse dia mágico, em que os segredos de uma família se insinuam pelas frestas da trama e o ciclo do tempo perfaz uma espécie de volta imperfeita. As imagens em preto e branco, dispostas numa tela de horizontalidade radical, estão entre as mais belas produzidas pelo cinema brasileiro recente.

Algumas das influências de Eduardo Nunes transparecem nos seus filmes-faróis, comentados a seguir:

“Uma lista que mistura faróis de todos os tipos: referências de linguagem, pessoais e outras que sobrevivem como boas lembranças de uma sala de cinema. Sem ordem de preferência”.

Limite de Mário Peixoto
Antes de tudo por tratar-se de uma obra singular; singular na filmografia brasileira e mundial. Os últimos anos do filme mudo foram, até agora, os anos mais criativos do cinema. Este filme é contado quase todo por imagens, com uma invenção e requintes narrativos impressionantes até hoje.

São Bernardo de Leon Hirszman
Acredito que a literatura, como arte, ainda tem muito a contribuir para o cinema. Ler o livro de Graciliano e ver o filme de Leon mostra que esse diálogo não só é possível como pode enriquecer muito o “contar cinematográfico”. A solidão dos personagens, a crueza da fotografia e o lindo monólogo final… o cinema de Hirszman é econômico e preciso.

Napoleão de Abel Gance
O cinema como espetáculo. Gance sempre pensou o cinema além de seus próprios limites: os limites da tela e da sua própria linguagem. Acreditou na experiência da sala de exibição como um momento de experiência sensorial.

Era uma Vez em Tóquio de Yasujiro Ozu
A simplicidade como a forma direta de encontrar a complexidade dos personagens. A precisão em ver no cotidiano o essencial da vida: seus tempos mortos, diálogos rotineiros e emoções profundas.

A Filha de Ryan de David Lean
Glauber Rocha uma vez escreveu: “Tudo em David Lean é grandioso”. Neste filme o épico está em seus grandes planos, mas também nos closes silenciosos; na força da natureza e nos pequenos conflitos íntimos. Lean consegue filmar mistérios intraduzíveis com uma narrativa aparentemente clássica. O cinemão em sua plenitude.

Era uma Vez na América de Sergio Leone
Os principais elementos do cinema americano cuidadosamente reunidos pela carpintaria italiana de Leone. A formação da América através da violência contada com uma decupagem elegante, um criativo uso do som e personagens inesquecíveis, cheios de amor e ódio. Belas sequências e um dos mais belos finais do cinema.

Persona de Ingmar Bergman
Bergman era obcecado pela ideia da morte. A impressão que fica quando começamos a ver este filme é que ele começa dizendo: “Ok, vamos falar do que interessa: da vida e da morte.” Persona reúne experimentalismo, duas personagens fascinantes e um lindo preto e branco.

Andrei Rublev de Andrei Tarkovski
Tarkovski deu ao cinema um novo significado. Transformou um filme numa experiência espiritual. A possibilidade de, durante a projeção, transportar o espectador para uma nova possibilidade de ver o mundo. Dentro de uma pequena filmografia impecável, este filme é particularmente encantador: a busca de Andrei (Rublev) é a mesma de Andrei (Tarkovski).

Um Corpo que Cai de Alfred Hitchcock
Os filmes de Hitchcock vão do cinema mudo ao 3D, e sempre demonstram a sua capacidade de conduzir o espectador. Encanta os desafios: um suspense sem música, um outro sem cortes e mais um através de uma janela… Um Corpo que Cai é realizado numa das melhores fases de Hitchcock, cercado de obras-primas. Mas é o mais melancólico de todos.

A Aventura de Michelangelo Antonioni
Antonioni faz desse filme uma viagem onírica sem volta. Um sonho filmado. Não sabemos exatamente o que acontece, como (e quando) acaba. A relação entre os personagens é construída aos poucos, entre silêncios e longos planos. E quando percebemos já estamos totalmente envolvidos pela narrativa.

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Faróis: Karim Aïnouz

Karim Aïnouz iniciou hoje as filmagens brasileiras de Praia do Futuro. O roteiro foi escrito em Berlim. Na história há dois irmãos. O mais novo desaparece no Brasil e, anos depois, procura o mais velho na capital alemã. Em julho do ano passado, entrevistei Karim de Berlim para a revista Filme Cultura nº 55, matéria que reproduzo parcialmente aqui:

- Sou filho único, e falar de dois irmãos é falar de algo que nunca pude experienciar. Este vai ser um filme sobre a aventura, o risco, a utopia. Um dos personagens principais é um salva-vidas, alguém que vive no mar. Estou escrevendo em Berlim porque vejo o filme também como uma expressão íntima do que essa cidade-fênix passou por conta da divisão e da reunificação da Alemanha. Uma cidade que se reinventa a cada tantas décadas, sempre apontando um novo futuro.

O último longa-metragem assinado por Karim é Abismo Prateado, que ainda espera lançamento comercial. Esse filme é um apanhado de impressões sobre as primeiras 24 horas de uma mulher após ser abandonada pelo marido. Numa carreira que inclui Madame Satã, O Céu de Sueli e Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo, fica óbvio o revezamento entre personagens centrais masculinos e femininos.

- Pensando nisso, reconheço uma vontade de alternância. A partir do gênero e da orientação sexual dos personagens, procuro adentrar um determinado universo. Além disso, gosto de filmar corpos. É como filmar vidas. Depois de Abismo, bastante feminino, Praia do Futuro é um filme de homens, com muita máquina, mar, sal, pedras etc. Há ainda o desejo de não me repetir, de que cada filme seja um espaço que eu não conheço.

Abismo Prateado se inspira numa canção de Chico Buarque, enquanto Satã partia de um personagem real e Suely e Praia são argumentos originais. Nenhum livro, por enquanto.

- Essas matrizes muito diferentes têm a ver com a minha busca de um desafio distinto a cada filme. Mas todas elas me servem para compor retratos de personagens, muitas vezes em contato apenas consigo mesmos. Mais que uma narrativa, considero Abismo um ensaio sobre a representação de uma sensação no cinema, um instantâneo da Violeta, para usar expressão que tem a ver com a minha paixão pela fotografia. Viajo já apontava nessa direção de uma pós-narrativa, que é mais um disparador do que o mapa do filme.

Apesar da admiração da crítica e de uma plateia fiel, Karim não se deitou sobre os louros do sucesso. Ao contrário, dá mostras de inquietação com o seu lugar dentro do cinema brasileiro.

- O contexto e o mercado hoje são muito diversos de quando eu comecei a fazer cinema. Houve uma mudança radical na maneira de se consumir o audiovisual. Então fico me perguntando que relevância na arena pública tem esse cinema ‘menor’, mais artesanal, que eu gosto de fazer. Está cada vez mais difícil esses filmes existirem. O número de pessoas que vão assisti-los é cada vez menor. Será que o cara de 20 anos, que está cheio de tesão pela vida, vai querer ver Abismo Prateado? Por outro lado, não sei se eu gostaria de fazer outro tipo de filme considerado mais popular.

Veja a seguir os filmes-faróis de Karim Aïnouz

1. O Medo Devora a Alma, de R.W. Fassbinder, 1974
Adoro esse filme pela simplicidade e ao mesmo tempo pelo exagero. É um filme que perfura o coração e que ao mesmo tempo consegue fazer uma crítica profunda a um estado de coisas, ao racismo, à xenofobia. Um filme que fala de questões que estavam adiante do seu tempo. Um grande melodrama.

2. Deserto Vermelho, de Michelangelo Antonioni, 1964
Pela visualidade deslumbrante, pelo elenco, por uma experiência sensorial, olfativa, física. Um filme que não é sequestrado pela trama e pela narrativa e que se configura como puro cinema. Nada como ver Monica Vitti nesse filme – singular, sexy e atormentada.

3. Fama, de Alan Parker, 1980
Lembro quando vi este filme pela primeira vez, devia ter 12 ou 13 anos, estava de férias no Rio de Janeiro, foi em um cinema em Copacabana. No final quando começou a tocar Last Dance, parecia que o cinema inteiro ia se levantar e dançar sem parar. (Aqui Karim se enganou quanto à canção e pediu para desconsiderar a referência)

4. Os Embalos de Sábado à Noite, de John Badham, 1977
Na minha opinião todo filme deveria ter no mínimo uma cena de dança. Cinema e dança para mim são partes do mesmo ímpeto. John Travolta dançando na pista de luzes pisca-pisca é um clássico para o cinema.

5. Imitação da Vida, de Douglas Sirk, 1959
Pela capacidade de falar de um tema tão importante para o seu tempo, o racismo, de maneira tão assombrosa. Um dos melhores melodramas de todos os tempos. Nunca esqueço das cores, puro Technicolor. Uma realidade alterada e potente.

6. 35 Doses de Rum, de Claire Denis, 2005
Alem de ser fã do cinema da Claire Denis como um todo, sem saber explicar direito por quê, adoro particularmente esse filme. Ela consegue narrar sem falar, pelas pequenas ações, pelos olhares, pelo movimento dos corpos na tela, pela descrição do cotidiano. O oposto do Woody Allen, um dos cineastas mais sem graça das últimas décadas.

7. A Hora da Estrela, de Suzana Amaral, 1985
Inesquecível. Por causa da Marcélia Cartaxo, por causa da Macabea, pela maneira como adaptou um romance inadaptável, pela emoção que me causou. Um filme minimalista na forma e explosivo na dramaturgia.

8. Je t’Aime… Moi non Plus de Serge Gainsbourg, 1976
Pelo tesão, pelo puro tesão de ver a Jane Birkin e o Joe d’Alessandro, nus, tesudos e fodendo sem parar. Tenho saudade e sinto não termos mais filmes contemporâneos com essa força, com essa coragem, com essa sensualidade.

9. Viver a Vida, de J.L. Godard, 1962
Pela cena da Anna Karina dançando em volta da mesa de sinuca. Liberdade, liberdade, liberdade. Um filme livre, abusado, em preto branco. Um filme que consegue traduzir a irreverência do seu tempo.

10. Os filmes de Stan Brakhage
Por ser um cinema que, à primeira vez que eu vi, não entendi que era cinema. Cor e som no tempo. Um cinema abstrato, que coloca o cinema narrativo no seu lugar. O cinema pode ser muito mais do que uma historia bem contada, ele pode ser também uma experiência audiovisual abstrata e inesquecível.

Extras: Giselle, de Victor di Mello, 1980; Un Chant d’Amour, de Jean Genet, 1950; Z, de Costa Gavras, 1969.

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Faróis: Vicente Amorim

O belo e impactante Corações Sujos está em cartaz quando esse post entra no ar, retomando a série Faróis depois de pausa de alguns meses. O drama que divide a colônia japonesa por ocasião do fim da II Guerra Mundial envolve um estudo de personalidades confrontadas com uma verdade histórica: a derrota do Japão. Os que não aceitam o fracasso da nação de origem e a ideia de que o imperador seria mortal o fazem por fanatismo ou oportunismo, sendo às vezes difícil determinar o limite entre as duas razões. Acima de tudo, paira uma crítica ao fundamentalismo nacionalista, que pode transformar um bom sentimento em matéria do Mal.

Foto: NADA AudiovisualEsse quarto longa-metragem de Vicente Amorim pontua uma carreira de rara coerência, em que os temas se desdobram e o estilo se refina no interior de uma linguagem clássica. Ele faz um cinema brasileiro que não se limita a parecer brasileiro, mas dialoga com os modelos internacionais, como bem exprimem seus filmes-faróis lá embaixo.

Nascido na Áustria enquanto o pai, o Ministro Celso Amorim, servia em Viena, Vicente teve infância e adolescência ciganas. A não permanência, acha ele, foi determinante para a escolha do cinema como principal meio de expressão. Depois de fazer assistência de direção para Paul Mazursky (Luar sobre Parador) e Hector Babenco (Brincando nos Campos do Senhor), ele iniciou sua longa parceria com o roteirista e diretor David França Mendes no curta Vaidade! (1990). O primeiro longa, codirigido com David, foi o documentário 2000 Nordestes (2001), que serviu de pesquisa e preparação para O Caminho das Nuvens (2003), ficção baseada em fatos. Vicente, neto de nordestino, estava em busca de suas raízes.

A exibição de O Caminho das Nuvens no exterior atraiu para suas mãos diversos roteiros americanos. A maioria era de histórias sobre imigrantes, e nada lhe interessou. Até que topou com o roteiro de Um Homem Bom (2008), produção independente focada num escritor que se deixa usar como instrumento da propaganda nazista. Corações Sujos veio adensar sua representação dos dilemas de pessoas relativamente comuns que se veem presas de uma voragem nacionalista e da intolerância que a acompanha.

Os próximos projetos de Vicente têm cenários diferentes, mas a mesma âncora fincada em episódios reais. Um deles vai partir de argumento original de Fernando Morais sobre a Operação Peter Pan, em que mais de 14 mil crianças e adolescentes cubanos foram expatriados para os EUA por decisão de suas famílias, que não aceitavam a revolução. A cineasta Estela Bravo fez um documentário sobre o assunto no ano passado. O filme de Vicente será, em suas palavras, “uma improvável coprodução entre Brasil, Cuba e Estados Unidos”. Seu outro projeto é um thriller integralmente nacional sobre Maria da Penha, a farmacêutica que foi brutalmente maltatada pelo marido durante seis anos de casamento e cujo caso deu nome à Lei Maria da Penha de proteção à mulher no âmbito doméstico ou familiar.

Conheça a seguir os filmes-faróis de Vicente Amorim, introduzidos por algumas ressalvas importantes:

“Difícil essa tarefa de escolher os filmes que me marcaram. Acho que a única forma honesta de dizer quais são é responder de chofre, sem pensar muito. Assim o gosto não fica maquiado pela razão. As escolhas abaixo são, portanto, as de hoje, 29 de agosto, duas da tarde, e são escolhas emocionais. Sei que vou me arrepender de não ter posto um ou outro filme na lista, mas não vale ficar pensando muito. Vou deixar os japoneses de fora de propósito, por muito óbvios.

O Conformista, de Bernardo Bertolucci
As tentações do fascismo são primais. Pra mim não há bom, mas mau selvagem, fascista. Nesse filme, o Bertolucci, além de demonstrar as tais tentações, disseca a classe média e o anti-intelecutalismo. O filme é, também, muito bem filmado e fotografado. A fluidez dos movimentos, mesmo os que parecem datados – as zooms radicais – e a luz são ao mesmo tempo evocativos, cheios de personalidade (coisa que muita gente não topa) e apropriados à história. Marcello é muito próximo de todos nós, na banalidade e na angústia. Esse filme foi uma referência muito importante para meus dois últimos trabalhos, mas especialmente para Um Homem Bom.

Tempestade de Gelo, de Ang Lee
Delicado e violento, esse filme do Ang Lee me toca de forma especial, pois eu morei, com meus pais, num subúrbio americano não muito diferente do que é retratado no filme e na mesma época, o meio dos anos 1970 (embora eu fosse um pouco mais jovem que os personagens). A direção dos atores, especialmente das crianças, a poesia discreta de planos aparentemente aleatórios, a tensão, o tesão e a violência psicológica fazem desse filme um dos meus preferidos de todos os tempos.

Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha
Citar Glauber vale? É lugar-comum? Não me importo que seja. Vi esse filme dezenas de vezes: recentemente, em DVD; na cópia restaurada de alguns anos atrás, no cinema; numa cópia em 16mm que conseguimos, nem lembro como, na época de cineclube. O Brasil está definido ali em toda sua fúria barroca. Acho que uma das razões de eu fazer cinema é por causa do Glauber. Meu primeiro filme, 2000 Nordestes (codirigido por David França Mendes, meu parceiro há décadas), termina com um travelling circular e o grito “mais fortes são os poderes do povo” surrupiado da trilha do filme do Glauber (com autorização de Dona Lúcia).

Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos
Não precisa pensar muito para entender por que eu quis fazer um filme sobre uma família que atravessa o Nordeste atrás de um emprego (O Caminho das Nuvens). Além da força dramática, das atuações (incluindo a antológica e anedótica da cadela Baleia), da relevância social ululante, Vidas Secas é muito bem filmado. O plano inicial é uma aula de cinema.

Os Imperdoáveis, de Clint Eastwood
Eu sou fã de westerns. Tanto O Caminho das Nuvens quanto (e especialmente) Corações Sujos têm um quê do gênero. No filme do Clint o western é destrinchado, desmistificado e, ao mesmo tempo, resumido. O seu jeito noir, desesperançado, e seu olhar sem glamour sobre a violência são inesperados, ainda mais naquele cenário frio, quase de anti-western. Muito do que eu gosto em outros westerns, nos do John Ford e especialmente nos do Sergio Leone, estão ali. Citar este filme me dá a chance de fazer uma lista sem uns cinco westerns.

Gaviões e Passarinhos, de Pier Paolo Pasolini
A alegria anárquica e amarga deste filme ficava comigo horas depois de eu tê-lo visto. Não o revejo há anos, não sei se teria a mesma força hoje. Mas o que resta dele comigo é poderoso, meio dionisíaco. Gosto de Pasolini, também, por ele ser praticamente imune à cinefilia barata dos chatos decoradores de nomes e planos do cinema americano dos anos 40. Gosto deste filme pelo que ele representou na minha formação poética. O corvo-intelectual assado no fim diz tudo.

Os Bons Companheiros (Goodfellas), de Martin Scorsese
Para mim, o melhor filme de gangster de todos os tempos. Cínico, divertido, violento e com personagens e situações perturbadoramente tangíveis, ao contrário do que vemos normalmente neste tipo de filme. Além de tudo ele é filmado e montado de forma crua e arriscada.

O Encouraçado Potemkin, de Sergei Eisenstein
É tão óbvio listar este filme que dá vontade de deixá-lo de fora. Mas não posso, sendo esta uma lista de filmes que me marcaram. Vi pela primeira vez aos dez anos de idade, em super-8 (tínhamos este e mais uma penca de clássicos em casa, divididos naqueles indefectíveis rolos de 10 minutos) e muitas mais de lá para cá. O filme pra mim tem impacto estético e emocional (“irmãos!”) permanente.

Dr. Fantástico (Dr. Strangelove), de Stanley Kubrick
Kubrick não poderia ficar fora da minha lista. Para não colocar dois ou três, escolhi este, pois é, além de impecável esteticamente, muito engraçado. Peter Sellers genial na melhor sátira política que há, para mim.

A Vida de Brian, de Terry Jones
Nunca ri tanto no cinema na minha vida. E depois em VHS, e depois em DVD, e cada vez que vejo um trecho quando estou entediado ou sem inspiração no Youtube. Eu pensei em colocar uma comédia do Billy Wilder na lista, mas sendo a escolha emocional, não seria honesto. Ri muito com Billy Wilder, mas muito mais com Monty Python.

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A fotógrafa

A fotógrafa Maria Eduarda Tavares (à esquerda) clicou a abertura e os encontros da II Mostra Faróis do Cinema. Os posts recentes já traziam fotos de sua lavra. Aqui vai mais uma pequena seleção de momentos eternizados por ela na Caixa Cultural-RJ.

Boas Festas para todos os amigos dos Faróis. Eles voltam a ser publicados em março de 2012.

Foto: Maria Eduarda Tavares

Neville D'Almeida e Rosane Svartman

Foto: Maria Eduarda Tavares

Luiz Carlos Lacerda e Emmanuel Cavalcanti

Foto: Maria Eduarda Tavares Coquetel de abertura
Foto: Maria Eduarda Tavares Carlos Alberto Mattos, José Joffily, Carlo Mossy e Olga Pereira Costa

Foto: Maria Eduarda Tavares Ricardo Miranda

Foto: Maria Eduarda Tavares
Octavio Bezerra e Marcelo Laffitte

Foto: Maria Eduarda Tavares

Patricia Rebello

Foto: Maria Eduarda Tavares Malu De Martino

Foto: Maria Eduarda Tavares Carlos Diegues e Carlos Alberto Mattos

Foto: Maria Eduarda TavaresPaula Alves, Betina Pons, Marcelo Lffitte, Mariana Bezerra e Carlos Alberto Mattos na noite de abertura

Foto: Maria Eduarda TavaresOctavio Bezerra, Zezé Motta, Mariana Bezerra, Carlos Alberto Mattos e Betina Pons

Foto: Maria Eduarda TavaresVinicius Reis, Carlos Alberto Mattos, José Joffily e o técnico Rildo

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Do cinema como exercício de liberdade

Foto: Maria Eduarda Tavares

O desejo de liberdade que leva à transgressão, a descoberta do que é ser livre por estar à margem. Foram estes os sentimentos dominantes na mesa do último encontro da segunda edição da Mostra Faróis do Cinema, que reuniu os cineastas Neville D’Almeida e Marcelo Laffitte. “Talvez eu seja um pouco marginal como os meus personagens”, disse Laffitte, “talvez seja uma forma que eu encontrei de falar de mim mesmo”. Nascido e criado em Volta Redonda, filho de mãe separada (“em meados dos anos 1960, eu não era o Marcelo, era o filho da desquitada”), ele disse se identificar com os personagens de seus filmes, que saem de suas origens em busca dos sonhos. “Eu também sou de uma cidade pequena, do interior, que veio para o Rio de Janeiro para estudar, para ser alguém”. Valores que ele identifica em Bete Balanço, filme que foi sua porta de entrada na carreira do cinema – foi assistente da produtora Tizuka Yamazaki. “É um filme que está na minha cabeça, e que retorna em diversos momentos, surgindo no meio dos meus próprios filmes”, comentou.

Foto: Maria Eduarda TavaresJá Neville D’Almeida carrega na fala a experiência da censura, da incompreensão, da dificuldade em exercer o pensamento durante o período de ditadura no Brasil, os anos 1970. “Eu fazia filmes em um momento onde não se podia fazer nada, onde diversos realizadores abriram mão da liberdade de expressão para viabilizar suas produções. Eu não”. Talvez por isso a experiência de realizar Mangue Bangue em 1971 seja tão marcante – é um caso raro de realizador apontando um filme de sua própria autoria como farol. “Eu tive que ir editar esse filme em Londres, aqui não seria possível”. O filme fala ao coração do diretor porque faz parte de sua própria transformação como cineasta: “eu o incluí entre os meus faróis porque a experiência de realizá-lo, e mesmo participar em algumas cenas, teve um impacto muito grande, mexeu comigo. A liberdade utilizada para fazer esse filme foi muito importante. Tudo mudou, a forma de filmar, de dirigir atores, passei a exigir muito mais de tudo e de todos, e de mim, especialmente”.

As listas dos dois diretores revelam, a um primeiro olhar, duas construções bastante heterogêneas entre si. Como apontou o moderador Carlos Alberto Mattos, se a lista de Neville é composta por filmes que primam pela transgressão não apenas estética mas temática, a de Marcelo parece ser mais “comportada”. Entretanto, a diferença desaparece à luz dos discursos que as defendem. “Talvez a minha lista seja mesmo comportada”, disse Laffitte, “mas eu fui criado em uma sociedade muito comportada. Cresci em Volta Redonda, e não tinha acesso aos filmes do circuito de arte carioca”. E completa: “quando eu comecei a fazer esta lista, pensei nos filmes que realmente mudaram o curso da minha vida no momento em que os assisti”. O que explica a presença de Tom & Jerry, Meu Pé de Laranja Lima e Minha Namorada na lista de faróis. “Eu fiquei responsável por organizar o cineclube durante uma semana de atividades artísticas e precisava de um longa em 16mm. Fizemos uma vaquinha e eu entrei em contato com a Embrafilme. Minha Namorada era o único filme que a gente teve dinheiro pra alugar”, recorda, rindo.

Já a lista de Neville, um tanto mais sóbria em comparação com a de Marcelo, é carregada de nobres títulos da história do cinema que se singularizaram por rupturas e abalos sísmicos na forma de contar uma história. “Sempre achei que o cinema é uma arte livre, e esses filmes são livres, transgressores. A liberdade que eles encenam, a capacidade de expressar o sentimento, é emocionante. O cinema é muito moralista, mas estes filmes me conquistaram porque se recusam a se enquadrar naquilo que todo mundo espera. Rompem com modelos e saem radicalmente das regras”, disse. Para Neville, Sangue Mineiro, de 1929, já antecipava as temáticas afetivas e sociais que as novelas hoje colocam no ar; Orfeu é o casamento entre cinema e poesia. “Em Ivan, o Terrível, Eisenstein consegue o fenômeno de ir de um plano geral com 100 mil figurantes para um close no olhar do protagonista. Fico arrepiado, me emociono só de lembrar”, comentou ele, comovido. “São filmes de um impacto total. Vejo o cinema com muito amor, muita intensidade, observo plano a plano para entender a lógica do diretor.”

Foto: Maria Eduarda TavaresFoi também na observação do cinema como produção de subjetividade que os campos do documentário e da ficção se cruzaram no cinema de Marcelo Laffitte. “Quero colocar no filme o mundo que eu vejo”, disse ele, “e isso é muito subjetivo porque combina o que a gente vê com aquilo que a gente sonha, que quer ver. Parte dessa frase pode ser confirmada em Um Dia, um Circo, realizado por Laffitte em 2007. “Uma ficção não deixa de ser um documentário sobre a sociedade em que a gente vive. Quando faço um documentário, sinto como se estivesse fazendo uma ficção, já que todos sempre se transformam em personagem diante de uma câmera”. Algo que ficou transparente a seus olhos quando assistiu a Conterrâneos Velhos de Guerra, de Vladimir Carvalho (um de seus faróis). “Quando vi aquelas pessoas contando versões diferentes de uma mesma história, compreendi imediatamente como iria fazer meu curta de ficção Vox Populi“.

Neville D’Almeida recorda-se do impacto de seu dia número 1 no cinema, ainda menino. “Meu tio tinha uma bombonière na frente de um cinema em Barra Mansa”, disse, “e certo dia eu perguntei para ele o que era o cinema. Ele me mandou entrar e ver. Me lembro de puxar a cortina de veludo à entrada da sala de projeção e dar de cara, impressa em uma parede descascada, com a imagem de Rita Hayworth em Gilda. Me apaixonei por aquela mulher, por aquela imagem de mulher e descobri que era isso que eu queria fazer”. A experiência desembocou numa frutífera relação com o campo das artes. De um improvável casamento entre Gilda e Hélio Oiticica, surgiu uma vertente de pura potência na obra de Neville, o cruzamento com as artes contemporâneas. “Conheci o Hélio durante uma projeção do meu filme Jardim de Guerra, que nunca foi exibido comercialmente e que me fez perder tudo, do apartamento às calças, para terminá-lo”. Oiticica comentou com Neville ter ficado encantado com a maneira como ele utilizou o suporte dos slides dentro do filme. “Eu nem tinha me dado conta até ele falar, mas depois comecei a pensar e descobri que o filme em slide conseguia reunir fotonovela, fotografia, revista em quadrinhos e desenho animado. Era o começo de uma nova linguagem. Ao lado de Oiticica, Neville D’Almeida realizou alguns dos mais importantes trabalhos da arte contemporânea, como as Cosmococas . Um encontro de titãs, de dois grandes faróis da cultura brasileira.

Foto: Maria Eduarda Tavares

Mariana Bezerra, Neville D'Almeida, Marcelo Laffitte, Patricia Rebello e Carlos Alberto Mattos

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Neville e Laffitte no papo de hoje

Neville D’Almeida e Marcelo Laffitte fazem hoje (sábado) o quarto e último encontro da II Mostra Faróis do Cinema. Eis a programação do dia, na Caixa Cultural RJ:

Sala 1
16h00 – BETE BALANÇO
18h00 – Encontro com NEVILLE D’ALMEIDA & MARCELO LAFFITTE
20h00 – A DAMA DO LOTAÇÃO
Sala 2
16h00 – UN CHANT D’AMOUR + A IDADE DE OURO
20h00 – ELVIS E MADONA

Vale recordar o que disse Neville sobre Un Chant d’Amour, de Jean Genet, e A Idade do Ouro, de Buñuel, dois de seus filmes-faróis incluídos na mostra:

“Genet, que não era cineasta, foi capaz de fazer um dos filmes mais mitológicos da história do cinema. A coragem, a liberdade, a sensibilidade deste filme feito em 1950 tiveram um impacto brutal. Foi interditado, proibido e ameaçado de ter os negativos queimados. Genial.”

A Idade do Ouro é um filme que abre o espírito e a mente para as possibilidades que a criação e a invenção podem proporcionar. É a relação e a simbiose entre a arte, neste caso, com Salvador Dalí, e o cinema de Buñuel. O Surrealismo, a liberdade, a iconoclastia e a crítica social são os traços mais fortes deste que foi o segundo filme sonoro do cineasta.

Marcelo Laffitte assim se referiu a Bete Balanço, de Lael Rodrigues:

“Era 1982 e eu cursava Economia na UERJ. Quase por acaso, virei assistente de produção de Tizuka Yamazaki no primeiro longa-metragem do saudoso Lael Rodrigues. O filme custou cerca de 100 mil dólares, tinha uma equipe composta de menos de 20 pessoas e fez milhões de espectadores. Antes de rodar qualquer trabalho, de institucionais ao longa, sempre pensei: ‘Como seria no Bete Balanço?’”

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Curto-circuito de literatura-cinema-arte

por Patricia Rebello

Foto: Maria Eduarda Tavares

Ele acha que roteiro é uma peça de literatura, no sentido de que informa o desenvolvimento de uma história. Ela acha que roteiro não tem nada de literário, e que é a descrição dos enquadramentos do filme, o quinhão de literatura que se transforma em imagem. Ele veio da literatura. Ela do vídeo. Ele chegou no cinema através das sessões de desenho animado do Tom & Jerry no Metro Copacabana. Ela não gosta de desenhos animados, e entrou na tela grande pela porta dos museus de arte. E talvez porque a beleza no cinema esteja na promoção de encontros entre heterogeneidades e diferenças, Luiz Carlos Lacerda, o “Bigode”, e Malu De Martino são grandes amigos. E foi justamente a cumplicidade nas diferenças que deu o tom do terceiro encontro da II Mostra Faróis do Cinema, onde o curto-circuito entre cinema, literatura e arte, o cinema americano e, claro, filmes que “dão tesão de fazer cinema”, foram discutidos com muito bom-humor.

Mas não são apenas as diferenças que unem os dois realizadores. Logo de saída, o mediador Carlos Alberto Mattos lançou uma provocação à mesa: “Será que, de uma maneira inversamente proporcional ao espaço ocupado no mundo inteiro, o cinema americano não influencia tanto assim o cinema brasileiro?”. Malu e Bigode concordaram que existe, sim, uma influência do cinema americano por aqui. Mas de um certo cinema. “Cinema independente americano é independente como em qualquer lugar do mundo. Acho que o cinema deles tem a ver com o trabalho da gente”, disse Malu. Já Bigode comentou sobre o impacto da descoberta dos filmes de Orson Welles e Andy Warhol. “E de Billy Wilder, que fazia filmes de estúdio sem deixar a coisa ficar apenas na indústria”, disse ele, lembrando de Quanto Mais Quente Melhor (“foi um filme precursor ao colocar a questão da sexualidade de uma forma amoral”, disse). Vale dizer que um dos filmes-faróis de Malu De Martino é uma das pérolas da cinematografia wilderiana, Crepúsculo dos Deuses. “A primeira cena do filme”, disse ela, “que mostra o cadáver na piscina gera um tremendo impacto quando você descobre que é o cadáver que vai narrar a história. Isso é cinema”, conta. Vale também lembrar que For All, o filme de Bigode que está em cartaz na Mostra, gira em torno da presença de americanos em uma base militar em Natal (RN) durante a II Guerra Mundial, e todas as (novas) relações morais e amorais que se estabelecem a partir do contato. “Me interessa a transgressão”, disse Bigode.

Foto: Maria Eduarda TavaresFilho de João Tinoco de Freitas, importante produtor e financiador de filmes nos anos 1950, seria natural pensar que o cinema era uma carta marcada no destino de Bigode. Mas não. “Eu achava um saco ficar nos bastidores. Nunca pensei em fazer cinema. Meu primeiro contato foi durante a filmagem de Balança Mas Não Cai, baseado em um programa de rádio. Um dia eu fui ao estúdio e me botaram em uma fila para ganhar presente do Primo Rico (Paulo Gracindo). A gente pegava o saquinho e saía de cena. Quando eu abri o “presente”, descobri que tinha só serragem. Pensei: o cinema é isso então, mentiroso e pobre“. Com o bom-humor que lhe é peculiar, Bigode continuou: “Eu escutava o povo lá de casa falar de uma das produções de papai, Rio 40 Graus, e achava que era coisa de previsão do tempo, não entendia nada”. A luz do projetor só foi acender para ele no dia que, acompanhado do pai, foi assistir a Ladrões de Bicicleta, um de seus faróis. “Eu escutava todo mundo falar sobre esse filme nas reuniões de papai com o grupo que, mais tarde, iria formar o Cinema Novo. Um cinema político, que falasse da realidade social. Nessa época, o cinema que eu conhecia era entretenimento. Quando vi Ladrões de Bicicleta, percebi que o cinema também serve para contar histórias pequenas, humanas, a partir de uma realidade terrível. Foi um impacto enorme compreender que podia fazer algo mais que contar histórias, sem precisar, necessariamente, servir a uma causa”. Uma explicação semelhante justifica a presença da animação Sinfonia Amazônica na sua lista de faróis. “Acostumado que estava com os desenhos de Tom & Jerry, me surpreendi ao ver curumins, araras e papagaios falando português, elementos do folclore brasileiro, na tela. O cinema tornava isso possível.”

Foto: Maria Eduarda TavaresJá Malu faz parte de uma geração que abriu caminho a golpes de foice durante a década de 1980, quando o hiato entre o cinema nacional e o grande público foi estendido ao extremo. Ela começou na fotografia, em São Paulo, lapidada nos trabalhos com fotógrafos de peso, como Vânia Toledo, Paulo Rocha e Alberto Travassos. “Foi assim até o Marcelo Machado, um dos fundadores da produtora independente Olhar Eletrônico, me convencer a ir para Nova York estudar vídeo”. O curso de seis meses se estendeu por um período de dois anos. De volta ao Brasil, Malu desembarcou na nova cultura do vídeo que começava a proliferar. Fez videoclipes, vídeos de arte sobre instalações e exposições. Foi desse circuito entre arte e vídeo que surgiu sua primeira produção para o cinema, Ismael & Adalgisa, uma mistura de documentário e ficção sobre o triângulo afetivo-intelectual entre Ismael e Adalgisa Nery e Murilo Mendes. “Tenho muito interesse no cinema como representação plástica, e o cinema expressionista alemão é a síntese dessa ideia”, disse ela ao comentar um de seus faróis, O Gabinete do Dr. Caligari.

A relação entre cinema e literatura também tem forte apelo nos dois diretores. “Sou um leitor compulsivo”, disse Bigode, acrescentando que a mistura entre escrita e imagem, a ênfase no discurso, foram os elementos que o aproximaram de realizadores como Jean-Luc Godard (Pierrot le Fou é um de seus faróis). “Me sinto atraído pela maneira como o Godard desrespeita regras estabelecidas, os cânones sagrados”. Esse gosto pela transgressão também se estende na relação entre literatura e cinema. “A realidade é tão mais cinematográfica que não é possível permanecer prisioneiro da realidade dos livros. Mas as pessoas são caretas, gostam de uma camisa de força”, comentou. “É preciso fazer o cinema abrir as portas para a realidade, para daí então ele se transformar em outra coisa”. Foi exatamente o que impressionou Malu ao cotejar a leitura de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, ao filme de mesmo título adaptado para o cinema por Nelson Pereira dos Santos. “Quando você lê um livro, você está fazendo suas próprias imagens, projetando seus sentimentos, fazendo seu filminho pessoal. Da primeira vez que vi Vidas Secas fiquei encantada em como era possível transformar aquele filminho que era só meu em algo que podia alcançar muito mais gente.

Patricia Rebello

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Malu e Bigode na mesa dos Faróis

Hoje (quinta) é dia de conversar com Malu De Martino e Luiz Carlos Lacerda, o Bigode, em mais um encontro da II Mostra Faróis do Cinema, às 18 horas na Caixa Cultural RJ. Com mediação do crítico Carlos Alberto Mattos, eles certamente vão falar de temas que lhes são caros, como diversidade sexual e relações entre cinema, artes plásticas e literatura.

Sobre Pierrot le Fou, de Jean-Luc Godard, seu filme-farol exibido na mostra, Bigode assim se expressou:

“Essa versão de Une Saison en Enfer, de Rimbaud, me arrebatou. Não sei se pelo anarquismo de seu discurso cinematográfico, pelo descumprimento das regrinhas de continuidade, de edição, da quebra de uma hierarquia convencional de decupagem, ou pela imediata identificação com a poesia do jovem Rimbaud – meu poeta preferido.”

Já Malu comentou dessa forma o thriller Amor Bandido, de Bruno Barreto:

“Gosto do filme principalmente pela maneira de mostrar Copacabana. Me impactou  muito a atuação do Paulo Gracindo. Acho um filme “sujo” no bom sentido, e o casamento dessa estética com o submundo me pareceu muito adequada.”

A programação do dia é a seguinte:

(sala 1)
16h00 – PIERROT LE FOU
18h00 – Encontro com LUIZ CARLOS LACERDA & MALU DE MARTINO
20h00 – FOR ALL – O TRAMPOLIM DA VITÓRIA
(sala 2)
16h00 – AMOR BANDIDO
20h00 – COMO ESQUECER

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Mostra entra em sua segunda semana

A II Mostra Faróis do Cinema está entrando em sua segunda semana na Caixa Cultural RJ. O programa de hoje (terça) é um pequeno festival de curtas e médias dos realizadores farolados nesta edição. Veja a seguir:

(sala 1)
16h00 – Ismael & Adalgisa + Sexualidades (de Malu DeMartino)
18h00 – Anjos Urbanos + Crepúsculo Republicanos + Cabeça de Copacabana (de Rosane Svartman)
20h00 – Vox Populi + Banquete + Ópera Curta + Fúria (de Marcelo Laffitte)

(sala 2)
16h00 – Um Dia, Um Circo (de Marcelo Laffitte)
18h00 – Copa Mixta + Alô Tetéia (José Joffily) + Gentileza (Vinícius Reis)
20h00 – Vida Vertiginosa + Dor Secreta + O Acendedor de Lampiões + O Sereno Desespero (de Luiz Carlos Lacerda)

Foto: Maria Eduarda Tavares

Carlos Alberto Mattos, Neville D'Almeida, Rosane Svartman, Cacá Diegues e Marcelo Laffitte

A primeira semana teve uma abertura animada com Xica da Silva e duas excelentes conversas sobre cinefilia, memória e criação cinematográfica. Uma delas reuniu Cacá Diegues e Rosane Svartman; a outra, José Joffily e Vinícius Reis. Nesta semana, mais quatro cineastas vão estar presentes para trocar ideias sobre suas admirações, influências e seu próprio trabalho. Sempre às 18 horas, na quinta-feira teremos Luiz Carlos Lacerda (For All – O Trampolim da Vitória) e Malu DeMartino (Como Esquecer); e no sábado, Neville D’Almeida (A Dama do Lotação) e Marcelo Laffitte (Elvis e Madona).

Acompanhe a programação e veja as sinopses dos filmes no menu acima (Mostra 2011). Leia também as coberturas de cada encontro pela crítica e pesquisadora Patricia Rebello. A mostra vai até domingo. Os ingressos custam 2 reais, com meia entrada a 1 real. Os encontros têm entrada franca.

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As primeiras vezes

por Patricia Rebello

Foto: Maria Eduarda Tavares

Ricardo Miranda, da plateia, conversa com Vincius Reis, Carlos Alberto Mattos e José Joffily

A primeira vez a gente nunca esquece. Até porque a vida oferece várias “primeiras vezes”. E as melhores são sempre aquelas que surgem em brechas especiais no tempo, quando nos é permitido revisitar sentimentos, pessoas, cenas, músicas, filmes, e aparece a oportunidade de renovar a experiência. Walter Benjamin, o filósofo alemão que tinha o dom de enxergar essas brechas (na maioria das vezes, são elas que nos enxergam), escreveu que a origem, apesar de ser uma categoria totalmente histórica, não tem nada a ver com gênese. Origem, escreveu Benjamin, é algo que emerge do presente e da sua própria extinção. Origem como um ponto de quebra, onde não se sabe bem onde está o fim e o começo. Apenas se sabe que não é mais possível viver como antes.

O segundo encontro da Mostra Faróis do Cinema edição 2011 foi atravessado por esse sentimento, e apontou para uma das qualidades mais sublimes do cinema: a de viajante do tempo. Não apenas por iluminar que todo começo é sempre uma espécie de recomeço. Não apenas por promover o diálogo entre dois diretores de diferentes gerações, José Joffily e Vinícius Reis. Mas por apontar que, mais que contar histórias, cinema é sempre uma experiência de reencontro com imagens, sons e diálogos. “A maior vantagem que encontrei em envelhecer é o prazer de reencontrar obras e artistas ao longo da vida, e descobrir neles um encanto diferente. Ver e rever filmes é algo que faz parte da minha experiência de cinema”, disse José Joffily. Já Vinícius Reis atribui aos primeiros encontros com as obras os momentos iluminados de descoberta da vitalidade e do poder do cinema. Referindo-se a um de seus filmes-faróis, ele disse: “A Chinesa não é nem O filme do Godard, mas, no desejo de fazer parte daquele mundo, foi um filme que me mostrou que era possível fazer cinema. Mais que a história ou tema, era a potência do cinema que aparecia aos meus olhos”. Um sentimento que ele tornou a experimentar quando assistiu a Santo Forte, de Eduardo Coutinho. “Foi um filme que me fez rever Godard com olhos mais espertos”, comentou. Assim como Godard, disse Vinicius, Coutinho compreende perfeitamente o valor do som no cinema, o calibre dos ruídos, dos sons do mundo que invadem o filme. A mesma razão pela qual se sentiu atraído por O Pântano, de Lucrécia Martel.

Carlos Alberto Mattos, mediador do encontro, comentou que as listas de filmes-faróis enviados por Joffily e Reis se destacavam por expor a relação visceral dos diretores com o cinema. “Não é simplesmente uma lista de ‘filmes que eu gosto’, mas filmes que, em determinado momento, tocaram e modificaram a carreira”, comentou Mattos. “Alguns filmes a gente vê e revê, e vai redescobrindo”, disse Joffily. Foi o que aconteceu com Vidas Secas, romance de Graciliano Ramos adaptado para as tela por Nelson Pereira dos Santos, um dos faróis de Joffily. Ao longo dos anos, o diretor de Olhos Azuis (2009) alternou visitas ao livro e ao filme repetidas vezes, o que permitiu descobrir que a perfeição de cada um deles estava nos encontros e desencontros entre cinema e literatura. “Entendi que os dois eram muito bons e definitivos, cada um no seu suporte. Entendi também que não são os filmes que mudam, eles continuam os mesmos. A gente, e o mundo, é que muda. Por isso voltar aos filmes e às emoções é fundamental”.

Vinícius Reis viu E.T. – O extraterrestre, de Steven Spielberg, inúmeras vezes no Cine América, na Tijuca. “Descobri, com 11 anos, a força de ver um filme numa sala escura”. Bateu forte no diretor a cena, hoje clássica, das bicicletas voadoras. “Peguei carona numa daquelas bicicletas e estou voando até hoje!”, escreveu ele na lista de seus filmes-faróis. Talvez por isso em alguns momentos era possível duvidar se quem falava à mesa era o diretor de Praça Saens Peña (2009) ou o adolescente de espinhas no rosto e aparelho nos dentes que descobriu a força da juventude no cinema ao assistir A Idade da Terra, de Glauber Rocha. “O filme agiu como uma bomba de liberdade e expressão”, relembra. Mas a bomba só foi explodir mesmo quando ele descobriu os textos de Glauber – e juntamente com eles, se descobriu “colonizado” pelo cinema clássico americano. “Daí então, fui em busca de ferramentas para me ‘descolonizar’. Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade, foi o primeiro passo. Foi também o que me levou aos modernistas, aos romances, a Mário e Oswald de Andrade. Um processo pessoal de descolonização que ainda está inacabado…”, sorriu.

Foto: Maria Eduarda Tavares Em determinada altura, o mediador comentou uma característica de certas listas de filmes-faróis: as obras citadas podem ser bastante diferentes dos filmes que teriam sido iluminados, ou inspirados, por elas. “Será que cineasta e cinéfilo conseguem se misturar, será que as condições de fazer cinema permitem? Qual a distância entre cineasta e cinéfilo?”, lançou ele. Para José Joffily, mais que a questão estilística, são os temas que importam. “O tema da morte, hoje, me interessa muito mais que há 20 anos”, disse ele, que relacionou entre seus faróis Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman, “porque sempre me espantou alguém saber tanto da velhice tendo apenas 42 anos”. É também o interesse pelo tema das vocações que está por trás de seus documentários sobre o assunto. “A relação de autoria, aquilo que está por trás dos motivos para querer fazer um filme, seguir uma carreira, são questões que atravessam quem faz cinema, escreve livros e pinta quadros. Assim como também com a música, a política e a religião”.  Ao que acrescentou Vinícius Reis: “Não é uma ligação direta, mas algo como uma ligação subterrânea, uma inspiração. São Bernardo foi importante porque me comoveram a beleza da voz em off, a narração em primeira pessoa, aberta, cheia de reticências, os planos-sequência onde pela primeira vez tive a sensação de testemunhar o cinema se construindo na minha frente. Eu pensei que precisava fazer cinema para poder fazer coisas como aquelas”.

A tensão entre documentário e ficção também esteve presente numa mesa com dois diretores que transitam confortavelmente entre as duas formas de fazer cinema. “Por que o documentário espelha a verdade? O que o torna diferente de uma reportagem? Como ele manipula o real? Essa foi uma questão que era importante e que fazia sentido discutir à época”, disse Joffily, falando sobre Até a Última Gota, filme feito em grupo (no qual o próprio Joffily participou) em 1980 e que mistura documentário e ficção. “Tinha aquela coisa de ser jovem, ninguém tinha reunião nem agenda, o filme era feito em encontros e discussões”. Por isso, disse, Aruanda é um de seus faróis, “porque indicava um norte a ser seguido pelo cinema de vanguarda que queria representar o Brasil nas telas”.

Sair da imagem-clichê que predomina no imaginário foi também aquilo que levou Vinícius a filmar a Praça Saens Peña, no bairro da Tijuca, no Rio. “O carioca levanta muros pela cidade. Eu queria falar de um Rio que ninguém conhecia e, justamente, deslocar o clichê para o lugar daquilo que não é novo e com o qual nós mesmos, que moramos aqui, estamos deslocados”. Ou seja, proporcionar uma “primeira vez” pra muita gente que achava que já conhecia tudo.

Patricia Rebello

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Dia de Joffily e Vinícius

Hoje (sábado) é dia de bater papo com José Joffily e Vinícius Reis em mais um encontro da II Mostra Faróis do Cinema. Eis a programação do dia:

(sala 1)
16h00 – COPACABANA ME ENGANA
18h00 – Encontro com JOSÉ JOFFILY & VINÍCIUS REIS
20h00 – URUBUS E PAPAGAIOS
(sala 2)
15h45 – SÃO BERNARDO
20h00 – PRAÇA SAENS PEÑA

Copacabana me Engana, de Antonio Carlos Fontoura, é um dos filmes-faróis de José Joffily. Ele assim o comentou aqui no blog: 

“Me vi muito no filme, nos dois irmãos, naquela turma desnorteada. E nada melhor que as cenas do Paulo Gracindo determinado a humilhar o personagem do Carlo Mossy. Com essa intenção, o filme narra o passeio no carrão conversível, o porre e a volta para a maravilhosa Odete Lara, quando Gracindo devolve o jovem e derrotado concorrente. E de quebra, o filme ainda tem o Armando Costa como corroteirista e ator, fazendo uma memorável ponta de arruaceiro disposto a avacalhar com uma reunião de sindicato (pelo que me lembro de pelegos). Assim é na minha memória.”

Por sua vez, Vinícius Reis apontou São Bernardo, de Leon Hirszman, como um de seus faróis. E justificou:

“A força dos planos-sequências, a narração em off, Othon Bastos e Isabel Ribeiro arrasando; as diversas vozes do Caetano Veloso numa das mais belas trilhas do cinema brasileiro. Um filme que me levou a querer fazer cinema. Vi na cinemateca do MAM, início dos anos 1990.”

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Um brasileiro mambembe e uma menina do rio

por Patricia Rebello

Foto: Maria Eduarda Tavares

“A gente nunca sabe direito onde nasce um filme. Às vezes é uma frase, um personagem, uma música ou uma pessoa; mas esse eu sei. Bye-Bye Brasil não existiria não fosse a experiência do Cinema Novo”, disse Cacá Diegues logo no começo do primeiro encontro da segunda edição da Mostra Faróis do Cinema. Além do diretor de A Grande Cidade (1966), Rosane Svartman, diretora de Como Ser Solteiro (1998), retrato emblemático de uma certa cultura jovem carioca da zona sul do Rio nos anos 1990, e o crítico de cinema Carlos Alberto Mattos completavam uma mesa onde experiências e memória abriram espaço para um papo sobre música, Fellini, VHS e, claro, muito cinema.

As trajetórias de Cacá e Rosane se cruzaram pela primeira vez quando ela, estagiária de um programa na extinta TVE, no Rio de Janeiro, foi escolhida para fazer uma entrevista com o já respeitado diretor. Além da entrevista, a futura diretora de Desenrola (2011) conseguiu deixar nas mãos de Cacá Diegues o roteiro de seu primeiro curta-metragem. Tempos depois, veio o convite para escrever o roteiro de um dos quatro episódios de Veja Essa Canção, histórias de amor inspiradas em canções da MPB. Surgiu assim Drão, a partir da canção de Gilberto Gil de mesmo nome, e uma participação no filme como assistente. “Essa generosidade que o Cacá teve comigo é uma coisa que eu procuro repetir com as pessoas que me procuram para ler roteiros, pedir uma chance ou um conselho”.

Ambos os diretores se igualam no entusiasmo pela renovação da linguagem do cinema brasileiro que vem despontando desde meados da década de 1990 em favelas e comunidades de periferia. Rosane Svartman é uma das fundadoras do núcleo de cinema do Nós do Morro, na favela do Vidigal, no Rio de Janeiro. Cacá Diegues segue firme e forte acompanhando os desdobramentos do grupo de 5 x Favela – Agora por Nós Mesmos, filme dividido em episódios, produzido pelo diretor e que buscava radicalizar a proposta do projeto original: se o primeiro 5 x Favela, de 1962, foi produto de um grupo de jovens cinéfilos engajados na produção de um novo olhar sobre o Brasil, a “continuação” remete à apreensão da câmera pelo objeto desse olhar,  “agora por nós mesmos”. Por tudo isso, Rosane não hesita em dizer que sua relação com o diretor é “visceral”, porque foi através dele que ela entrou no cinema.

Foto: Maria Eduarda Tavares

Neville D'Almeida aplaude na plateia do encontro

Tanto Cacá quanto Rosane montaram a lista de seus faróis divididos entre o afeto despertado pelos filmes e a cumplicidade de cada título com sua própria obra. O escritor argentino Alan Pauls escreveu certa vez que “fazer listas é colocar ordem nos desejos”. Uma lista é tanto uma expressão legítima, como um desejo de se montar enquanto personagem de sua própria história. Talvez isso explique a convivência, ou crie a possibilidade, de Rio 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos, e La Strada, de Federico Fellini, em uma mesma lista. “A gente gostava de Fellini escondido”, comentou Cacá, bem humorado. Em seus filmes, Fellini só queria entender melhor o ser humano, continuou o diretor de Bye-Bye Brasil. Já a turma do Cinema Novo, da qual o próprio Cacá fez parte, queria “apenas” mudar o mundo com “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. “Fellini era mais modesto que o Cinema Novo”, disse com um sorriso de quem já aprendeu que o cinema apaixona pelo mundo que abre, mas conquista nos personagens que ficam.

Bem diferente dessa turma-que-queria-mudar-o-mundo, Rosane Svartman brotou de uma geração que, no máximo, queria com o cinema mudar a sua própria vida, “e olhe lá”. Foi uma galera que se formou no começo dos anos 1990, quando quase não se produzia no Brasil, e que demorou a conseguir fazer seu primeiro filme. Justamente por isso, disse ela, se acostumou a fazer de tudo um pouco: televisão, vídeo, publicidade, teatro. “Sou de uma geração que não viveu a eletricidade dos cineclubes, e que ficou ali meio perdida entre o VHS e o DVD”, comentou. As aulas de cinema brasileiro às terças-feiras de manhã no Cine Arte UFF foram a porta de entrada para filmes aos quais ela jamais teria acesso nos circuitos regulares. Foi, inclusive, onde ela assistiu pela primeira vez Bye-Bye Brasil, de Cacá Diegues, um dos faróis de sua carreira.

“Lembro exatamente do dia em que entrei com carteirinha falsificada no Cine Joia pra ver Menino do Rio (de Antônio Calmon)”, disse Rosane. “Foi a primeira vez que eu tive a sensação de que aqueles personagens se relacionavam comigo, e que ali era um lugar onde eu queria estar”. Fazer um cinema com o qual as pessoas pudessem se relacionar, estabelecer um diálogo entre o espectador e a história que está sendo contada na tela, transformar uma sessão de cinema em uma experiência de vida, uma partilha de sensibilidades, se transformou em norte para essa diretora, cuja lista de faróis guarda espaço tanto para as lágrimas que ela chorou assistindo a Peter Pan, de P.J. Hogan, quanto para a euforia de descobrir que o cinema possibilita viver em outro mundo, em outras galáxias e universos paralelos. “Mas não saberia dizer a exata força desses filmes nos meus próprios filmes. Eles vão se somando, e alguns vão ficando na cabeça”, concluiu.

“Eu não tive um Menino do Rio em minha vida”, disse Cacá. “Não havia nenhuma referência no cinema brasileiro quando eu comecei a ver meus primeiros filmes. Era na literatura brasileira e no cinema americano que eu encontrava minha inspiração”. E se Fellini e Nelson Pereira dos Santos convivem em harmonia na lista que tenta esculpir a “formação inaugural” de Cacá Diegues, a vida e os filmes trataram de lapidar as arestas da obra, eliminando os excessos e preservando aquilo que modificou e construiu o diretor. Para mim, disse Cacá, La Strada justifica a existência do cinema, é aquilo que me faz chorar. Mas apesar de retomar a temática do “filme-estrada” em Bye-Bye Brasil, em 1979, ele encontra bem pouca ressonância entre seu projeto e o do diretor italiano. “Em Bye Bye Brasil o que se passa à margem é mais importante do que o que está no leito da estrada. Os personagens são veículos para se conhecer o que está acontecendo do lado de fora da história que está sendo contada”, disse, acrescentando que os dias de filmagem da Caravana Rolidei pelo norte do Brasil lhe ofereceram um dos momentos de maior prazer em sua vida de cineasta. Deixar-se invadir pelo mundo, deixar que a realidade arrombe as portas da ficção e se instale no filme. “Não parto de teorias”, disse Cacá, “mas daquilo que eu vejo e que me inspira”. Seguindo faróis.

Patricia Rebello

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Cacá e Rosane no bate-papo

Teremos hoje (quinta) o primeiro encontro da II Mostra Faróis do Cinema. Às 18 horas, na Caixa Cultural RJ, Cacá Diegues e Rosane Svartman vão conversar sobre seus filmes e seus faróis, mediados pelo crítico e pesquisador Carlos Alberto Mattos.

Vale lembrar o que Cacá escreveu a propósito de La Strada (A Estrada da Vida), de Fellini, seu filme-farol programado na mostra:

“Sei que seria mais ‘intelectual’ e talvez mais respeitável citar outros filmes de Fellini, como A Doce Vida, quem sabe Amarcord ou sobretudo Oito e Meio, o filme querido de todos os cineastas. Mas A Estrada da Vida é um dos filmes que mais vejo até hoje e que me faz chorar francamente a cada vez que o vejo. Caetano Veloso diz, a propósito desse filme, que Fellini consegue o raro feito de ser “ao mesmo tempo sentimental, popular e grande artista”, uma coisa que não acontece nunca. Ou quase nunca. Um filme circense, por suas piruetas plásticas, pelo sentimentalismo dos personagens e pela dramaturgia populista assumida com tanta profundidade e dignidade. Esse céu, de onde Zampanó espera que lhe chegue alguma coisa, é o mesmo que traz à cena o magnífico corvo de Uccelacci e Uccellini, de Pier Paolo Pasolini, e a neve de meu Bye Bye Brasil.”

E também o que Rosane Svartman comentou a respeito do seu filme-farol Bye Bye Brasil, de Cacá:

“É um filme que me fez pensar o Brasil, as transformações culturais pelas quais, aliás, ainda estamos passando, de uma forma lúdica. Para mim assistir Bye, Bye Brasil ainda é embarcar em uma viagem numa espécie de bolha fugidia, certamente nostálgica, do entretenimento artesanal.”

A programação de hoje é a seguinte:

(sala 1)
16h00 – LA STRADA
18h00 – Encontro com CARLOS DIEGUES & ROSANE SVARTMAN
20h00 – XICA DA SILVA
(sala 2)
16h00 – BYE BYE BRASIL
20h00 – COMO SER SOLTEIRO

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A luz de Xica

Foto: Maria Eduarda TavaresCacá Diegues não foi, mas enviou de Recife um cumprimento em vídeo aos presentes na abertura da II Mostra Faróis do Cinema, ontem à noite na Caixa Cultural RJ. Mas Zezé Motta estava lá para fazer as honras da casa – ou melhor, do filme. Xica da Silva brilhou mais uma vez em cópia restaurada e arrancou muitos risos da plateia. A química entre Zezé e Walmor Chagas continua a apimentar essa fábula histórico-antropológica sobre a escrava sedutora que enredou o controlador de diamantes enviado de Portugal e tornou-se ela mesma senhora de mandos e poderes na Diamantina do século XVIII. O filme, patrulhado na época por mesclar comédia erótica e drama histórico, é um dos mais comunicativos e também de questões mais complexas na carreira de Cacá.

Foto: Maria Eduarda TavaresTambém estiveram presentes à inauguração da mostra as diretoras Rosane Svartman (foto à direita), Malu De Martino – ambas “faroladas” nesta edição -, Beth Formaggini e Eunice Gutman, o diretor Octavio Bezerra e o ator Emanuel Cavalcanti, entre outros convidados e público.

Xica da Silva repete hoje (quarta), quando a programação começa pra valer:

(sala 1)
16h00 – Anjos Urbanos + Crepúsculo Republicanos + Cabeça de Copacabana (curtas de Rosane Svartman)
18h00 – COMO SER SOLTEIRO, de Rosane Svartman
20h00 – BYE BYE BRASIL, de Cacá Diegues
(sala 2)
16h00 – COPACABANA ME ENGANA, de Antonio Carlos Fontoura
18h00 – XICA DA SILVA, de Cacá Diegues
20h00 – LA STRADA, de Federico Fellini

E amanhã (quinta), às 18 horas, o primeiro encontro da mostra, com Cacá Diegues e Rosane Svartman, mediados por Carlos Alberto Mattos.

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Começa a II Mostra

Com a exibição da cópia restaurada do clássico Xica da Silva, de Cacá Diegues, a Caixa Cultural RJ abre hoje (terça) a segunda edição da Mostra Faróis do Cinema. Como no ano passado, realizadores brasileiros vão conversar sobre sua obra e sobre aqueles filmes-faróis que inspiraram sua visão particular do cinema.

Leia o texto de apresentação da mostra

O elenco deste ano reúne diferentes gerações de cineastas, a saber: Cacá Diegues, José Joffily, Luiz Carlos Lacerda, Malu De Martino, Marcelo Laffitte, Neville D’Almeida, Rosane Svartman e Vinicius Reis. De cada um deles será exibido um longa e alguns curtas-metragens. Do outro lado  do espectro, entre os citados por eles em suas listas, teremos filmes de Antonio Carlos da Fontoura, Bruno Barreto, Federico Fellini, Jean Genet, Jean-Luc Godard, Lael Rodrigues, Leon Hirszman e Luís Buñuel.

Confira a programação completa

Veja as sinopses dos filmes

A curadoria este ano é de Marcelo Laffitte, um dos idealizadores originais da mostra. Os encontros dos cineastas em duplas serão mediados pelo crítico Carlos Alberto Mattos, criador e editor dos Faróis. Os ingressos para as sessões custam 2 reais, com meia-entrada a 1 real. Os encontros têm entrada franca.

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Faróis: Marcelo Laffitte

Um dos idealizadores da Mostra Faróis do Cinema, juntamente com Mariana Bezerra, e curador desta segunda edição, Marcelo Laffitte define-se como “um realizador”. Não só de filmes, mas de eventos como este. Ou de uma exposição interativa como Fernando Pimenta em Cartaz, apresentada recentemente no Oi Futuro de Ipanema. Ou, ainda, da mostra Noites de Chanchada, que vai recordar o gênero popular por excelência na Caixa Cultural RJ em 2012.

Por conta desse apetite plural, Laffitte já presidiu a Associação Brasileira de Documentaristas e laboriosamente construiu sua carreira em diversas funções técnicas e de produção nos sets de cinema. Como diretor, tem alguns curtas e médias dignos de figurar em antologias, como o rashomoniano Vox Populi (1997) e o documentário Um Dia, um Circo (2006). Com Mariza Leão, co-dirigiu outro doc memorável, Regatão, o Shopping da Selva.

O primeiro longa de ficção, Elvis e Madona, testemunhou seu interesse por personagens de exceção, mas não marginais, e por um vínculo de comunicação com o público que seja direto, mas não vulgar. A história de amor entre a entregadora de pizza homossexual que sonha em ser fotógrafa e o travesti que almeja seu grande show participou de mais de 50 festivais em cerca de 30 países e conquistou mais de 20 prêmios. Existe um argumento para Elvis e Madona 2, mas a decisão de filmá-lo ainda não está consolidada. Entre as ideias que fervilham na cabeça de Laffitte está a história ficcional de Salomé, grande estrela pornô que volta a sua cidadezinha natal e enfrenta a rejeição dos mesmos conterrâneos que a consumiam em filmes e revistas.

A seguir, podemos traçar um perfil bem fiel de Marcelo Laffitte a partir de suas escolhas para a lista de filmes-faróis. Escolhas de alguém que, às vezes literalmente, pega o cinema com as mãos:

“Minha primeira vontade foi de criar uma lista com os filmes de que mais gosto. Contudo, além de serem muitos, um filme que me agrada não é necessariamente um farol para mim. Então, esta lista é dos 10 filmes que mais mudaram a minha vida.

Tom & Jerry
Foi quando entrei pela primeira vez numa sala de cinema e me tornei um frequentador assíduo. No principal cinema da minha cidade, Volta Redonda, havia a matinê Tom & Jerry todo domingo às 10 horas. As filas eram gigantescas, com 600, 700 crianças, e o privilégio de estar lá era um poderoso instrumento de chantagem psicológica para todos os pais (“se brigar com seu irmão, não vai ver Tom & Jerry”). Pensando hoje, além de ser aplicado e viciado no prazer coletivo da sala escura, vejo que também foi um excelente exercício de linguagem cinematográfica, visto que todas as animações curtas que formavam a sessão eram mudas, permitindo que nos sentíssemos todos muito inteligentes entendendo as expressões, intenções, elipses, flashbakcs, etc. Os filmes de Charles Chaplin, Harold Lloyd e Buster Keaton que vi na TV também tiveram a mesma importância.

Meu Pé de Laranja Lima, de Aurélio Teixeira
Foi a primeira vez que chorei por um filme. Ao final, entendi que o cinema não era só diversão; ele poderia também questionar as relações humanas e familiares que começavam a nos incomodar enquanto seres pensantes (“meu pai é bravo, minha mãe é chata”).

O Homem do Sputnik, de Carlos Manga
Não vi essa comédia no cinema. Vi na TV, nas sessões da tarde da Tupi, Excelsior ou Globo, onde as chanchadas brasileiras com Grande Otelo, Ankito & Cia. disputavam território com Jerry Lewis, John Wayne e Elvis Presley. Para grande parte da minha geração, essas sessões serviram como uma espécie de vacina contra a filmebrasileirofobia que assolou o país a partir dos anos 1980.

Tommy – O Filme, de Ken Russell
Assisti umas cinco vezes. Foi a minha iniciação nos papos-cabeça pós-filme e, principalmente, no universo do rock. A partir deste filme, comecei uma pequena coleção que contava com LPs de Led Zeppelin, Deep Purple, Pink Floyd e Rick Wakeman.

Minha Namorada, de Zelito Viana e Armando Costa
No final dos anos 1970, eu andava com a turma de artistas de Volta Redonda. Um dia, eles organizaram o evento Chamada Geral, que era uma semana de noites artísticas de todas as áreas. Alguém lembrou que faltava o cinema e eu, que não sabia tocar violão, não era poeta e nem sabia interpretar, me ofereci para cuidar da sessão de cineclube. Era preciso um filme longa-metragem em 16mm, e tive meu primeiro contato com a Embrafilme. Fiz uma vaquinha com os amigos e consegui alugar Minha Namorada. Não sei não, mas acho que a minha escolha de curador foi o que o nosso dinheiro poderia pagar, e com certeza, haveria cena de mulher pelada. Peguei um ônibus, vim ao Rio, paguei em dinheiro e trouxe as latas 16mm debaixo do braço. Depois da sessão, que foi um fracasso retumbante de público com quatro pessoas, achei que queria fazer filmes.

Curtas brasileiros
Depois de ver o filme do Zelito e do Armando, passei a ir ao cinema com bem mais frequência para assisitir aos curtas brasileiros que eram exibidos antes dos longas estrangeiros. Fiz meu primeiro Super 8, um documentário de oito minutos chamado Nervos de Aço, sobre trabalhadores metalúrgicos que moravam em favelas. O ano era 1979.

Bye Bye Brasil, de Carlos Diegues
Vi umas três vezes no cinema. Muitos de meus amigos também viram e tínhamos longos debates sobre o filme. E ainda tinha a canção de Chico Buarque, de quem eu era tiete declarado. Pensei: “Quando crescer, eu quero fazer um filme como esse”. Neste ano, fui estudar Sociologia na PUC do Rio.

Bete Balanço, de Lael Rodrigues
Era 1982 e eu cursava Economia na UERJ. Quase por acaso, virei assistente de produção de Tizuka Yamazaki no primeiro longa-metragem do saudoso Lael Rodrigues. O filme custou cerca de 100 mil dólares, tinha uma equipe composta de menos de 20 pessoas e fez milhões de espectadores. Antes de rodar qualquer trabalho, de institucionais ao longa, sempre pensei: “Como seria no Bete Balanço?”

Veludo Azul, de David Lynch
As situações extraordinárias e os personagens bizarros me foram apresentados por David Lynch como uma crônica da normalidade, como se o mundo fosse exatamente daquele jeito. Todos os meus trabalhos, desde Vox Populi até Elvis & Madona, têm esse ingrediente.

Conterrâneos Velhos de Guerra, de Vladimir Carvalho
Até ver esse filme, eu achava que documentário era tudo verdade. Mas os depoimentos contraditórios sobre a morte dos candangos me mostraram que documentários poderiam ser usados para brincar com a verdade. Na mesma noite em que vi o filme, escrevi o roteiro de Vox Populi.

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