
Carlos Alberto Mattos, Eduardo Coutinho, Vladimir Carvalho e Diego de Angeli. Foto: Conrado Krivochein
por Patricia Rebello
Seja durante a projeção de um filme, durante os encontros entre os realizadores, ou mesmo nos corredores, entre uma sessão e outra, a invenção de uma discussão criativa entre quem faz e quem inspira revela, na mostra Faróis do Cinema – Documentário Brasileiro, uma atualização na maneira de pensar o documentário. Ao trazer para a cena as fontes de inspiração, a formação do olhar e do estilo, se aponta para um diálogo fundamental entre tempos, cinematografias e modos de enxergar o mundo. Faróis não apenas iluminam, mas traçam um facho de luz que cobre e, ao mesmo tempo, percorre distâncias.
Mas, o que acontece quando os faróis, habituados a lançar sua luz sobre outros, se encontram? Quem esteve ontem na Caixa Cultural e presenciou o encontro histórico entre Eduardo Coutinho e Vladimir Carvalho teve a chance de vislumbrar uma resposta. Além de experimentar um dos momentos mais ricos não só da mostra, mas da história do documentário brasileiro. É provável que eles não concordem com o superlativo: mais que um encontro entre faróis, para Vladimir e Coutinho foi um encontro entre amigos cujas carreiras se cruzaram em momentos fundamentais, e que têm poucas chances de se encontrar para um bate-papo. Juntos, eles recordaram episódios antológicos do cinema brasileiro.
Vladimir e Coutinho se conheceram durante as filmagens do primeiro “Cabra”, em 1964 (o projeto de ficção do CPC, que está na origem do Cabra Marcado para Morrer, realizado 20 anos depois). Com a interrupção das filmagens pelo movimento militar, Vladimir Carvalho foi encarregado de levar Dona Elizabeth para o Recife. Lá, ela ficou escondida na casa de um primo de Vladimir. Quando não foi mais possível mantê-la, disfarçada em um vestido de chita confeccionado pela esposa de Vladimir (“a mulher a gente tem sempre que pedir a benção”, diz ele) e com os cabelos oxigenados e óculos escuros (“parecia até uma mulher alegre… ainda tenho vergonha disso”), Dona Elizabeth foi levada para o município de Vitória de Santo Antão.
De volta ao Rio, sem emprego, Vlad procurou por Coutinho, que o apresentou ao cineasta Arnaldo Jabor. Desse encontro, surgiu o convite de Jabor a Vladimir para trabalhar como assistente de direção em Opinião Pública (1967), documentário sobre os moradores de um prédio de classe média em Copacabana. De volta à Paraíba, alguns anos depois Vladimir surge com O País de São Saruê (1970), documentário sobre a exploração de vaqueiros e trabalhadores da região do Rio do Peixe, na Paraíba, mas que, segundo ele, é absolutamente atravessado pela experiência de filmar o “Cabra”: no meio daquela gente explorada, ele encontrava a mesma força e a mesma determinação que moveram as ligas camponesas na luta contra o domínio do governo.
Não por outra razão, Cabra Marcado para Morrer é um de seus faróis. Além do filme de Coutinho, Vladimir também apontou em O Homem de Aran, de Robert Flaherty, e Borinage, de Joris Ivens, alguns temas que o fascinam enquanto cineasta: a luta do homem contra os elementos, a maneira como o trabalho se transforma em um instrumento de combate, a utopia do socialismo materializada em imagens.
Já Eduardo Coutinho disse identificar em seus faróis aquilo que o fascina no documentário: o filme no presente, a magia de registrar o tempo enquanto ele acontece na frente da câmera e, fundamentalmente, da maneira como ele acontece; pescar na filigrana da imagem aquilo que surge, o inesperado, o irrepetível. A força da palavra, a força do aqui e agora, disse Coutinho, são a força do documentário, aquilo onde ele se desloca do mero registro das imagens. “Por isso eu detesto arquivo!”, disse. Cineasta de pontos de vista apaixonados e pensamento em erupção, ele voltou a essa questão do arquivo para pontuar que, se em documentário quase tudo é tão ficcional quanto nas próprias ficções, ele não vê sentido nos filmes que utilizam imagens de arquivo apenas como uma forma de criar lastro para uma ideia, enredá-las num real que, ele mesmo, não se sustenta por muito tempo. Da mesma maneira que critica o cinema underground pelo uso das imagens abstratas por elas mesmas, Coutinho disse se interessar apenas por filmes onde existe um diálogo com as possibilidades de narração.
Realizadores como Godard e Jonas Mekas, disse Coutinho, são singulares porque conseguem misturar imagens do presente e do passado e, neste gesto, atualizar tanto o conceito de arquivo quanto o de passado e de presente. De Claude Lanzmann (Shoah), exortou a potencialização das palavras e o fato de que o filme o fez sentir-se um herói ao cabo de uma exibição de nove horas.
Sobre uma possível edição em DVD de Cabra Marcado para Morrer, Coutinho anunciou o possível lançamento, até o ano que vem, através de uma ação da Cinemateca Brasileira. O negativo, muito deteriorado pela ação do tempo, está sendo restaurado e, em breve, talvez seja possível escutar maiores detalhes sobre essa que é uma das notícias mais aguardadas por cinéfilos de toda estirpe e cor. Mais: Coutinho falou que o entusiasma no projeto do DVD a possibilidade de revelar uma coleção de fotografias que Walter Carvalho realizou durante o processo de filmagem. Pretende também agregar um depoimento de Vladimir sobre o making of e a própria atualização dos personagens para o espectador: Dona Elizabeth, hoje com 85 anos, os poucos filhos que ainda restam vivos e os personagens que Coutinho encontrou na odisseia empreendida nos anos 1980, “se é que ainda tem alguém vivo”, disse ele.
De todos os seus fabulosos personagens, Dona Elizabeth é a única com quem Coutinho mantém contato. “Todo ano eu ligo para ela no dia de Natal”, contou ele. Assim, como Elizabeth, privilegiados foram os que ontem puderam escutar um pouco daquilo que constitui faróis inapagáveis do nosso cinema.