Um brinde!

Estamos chegando ao final da Mostra Faróis do Cinema – Documentário Brasileiro. Na sessão de encerramento, hoje (domingo) às 18h30, na Caixa Cultural, vamos reprisar os curtas da Sessão Novas Luzes. São eles Áurea, de Zeca Ferreira, Mãos de Outubro, de Vitor Souza Lima, Bailão, de Marcelo Caetano, e Haruo Ohara, de Rodrigo Grota.

Quem perdeu a sessão do Oi Futuro pode aproveitar a oportunidade para reabastecer suas baterias estéticas com esse belo programa. Dificilmente você verá de novo esses quatro extraordinários curtas juntos assim. Leia aqui sobre eles.

Após a sessão, será servido um coquetel. Você está convidado.  

Continue visitando o blog para os últimos posts relativos à Mostra e, depois, para o prosseguimento da série Faróis.

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Pontos de luz

No vídeo abaixo, os quatro diretores da Sessão Novas Luzes apontam seus filmes-faróis

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Uma dupla homogênea

Maurice Capovilla e Octávio Bezerra fazem hoje (sábado) o último encontro da Mostra Faróis, logo após a sessão de 18h30 do marcante Uma Avenida Chamada Brasil. Eles formam uma dupla homogênea em vários aspectos, incluindo a fidelidade a temas sociais fortes e um trânsito frequente entre o compromisso documental e a expressão ficcional.

Com sua experiência que vem dos tempos do Cinema Novo, da Caravana Farkas e de passagens pela televisão de várias épocas, além de ter sido crítico de cinema e ainda exercer o ofício de professor, Capovilla é sempre uma fonte de tranquila sabedoria. Bezerra, por seu turno, transmite uma constante inquietação perante o contexto da produção independente no Brasil e alguns temas prediletos como a cultura negra, a ecologia, a violência e a situação econômica do país.

Uma dinâmica particular se anuncia para esse encontro, em que ambos falarão de seus filmes-faróis, igualmente distribuídos entre documentários e ficções (consulte os Faróis de cada um no menu à direita). Estarão na mesa também o crítico Carlos Alberto Mattos, curador da mostra, e Miguel Coral, aluno de cinema da PUC-Rio. 

Os filmes exibidos hoje na Caixa Cultural preparam o clima para a conversa da noite:

15h30 – Sessão Joris Ivens: Ana (Alex Viany) + Nova Terra (Joris Ivens) e Borinage (Joris Ivens e Henri Storck)
16h – Vidas Secas (Nelson Pereira dos Santos)
18h – Bahia de Todos os Santos (Maurice Capovilla) + Os Homens Verdes da Noite (Maurice Capovilla)
18h30 – Uma Avenida Chamada Brasil (Octavio Bezerra) + encontro

Na sessão de Uma Avenida Chamada Brasil, Bezerra vai exibir um clipe-surpresa de 3 minutos, feito a partir de um célebre plano do seu filme A Dívida da Vida.

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Câmeras de andarilhos

por Patricia Rebello

Jorge Bodanzky e Eryk Rocha. Foto: Conrado Krivochein

Desde que foi inventado, no começo do século XX, o documentário teve um certo pendor para colocar o pé na estrada e descobrir o mundo através de um olhar muito particular. Foi assim com Robert Flaherty, em Nanook of the North (1922), e com Basil Wright, em Song of Ceylon (1935). Foi o que levou o escritório da Farm Security Administration, nos EUA, a enviar seus fotógrafos e cinegrafistas para registrar os efeitos da Grande Depressão pelo país afora na década de 1930. Foi também o que levou os irmãos Albert e David Maysles a seguir um grupo de vendedores de Bíblia em Salesman (1969). E foi, é claro, o que levou a Caravana Farkas na década de 1970 a esquadrinhar o nordeste brasileiro, João Moreira Salles a filmar América em 1989 e, mais recentemente, Walter Salles a mergulhar em um projeto de filmagem a partir do antológico livro de Jack Kerouac, On the Road.

Se uma das formas de pensar o documentário é a partir dos novos horizontes que ele é capaz de abrir, os road movies mimetizam essa ideia em sua própria linguagem. O quinto encontro da mostra Faróis do Cinema – Documentário Brasileiro foi marcado por esse espírito. Na mesa, Jorge Bodanzky (Iracema – Uma Transa Amazônica/1974) e Eryk Rocha (Pachamama/2005), dois realizadores que, de certa maneira, incorporaram a experiência da viagem como uma forma de pensar, viver e filmar o mundo.

Bodanzky viaja desde sempre e é incapaz de separar vida e cinema. A aventura cinematográfica, diz ele, se mistura com o real. Ele estava na Alemanha durante o período dourado da explosão do Novo Cinema Alemão na década de 1960. Entrou para o cinema através do trabalho como correspondente de um canal de TV germânico. Enquanto filmava, ia encontrando os temas e personagens que recheariam sua obra. Iracema, realizado para uma tevê alemã, surgiu de um trabalho fotográfico para a revista Realidade. Durante uma semana, ele permaneceu estacionado em posto de gasolina na rodovia Belém-Brasília. A Transamazônica ainda estava no começo, explicou, e ali era a entrada da Amazônia. Foi a partir da observação das prostitutas e dos choferes de caminhão que ele resolveu contar a história da estrada a partir de seus personagens.

Iracema é um dos faróis de Eryk Rocha, que conheceu o filme através de Orlando Senna, co-roteirista da história. Eryk encontrou em Iracema um desejo de ficção que tinha tudo a ver com sua busca naquele momento, quando preparava seu primeiro roteiro não documental. O filme, segundo ele, mostrava como se pode apagar as fronteiras entre documentário e ficção, como fazer uma dramaturgia a partir da realidade, como incorporar a cena no espaço público. Como criar, a partir da experiência e do acaso, um novo território. O acaso, diz ele, é essencial em seu trabalho. E quanto mais ele se prepara para o filme, maior a chance de conseguir lidar com as possibilidades do improviso. A partir da diferença e do encontro com o outro é que se torna possível pensar as particularidades de cada um. “Me ver a partir do outro foi o que o cinema me ensinou”.

Comentando sobre seus filmes-faróis, Jorge Bodanzky disse que suas escolhas foram orientadas não apenas pela linguagem dos filmes, mas também inspiradas por pessoas, como a experiência de assistir a Hiroshima meu Amor, de Alain Resnais, em um curso de Paulo Emílio Salles Gomes – “Passamos seis meses examinando esse filme todos os sábados, cada vez por um aspecto diferente” – , e por dispositivos, como aconteceu com o documentário Fata Morgana, de 1971. O filme, um ensaio de Werner Herzog sobre o efeito das miragens no deserto, foi assistido em uma projeção na Bahia. Chovia muito entre os espectadores e a tela, e quase não se conseguia escutar o som. “Ficou o impacto daquelas imagens simples a partir de um outro espaço. Foi o filme que me inspirou a criar”.

Já os faróis de Eryk são essencialmente guiados pelo cinema de montagem, a exemplo de O Homem com a Câmera, de Dziga Vertov, e Artavazd Pelechian (As Quatro Estações). Sobre esse último, Eryk destacou a montagem que cria relações de distanciamento e dilatação do tempo, além da percepção de uma sensorialidade extravagante e excepcionalmente cinematográfica.

Indagados pelo aluno de cinema da PUC, Marcelo Sancho, sobre o papel das novas tecnologias na renovação do cinema, ambos foram otimistas. Para Bodanzky, elas estão permitindo uma espécie de dessacralização do cinema, no sentido de que qualquer um pode se habilitar a contar sua própria história. Até então, as minorias e as populações locais costumavam ser interpretadas de fora para dentro. Hoje, diz ele, o processo inverso é possível. Para Eryk, a ideia de que o material é de fácil acesso e manipulação permite que várias funções sejam agregadas por uma mesma pessoa (dirigir, escrever e filmar, por exemplo). As pessoas filmam cada vez mais como se realizassem apontamentos, ou escrevessem diários íntimos. Para ele, esse processo recupera um pouco a ideia do realizador como artesão. “Sinto a câmera como um prolongamento do meu corpo, como a própria respiração. Com o tempo, é como se a realidade invertesse o olhar, e eu me sentisse observado, capturado pelo mundo que eu olho”.

É pelos olhos desses dois estrangeiros de si mesmos, porque sempre em uma relação de deslocamento pessoal a cada novo projeto, que o documentário brasileiro é cada vez mais um exercício de distanciamento e projeção do olhar para mares (ou estradas) nunca dantes navegados.

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Cliques célebres

A documentarista Daniela Broitman (Meu Brasil) tem alternado os trabalhos de produção de seu novo filme sobre Marcelo Yuka com a plateia dos encontros da Mostra Faróis. Na última terça-feira, ela clicou três mestres durante um jantar na Fiorentina e sugeriu as legendas:

Foto: Daniela Broitman

Segredos na Fiorentina

Foto: Daniela Broitman

Ricardo Miranda fala sério

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Os faróis das novas luzes

Durante o encontro de quarta-feira, na Sessão Novas Luzes, os diretores Zeca Ferreira, Vitor Souza Lima, Marcelo Caetano e Rodrigo Grota foram instados a enunciar seus filmes-faróis. A destacar a quase onipresença de Eduardo Coutinho, a dupla citação de Acidente e a convivência entre filmes clássicos e obras recentes que ainda caminham para essa condição. 

Eis as listas:

Zeca Ferreira (Áurea), Rio de Janeiro
Alemanha Ano Zero, Roberto Rossellini
Verdades e Mentiras, Orson Welles
Nelson Cavaquinho/Partido Alto, Leon Hirszman
Jogo de Cena, Eduardo Coutinho
Close Up, Abbas Kiarostami

Vitor Souza Lima (Mãos de Outubro), Pará
O Homem com a Câmera, Dziga Vertov
Edifício Master e o cinema de Eduardo Coutinho
Acidente e o cinema de Cao Guimarães
La Jetée, Chris Marker
Mãe e Filho, Alexander Sokurov

Marcelo Caetano (Bailão), São Paulo
Acidente, Cao Guimarães e Pablo Lobato
33, Kiko Goiffman
Pacific, Marcelo Pedroso
Cartola, Música para os Olhos, Lírio Ferreira e Hilton Lacerda
Cabra Marcado para Morrer, Eduardo Coutinho

Rodrigo Grota (Haruo Ohara), Paraná
A Paixão de Joana D’Arc, Carl Theodor Dreyer
Uma Mulher sob Influência, John Cassavettes
O Espelho, Tarkovsky
Serra da Desordem, Andrea Tonnaci
Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo, Karin Aïnouz e Marcelo Gomes
O Muro (curta), Tião

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Diálogo de titãs

Divirta-se e conheça boas histórias do cinema brasileiro vendo esses trechos da conversa entre Eduardo Coutinho e Vladimir Carvalho no último dia 14, na Mostra Faróis.

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Como nascem as estrelas

por Patricia Rebello

Curioso como nascem as estrelas: em nuvens de gás e poeira. Estilhaços circulando em um espaço vago e sem forma, e que em algum momento começam a girar em torno de si, cada vez mais rápido. A estrela nasce pra valer quando temperatura e densidade chegam a tal ponto que o que antes era amorfo e mudo se funde em forma.

Assim como na astrologia, no cinema também é mais ou menos desse jeito que nascem as estrelas. Não as estrelas de um star system que povoa revistas de fofoca, programas de auditório, e que alimenta uma rede onde a superfície e a aparência dispensam diálogo com o conteúdo. Mas as estrelas povoadas por outras estrelas, que nascem daquilo que as inspira, de ideias, imagens, sons e palavras que circulam dentro delas, girando em torno de si cada vez mais rápido, até que fragmentos se ligam e sentidos diversos começam a ser desenhados. Novas luzes, novas idéias.

O encontro entre novos realizadores no Oi Futuro, ontem, dentro da mostra Faróis do Cinema – Documentário Brasileiro, foi iluminado por faróis e estrelas.

Zeca Ferreira, Marcelo Caetano, Vitor Souza Lima e Rodrigo Grota são alguns dos recentes asteróides que iluminam o céu do cinema. Em um bate-papo super agradável, cheio de referências, trocas e confissões, se consolidou a certeza de que essa nova geração chegou disposta a atravessar fronteiras, desafiar convenções, ultrapassar limites, cruzar campos e pensar o cinema menos como forma de representação do mundo, mas como leituras de si a partir da superfície de mundo que lhes toca.

Zeca Ferreira, diretor de Áurea, contou que originalmente seu filme seria uma ficção. Em lugar de acompanhar o cotidiano e realizar entrevistas – caminho pelo qual enviesa boa parte dos documentários de perfis biográficos –, interessava a Zeca criar uma história sobre a vida da cantora Áurea Martins. Elaborar uma imagem do artista trabalhador, investir na performance da personagem, encenar o anonimato onde estão mergulhados centenas de artistas da noite: isso sim o estimulava. Até o dia em que, durante uma conversa com a montadora do curta, Luelane Corrêa (do ótimo Como se Morre no Cinema, de 2002), escutou a pergunta: “Mas porque você não assume que a personagem existe, e começa a inventar a partir daí?”. Zeca admite que, desse momento em diante, todas as suas convenções e certezas sobre os limites entre ficção e documentário foram balançadas. Áurea traz um pouco deste ‘abalo sísmico’.

Marcelo Caetano optou por investir na observação distanciada em Bailão. Mas, diferente dos filmes do cinema direto, que encontram nesse procedimento uma suposta imagem da objetividade, a observação no curta é necessariamente autoral, e por isso deslocada de qualquer sentido de isenção do realizador. O olhar do diretor encontrou no distanciamento uma forma respeitosa de se aproximar de seus personagens. E, com isso, conseguiu realizar um filme que foge de clichês e imagens-fetiche. Mais que uma observação onde se busca entendimento e decifração de códigos, disse ele, é um filme da palavra, que procura inscrever os personagens e suas falas nos espaços de suas vivências na cidade (São Paulo).

As duas paixões de Vitor Souza Lima se encontraram em Mãos de Outubro: o cinema, e a festa do Círio de Nazaré, que todos os anos, durante a segunda semana de outubro, revitaliza e reenergiza a cidade. “É o Natal dos paraenses”, disse ele. Inteiramente atravessado por um cruzamento entre cinema, arte contemporânea e fotografia, Mãos de Outubro, para Vitor, deveria sinalizar para um aspecto fundamental do ritual. Mais que desenhar uma etnografia do local, da cultura e dos personagens que habitam a procissão, Vitor queria explorar a dualidade entre espiritualidade e materialidade da festa do Círio. Percebeu que um dos lugares onde isso acontece é nas mãos dos participantes – seja as mãos que costuram o manto, as que seguram as cordas, as que enfeitam as ruas ou as que modelam ex- votos. Tirou daí emoção e força que muitos rostos não conseguem transmitir.

Haruo Ohara é o terceiro filme da trilogia de Rodrigo Grota sobre personagens que ‘você nunca vai saber quem são’. Junto de Satori Uso (2007) e Booker Pittman (2008), é o filme que coloca Rodrigo como um dos realizadores ponta de lança da nova subjetividade no documentário contemporâneo brasileiro. Em seus filmes, dificilmente são levantadas questões biográficas sobre os personagens, referências espaciais ou temporais, e mesmo separações definitivas entre documentário e ficção, verdades e mentiras. No entanto, talvez sejam poucos os diretores tão obcecados em falar sobre um determinado tema; no caso, uma cidade. Os personagens de sua trilogia são todos personagens de Londrina, sejam eles reais ou não. Da mesma forma, tanto podem ou não ser habitantes de uma Londrina real, ou mitológica. Equilibrando-se entre registro estético e histórico, intuindo conflitos dramáticos em biografias de não-acontecimentos, Grota escolhe mergulhar no que ele chama de universo imaginário dos personagens e, a partir daí, inventar suas próprias concepções.

Ensaiando entre o novo e o velho, a tradição e a renovação, a película e o vídeo, essas novas luzes no documentário contemporâneo acenam não apenas para a ampliação do sentido da imagem, mas para a ampliação do sentido da escrita com as imagens. Distanciamento, deslocamento, atravessamento, cruzamento; talvez sejam esses os novos processos do documentário brasileiro.

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Noite de política e poesia

Jorge Bodanzky e Eryk Rocha fazem hoje (quinta) mais um encontro da Mostra Faróis. Aliás, um dos mais esperados por reunir dois realizadores identificados com a experimentação na linguagem do documentário.

Bodanzky é autor, junto com Orlando Senna, de um superfarol do cinema brasileiro. Iracema – uma Transa Amazônica (1974) é citado como um filme decisivo não só por Eryk como por vários outros cineastas brasileiros que arregalaram os olhos diante da interação entre realidade e representação proposta por aquele filme seminal.

Por sua vez, o Pachamama de Eryk o liga a Bodanzky no gosto pela viagem, pelo deslocamento como motor de criação, pela busca de sentidos com base na política e na poesia. A conversa dois dois é uma aposta certa no documentário como aventura de construção cinematográfica.

Eryk vai poder aprofundar as motivações por que escolheu como filmes-faróis, além de Iracema, os docs etnopoéticos de Artavazd Pelechian e Nicolás Guillén Landrián, além de filmes de Vertov e Tomás Gutiérrez Aléa. Obras, por sinal, que estabeleceram uma relação complexa com o status quo dos países socialistas em que foram geradas.

Já Bodanzky terá a oportunidade de explorar suas opções por filmes tão diversos como o indiano Pather Panchali, o francês Hiroshima Meu Amor, o italiano A Árvore dos Tamancos e o brasileiro Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo.

Da mesa participarão também Marcelo Sancho, estudante de cinema da PUC-Rio, e o crítico Carlos Alberto Mattos, curador da mostra.  

Na Caixa Cultural, a programação do dia inclui alguns desses filmes, a saber:

15h30 – Ociel del Toa (Nicolás Guillén Landrián) + Nós e As 4 Estações (Artavazd Pelechian)
16h – Hiroshima Meu Amor (Alain Resnais)
18h – Pachamama
18h30 – Iracema – Uma Transa Amazônica + encontro

Para quem não vir ou revir Iracema, fica o aviso de que o encontro começa pontualmente às 20 horas.

Enquanto isso, o Oi Futuro em Ipanema encerra sua participação na Mostra com as seguintes reprises:

17h – Yndio do Brasil (Sylvio Back)
19h – Hércules 56 (Silvio Da-Rin)

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Cinema de pedra, de chita e de palavra

Carlos Alberto Mattos, Eduardo Coutinho, Vladimir Carvalho e Diego de Angeli. Foto: Conrado Krivochein

por Patricia Rebello 

Seja durante a projeção de um filme, durante os encontros entre os realizadores, ou mesmo nos corredores, entre uma sessão e outra, a invenção de uma discussão criativa entre quem faz e quem inspira revela, na mostra Faróis do Cinema – Documentário Brasileiro, uma atualização na maneira de pensar o documentário. Ao trazer para a cena as fontes de inspiração, a formação do olhar e do estilo, se aponta para um diálogo fundamental entre tempos, cinematografias e modos de enxergar o mundo. Faróis não apenas iluminam, mas traçam um facho de luz que cobre e, ao mesmo tempo, percorre distâncias.

Mas, o que acontece quando os faróis, habituados a lançar sua luz sobre outros, se encontram? Quem esteve ontem na Caixa Cultural e presenciou o encontro histórico entre Eduardo Coutinho e Vladimir Carvalho teve a chance de vislumbrar uma resposta. Além de experimentar um dos momentos mais ricos não só da mostra, mas da história do documentário brasileiro. É provável que eles não concordem com o superlativo: mais que um encontro entre faróis, para Vladimir e Coutinho foi um encontro entre amigos cujas carreiras se cruzaram em momentos fundamentais, e que têm poucas chances de se encontrar para um bate-papo. Juntos, eles recordaram episódios antológicos do cinema brasileiro.

Vladimir e Coutinho se conheceram durante as filmagens do primeiro “Cabra”, em 1964 (o projeto de ficção do CPC, que está na origem do Cabra Marcado para Morrer, realizado 20 anos depois). Com a interrupção das filmagens pelo movimento militar, Vladimir Carvalho foi encarregado de levar Dona Elizabeth para o Recife. Lá, ela ficou escondida na casa de um primo de Vladimir. Quando não foi mais possível mantê-la, disfarçada em um vestido de chita confeccionado pela esposa de Vladimir (“a mulher a gente tem sempre que pedir a benção”, diz ele) e com os cabelos oxigenados e óculos escuros (“parecia até uma mulher alegre… ainda tenho vergonha disso”), Dona Elizabeth foi levada para o município de Vitória de Santo Antão.

De volta ao Rio, sem emprego, Vlad procurou por Coutinho, que o apresentou ao cineasta Arnaldo Jabor. Desse encontro, surgiu o convite de Jabor a Vladimir para trabalhar como assistente de direção em Opinião Pública (1967), documentário sobre os moradores de um prédio de classe média em Copacabana. De volta à Paraíba, alguns anos depois Vladimir surge com O País de São Saruê (1970), documentário sobre a exploração de vaqueiros e trabalhadores da região do Rio do Peixe, na Paraíba, mas que, segundo ele, é absolutamente atravessado pela experiência de filmar o “Cabra”: no meio daquela gente explorada, ele encontrava a mesma força e a mesma determinação que moveram as ligas camponesas na luta contra o domínio do governo.

Não por outra razão, Cabra Marcado para Morrer é um de seus faróis. Além do filme de Coutinho, Vladimir também apontou em O Homem de Aran, de Robert Flaherty, e Borinage, de Joris Ivens, alguns temas que o fascinam enquanto cineasta: a luta do homem contra os elementos, a maneira como o trabalho se transforma em um instrumento de combate, a utopia do socialismo materializada em imagens. 

Já Eduardo Coutinho disse identificar em seus faróis aquilo que o fascina no documentário: o filme no presente, a magia de registrar o tempo enquanto ele acontece na frente da câmera e, fundamentalmente, da maneira como ele acontece; pescar na filigrana da imagem aquilo que surge, o inesperado, o irrepetível. A força da palavra, a força do aqui e agora, disse Coutinho, são a força do documentário, aquilo onde ele se desloca do mero registro das imagens. “Por isso eu detesto arquivo!”, disse. Cineasta de pontos de vista apaixonados e pensamento em erupção, ele voltou a essa questão do arquivo para pontuar que, se em documentário quase tudo é tão ficcional quanto nas próprias ficções, ele não vê sentido nos filmes que utilizam imagens de arquivo apenas como uma forma de criar lastro para uma ideia, enredá-las num real que, ele mesmo, não se sustenta por muito tempo. Da mesma maneira que critica o cinema underground pelo uso das imagens abstratas por elas mesmas, Coutinho disse se interessar apenas por filmes onde existe um diálogo com as possibilidades de narração.

Realizadores como Godard e Jonas Mekas, disse Coutinho, são singulares porque conseguem misturar imagens do presente e do passado e, neste gesto, atualizar tanto o conceito de arquivo quanto o de passado e de presente. De Claude Lanzmann (Shoah), exortou a potencialização das palavras e o fato de que o filme o fez sentir-se um herói ao cabo de uma exibição de nove horas.

Sobre uma possível edição em DVD de Cabra Marcado para Morrer, Coutinho anunciou o possível lançamento, até o ano que vem, através de uma ação da Cinemateca Brasileira. O negativo, muito deteriorado pela ação do tempo, está sendo restaurado e, em breve, talvez seja possível escutar maiores detalhes sobre essa que é uma das notícias mais aguardadas por cinéfilos de toda estirpe e cor. Mais: Coutinho falou que o entusiasma no projeto do DVD a possibilidade de revelar uma coleção de fotografias que Walter Carvalho realizou durante o processo de filmagem. Pretende também agregar um depoimento de Vladimir sobre o making of e a própria atualização dos personagens para o espectador: Dona Elizabeth, hoje com 85 anos, os poucos filhos que ainda restam vivos e os personagens que Coutinho encontrou na odisseia empreendida nos anos 1980, “se é que ainda tem alguém vivo”, disse ele.

De todos os seus fabulosos personagens, Dona Elizabeth é a única com quem Coutinho mantém contato. “Todo ano eu ligo para ela no dia de Natal”, contou ele. Assim, como Elizabeth, privilegiados foram os que ontem puderam escutar um pouco daquilo que constitui faróis inapagáveis do nosso cinema.

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Não perca as Novas Luzes

Este convite é para você comparecer logo mais à Sessão Novas Luzes, com distribuição gratuita da revista Taturana. Às 19 horas, no Oi Futuro em Ipanema. Clique na imagem para ampliar e imprimir.

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Os cabras se encontram

Um encontro histórico será presenciado hoje (terça) pelos frequentadores da Mostra Faróis na Caixa Cultural, logo em seguida à sessão de 18h30 de Cabra Marcado para Morrer. Salvo por uma única oportunidade na década de 1980, na Universidade de Brasília, Eduardo Coutinho e Vladimir Carvalho nunca se sentaram juntos numa mesa para conversar sobre seus filmes e suas admirações no cinema. E razões não faltavam para que isso já houvesse acontecido muitas vezes.

Vladimir e Coutinho certamente estão entre os dez maiores cineastas da história do cinema brasileiro – e mais seguramente ainda entre os cinco principais documentaristas. O caminho deles se cruzou pela primeira vez no ano de 1964, quando seu conhecimento do sertão nordestino e do líder camponês João Pedro Teixeira levou Vladimir a ser convidado por Coutinho para auxiliar na produção de Cabra Marcado para Morrer em sua primeira versão. Nas imagens finalmente montadas do Cabra em 1981, lá está a figura do jovem Vladimir batendo uma claquete na janela do casebre de Dona Elisabeth Teixeira.

Quando os militares tomaram o poder e o risco se avolumou para a equipe de filmagem do primeiro Cabra, Vladimir ficou encarregado de dar fuga a Dona Elisabeth, numa história rocambolesca contada no livro Vladimir Carvalho – Pedras na Lua e Pelejas no Planalto (Coleção Aplauso). O Cabra é hoje um dos filmes-faróis de Vladimir, enquanto o seu O País de São Saruê é farol de outros tantos documentaristas brasileiros. Esses dois clássicos estão no menu da Mostra.

Mas os dois mestres não vão falar apenas de seus filmes e dessa experiência conjunta. Vão comentar, sobretudo, o impacto que obras de Joris Ivens, Jonas Mekas, John Cassavetes, Robert Flaherty e outros tiveram em suas vidas e carreiras. A Mostra está exibindo alguns desses seus filmes-faróis. A programação de hoje é a seguinte na Caixa Cultural:

15h30 – A Pedra da Riqueza (Vladimir Carvalho) + O Homem de Aran (Robert Flaherty)
16h – O País de São Saruê
18h – Faces (John Cassavetes)
18h30 – Cabra Marcado para Morrer, seguido do encontro

Participarão da mesa também o crítico Carlos Alberto Mattos, curador da Mostra, e Diego de Angeli, aluno de cinema da PUC.

No Oi Futuro em Ipanema, ocorrem as primeiras exibições na Mostra dos docs de Maurice Capovilla e Octavio Bezerra:

17h – Bahia de Todos os Santos + Os Homens Verdes da Noite (Capovilla)
19h – Uma Avenida Chamada Brasil (Bezerra).

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Olha a Taturana aí!

Na próxima quarta-feira, às 19 horas, no Oi Futuro em Ipanema, a Sessão Novas Luzes vai reunir quatro curtas de novos realizadores recentemente premiados em grandes festivais. Saiba mais sobre eles aqui.

No mesmo evento, o paranaense Rodrigo Grota vai lançar o “6º corte” da revista Taturana, editada pelo Kinoarte – Instituto de Cinema e Vídeo de Londrina. Uma das poucas e boas revistas de cinema que ainda resistem em papel, com design visual ousado e textos de qualidade, a Taturana é assim apresentada por seus editores:

“A taturana foi criada em novembro de 2007 com o objetivo de estimular a reflexão sobre o cinema independente brasileiro, com destaque para o formato de curta metragem. Desde agosto de 2009 a revista tem periodicidade trimestral e conta com uma tiragem de 2 mil exemplares e distribuição gratuita em festivais de cinema – tudo graças ao patrocínio do Ministério da Cultura via edital Pontos de Mídia Livre. Esse patrocínio foi renovado para o biênio 2010-2011, a partir de um edital em que a taturana ficou em 1º lugar entre as 44 iniciativas aprovadas. Editada em sua maior parte em Londrina, a revista conta também com colaboradores de outros Estados e mantém um blog desde junho de 2008: http://revistataturana.com.

Nessa sexta edição a taturana traz uma entrevista e uma análise do filme Ex-Isto, produção mais recente do realizador mineiro Cao Guimarães; um balanço dos filmes brasileiros apresentados no recente Festival de Gramado; um depoimento da diretora de fotografia Heloisa Passos (Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo), um ensaio fotográfico de Anderson Craveiro; um comentário visual sobre o clássico O Cangaceiro, de Lima Barreto; um conto exclusivo criado para a taturana pelo escritor Marcos Losnak (editor da revista literária Coyote), a apresentação do documentário Galeria, dirigido pela londrinense Evelyssa Sanches; uma análise da obra da realizadora francesa Claire Denis; e um artigo inédito em português em que o diretor americano D. W. Griffith discute a linguagem do cinema. A revista, que será distribuída de forma gratuita no lançamento, conta com edição de Artur Ianckievicz, Roberta Takamatsu e Rodrigo Grota, projeto gráfico de Felipe Augusto e Guilherme Gerais, produção de Bruno Gehring, e colaboração gráfica de Anderson Craveiro, Bruno Bérgamo, Fábio Augusto, Katy Kakubo e Natália Turini”.

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Potencialidades do documentário

Veja trechos do encontro com Bebeto Abrantes:

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O homem do tempo

por Patricia Rebello

O tempo e a representação do outro foram as duas principais questões que atravessaram o segundo encontro da mostra Faróis do Cinema – Documentário Brasileiro. O encontro deveria reunir os realizadores Bebeto Abrantes e Sandra Werneck. Entretanto, por motivos de doença na família, Sandra ficou impossibilitada de comparecer. Participaram do bate-papo, além de Bebeto, o curador da mostra e crítico de cinema Carlos Alberto Mattos e a aluna do curso de cinema da PUC, Paula Campello. Ainda que não estivesse presente fisicamente, Sandra em momento algum deixou de estar nas discussões da noite. Ela e Bebeto Abrantes, parceiros de longa data, dividem roteiros e a direção de vários documentários, curtas e longas. Além de dividirem filmes, os dois dividem também temas, personagens, preocupações e interesses muito similares, como a poesia e as questões da violência, sobretudo da criança e do adolescente, no Brasil.

Logo no começo do debate, Bebeto comentou o impacto que sentira ao assistir à sessão que reuniu Guerra dos Meninos (1991), de Sandra, e Até quando? (2005), dele mesmo e de Belisário Franca. Observar os dois filmes à luz da distância que os separa, pensar a partir desta perspectiva, fez surgir ainda mais elementos de reflexão. Há certas coisas, disse ele, que apenas o tempo permite enxergar, como o alargamento das fronteiras da violência, e das formas de compreensão de como a realidade social e urbana se transforma. A própria instalação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) nos morros cariocas representa, para ele, um terceiro momento, uma virada na forma como a questão da violência é metabolizada pelo cotidiano.

De sua experiência de trabalho com Sandra Werneck, Bebeto ressaltou como uma das maiores virtudes da diretora a sensibilidade aguçada para pegar no ar temáticas de forte apelo, que estão aí, à espera de alguém que se ocupe de investigá-las e de pensá-las. Foi assim com Guerra dos Meninos, da mesma maneira como quando ela filmou travestis (Ritos de Passagem/1980) e prostitutas (Damas da Noite/1987), em um momento onde esses assuntos eram tratados de forma velada e em abordagens muito tímidas. Foi também dessa forma com Meninas (2005), cujo roteiro é de Bebeto, quando ela pescou no ar a questão da precocidade da gravidez. Não que ninguém antes tenha se preocupado em falar sobre isso: a questão é que não havia preocupação em pensar essas questões, e principalmente, pensar as imagens e os roteiros que essas questões escrevem na vida de seus personagens. Segundo Bebeto, isso foi uma coisa que ele aprendeu com Sandra: é preciso ter sensibilidade para pegar no ar um assunto que esteja em busca de um narrador, e dar a ver uma forma de falar sobre ele.

Indagado sobre a questão ética, Bebeto disse que essa questão nunca está ausente no trabalho e nas reflexões do documentarista. Saber até onde ir, o que filmar, como filmar, olhar sem julgar, sem moralizar, são situações com as quais o realizador precisa lidar quase cotidianamente. No entanto, interviu Carlos Alberto, é preciso ter cuidado para que o excesso de zelo com o personagem não termine por falsear a própria realidade. Sempre existe no limite desse cuidado, disse Mattos, o perigo de trair o próprio filme no intuito de preservar o personagem.

O que fascina esse experiente diretor no ofício do documentário, de olhos jovens e sem marcas ou calos, e que ainda se emociona e se entusiasma com as imagens, é a negociação com o tempo: das coisas, das esperas, das pessoas, dos mundos que ele decide filmar; respeitar o tempo dos outros, compreender o tempo do silêncio e o tempo da fala; aguardar o tempo se manifestar de forma silenciosa perante a câmera. O tempo, diz ele, é quase sempre um protagonista das histórias de um documentário, e quanto mais bem preparado está o diretor para se deixar levar pelos imprevistos, os desvios, os acontecimentos inesperados, melhor se produz essa relação. Durante as filmagens de Meninas, Sandra se preocupava com o fato de que nada acontecia na vida das jovens grávidas. Se o roteiro original previa vidas com enredos repletos de conflitos e ações, o cotidiano das filmagens revelava vidas pacatas, sem acontecimentos nem episódios ‘cinematográficos’. Era preciso filmar a espera, disse Bebeto, filmar esse ‘nada’, que, ao longo do tempo, foi se transformando em um lugar de conversa, um espaço de observação e de recuo, como definiu no alvo Carlos Alberto. A própria linguagem do filme foi sendo modificada pela forma como o tempo acontecia para as protagonistas.

Sobre seus filmes faróis, Bebeto ressaltou em Ana Cristina César – poesia é uma ou duas linhas e por trás uma imensa paisagem (1990), a forma como João Moreira Salles comseguiu, com tão poucos elementos, criar um retrato impactante de poeta. O uso da película Super-8, diz Bebeto, traz de volta uma magia do cinema capaz de produzir ´imagens com memória´, onde o tempo se inscreve na superfície granulada. Foi com este filme que Bebeto encontrou diálogo durante a construção de seu Recife/Sevilha: João Cabral de Melo Neto (2003). Salve o Cinema, de Mohsen Makhmalbaf, de 1995, farol que ele divide com Sandra Werneck, é para Bebeto um metacomentário da própria relação do diretor com o ator de cinema, seja ele documentário ou ficção. O País de São Saruê (1970), de Vladimir Carvalho, o seduz pela forma como o diretor se desloca do confortável lugar atrás da câmera para a frente dela, e se torna ele mesmo um personagem do filme: um personagem criador de dissensos, e cuja função é intervir diretamente, através de sua presença, no discurso que está sendo construído em cena. Também o instigou o deslocamento no sentido das imagens produzido por Vladimir, que atravessou som e fotografia de maneira disjunta para criar uma percepção singular de uma realidade dura do nordeste do Brasil, em 1970.

Um pouco como seu personagem, João Cabral, Bebeto Abrantes escolhe aprender pela pedra: aprender pela resistência dos personagens às situações que lhes atravessam, e à qual são submetidos. Porque faz menos sentido para o documentarista modificar uma realidade da qual se aproxima do que ser modificado por ela e transpor esse próprio movimento para o filme.

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Faroleiros na berlinda

Veja alguns momentos do encontro com Sylvio Back e Silvio Da-Rin

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Sandra encontra Bebeto

Depois de um bate-papo antológico com Sylvio Back e Silvio Da-Rin na última quinta-feira, Sandra Werneck e Bebeto Abrantes fazem hoje (sábado) o segundo encontro da Mostra Faróis. Participam da mesa Paula Campello, aluna do curso de cinema da PUC, e o crítico Carlos Alberto Mattos como mediador.

Há muitas razões para se esperar uma conversa de primeira. Sandra e Bebeto têm um histórico de ótimos documentários ligados a questões culturais e sociais. Já trabalharam juntos no roteiro de vários filmes de Sandra, entre os quais Meninas (a ser exibido antes do encontro), Profissão; Criança e o momentoso curta Pornografia, codirigido por Murilo Salles. Outros docs acabaram criando vínculos virtuais entre os dois realizadores. O tema da violência contra crianças e jovens foi tratado por Sandra em Guerra dos Meninos e por Bebeto em Até Quando?, médias-metragens também programados na Mostra.

O misto de documentário e ficção iraniano Salve o Cinema é um título comum aos Faróis dos dois cineastas, e fatalmente será abordado no encontro. Bebeto certamente vai explicar como Ana Cristina César, de João Moreira Salles, lhe tocou tão profundamente a ponto de hoje percebermos o diálogo existente entre aquele filme e o seu Recife/Sevilha – João Cabral de Melo Neto. Outro farol de Bebeto presente na Mostra é O País de São Saruê, de Vladimir Carvalho.

Sandra, por sua vez, deverá falar de sua admiração por Jean Rouch e uma ficção etnográfica como Pouco a Pouco, seu farol incluído na programação, assim como O Homem com a Câmera, de Dziga Vertov.

A programação do dia na Caixa Cultural gira em torno dos dois cineastas e seus respectivos faróis:

15h30 – Pouco a Pouco

16h – Ana Cristina César + Recife / Sevilha – João Cabral de Melo Neto

18h – Guerra dos Meninos + Até Quando?

18h30 – Meninas, seguido do encontro 

Fica o alerta para os espectadores: levem casaco, pois o ar condicionado dos cinemas da Caixa funciona de verdade. A programação no Oi Futuro em Ipanema será retomada na terça-feira próxima.

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Os Indios e os Hércules da história de um certo cinema brasileiro

Sylvio Back e Silvio Da-Rin: olhar à distância. Foto: Conrado Krivochein

por Patricia Rebello

É possível que o Yndio do Brasil tenha sido descoberto por Orson Welles, e que sertanistas brasileiros tenham desembarcado do mesmo avião que trouxe os presos políticos alforriados pela ação de uma geração jovem contra a ditadura na década de 1960. Foi em um mergulho de idas e vindas entre passado e presente, ficção e realidade, que se desenrolou o bate papo entre Sylvio Back e Silvio Da-Rin, na noite do primeiro encontro da mostra Faróis do Cinema – Documentário Brasileiro.

Olhar a partir da distância e, principalmente, pensar como a distância constrói imagens e discursos, talvez seja a característica em comum dos realizadores de Yndio do Brasil (1995) e Hércules 56 (2006), cada um à sua maneira. Seduzido pela força da imagem, Sylvio Back aponta, em seus faróis, obras onde a narrativa é um verdadeiro tour de force entre o realizador e a forma como se apropria de imagens alheias. Atento aos sussurros da memória e aos imperceptíveis movimentos que deslocam o presente em direção ao passado, Da-Rin elegeu como guias filmes onde é latente a urgência do cinema em abrir mentes, seja pelas inovações estéticas, seja pela coragem que imprimiram em seus discursos. Ambos os realizadores se concentraram em obras que tiveram um papel definitivo na formação de seu olhar de cineasta, que se inscrevem em sua gênese de percepção da imagem cinematográfica. Daí o recorte por títulos mais antigos nas duas listas.

Para contar uma história sobre como o cinema vê o índio brasileiro, Sylvio Back se debruçou sobre uma enorme compilação de imagens nacionais e estrangeiras, encontradas em filmes de ficção, documentários e cinejornais. Singular na maneira como articula imagens de arquivo, característica fundamental de sua filmografia, Back se especializou na criação de discursos irônicos e provocadores. Essencial, diz ele, é não levar o espectador pela mão, e sim convidá-lo a uma reflexão, produzir nele o questionamento a partir de uma atração e de uma colocação inusitada. Associando o Orson Welles de É Tudo Verdade à dupla Paulo César Saraceni-Mário Carneiro de Arraial do Cabo, assumindo a transcendência da imagem na relação do cotidiano com o arquivo, Sylvio Back se diz um pouco decepcionado com a produção contemporânea brasileira. Falta dissenso, diz ele, falta levar um pouco de angústia ao espectador para tirá-lo da confortável relação de consumo com o cinema.  

Acerto de contas de uma geração, preenchimento de fissuras, retorno a erros e acertos, percorrer o fio da memória e a experiência da lembrança são alguns dos vetores que nortearam Silvio Da-Rin a retomar de forma criativa um dos capítulos mais marcantes da história contemporânea do país. Ao retroceder até o sequestro do embaixador americano em 1969 a partir do eco das vozes que participaram diretamente do episódio, Da-Rin empreende uma reflexão sobre a história brasileira menos como monumento que como documento, na medida em que tudo é possível de se colocar em questão, e por isso passível de reavaliação, revisão e reescritura. Para além de abrir arquivos da ditadura, é preciso abrir o próprio passado à luz do presente. Realizador de retinas calejadas (segundo ele próprio) e ouvidos de lince (é um dos mais respeitados técnicos de som do país), encanta a Da-Rin a possibilidade singular do cinema de desvendar mundos e saltar sobre a História (com H maiúsculo mesmo). Trabalhando em seu próximo filme, que mergulha na mudança do paradigma indigenista brasileiro, Da-Rin submerge, mais uma vez, em uma chave complexa para a compreensão da história do país. Documentaristas são movidos por uma força interna, diz ele, por uma paixão pelo desconhecido que habita as imagens e por aquilo que elas são capazes de mover e transformar no espectador.

Mais que dividir um nome, os dois Si(y)lvios dividem essa paixão por contar histórias que despertem para o pensamento, que mobilizem para a ação, e que tornem seu espectador melhor – não porque mais informado, mas porque encorajado a experimentar um cinema a partir de sua própria capacidade intelectual.

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Comerciais, por favor

Esses são os três comerciais exibidos nas sessões Mário Carneiro da Mostra Faróis. Foram muitos os anúncios publicitários dirigidos por Ricardo Miranda e fotografados por Mário Carneiro nos anos 1980. A três peças acima, produzidas para a Agência Contemporânea, se caracterizam por serem planos-sequência em que a luz e a cor têm papel preponderante. Em dois deles, a estrela é a atriz Nina de Pádua. Obrigado a Ricardo pela gentileza de nos fornecer essas pérolas.

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Silvio encontra Sylvio

Hoje (quinta) acontece o primeiro encontro da Mostra Faróis. Silvio Da-Rin e Sylvio Back conversam entre si e com o público logo após a sessão das 18h30 de Hércules 56 na Caixa Cultural.

A programação do dia na Caixa prepara o clima para o bate-papo da noite. Às 15h30, passa O Homem com a Câmera, de Dziga Vertov, farol de Da-Rin e de outros tantos documentaristas brasileiros. Às 16h, na outra sala, rola Yndio do Brasil, visão irreverente de Back para a imagem do índio no cinema brasileiro. Ele partiu de uma frase atribuída ao grande cinegrafista Richard Leacock: “Índio bom é índio filmado”. Às 18h, será a vez de Corações e Mentes, o clássico doc de Peter Davis sobre o inferno moral da América durante a Guerra do Vietnã, um dos filmes-faróis de Back.

Se nem na grafia dos prenomes, Silvio e Sylvio são idênticos, eles também se distanciam bastante nos filmes que fazem. Da-Rin é autor de um cinema chegado ao racionalismo e de propostas identificadas com as lutas sociais e políticas. Back, por sua vez, apresenta-se como um cineasta sem ideologia e se vale ora da ironia, ora da poesia para opor-se à chamada História oficial. Os faróis de cada um (veja no menu à direita) também são bastante diferenciados. Da-Rin privilegiou filmes brasileiros, enquanto Back apontou apenas filmes estrangeiros.

Mas a diversidade dessa dupla agora tem um ponto de interseção. Back já fez um filme sobre os horrores da representação dos índios pelos não-índios. Da-Rin prepara-se para filmar Os Sertanistas enfocando a tese do não-contato com os indígenas isolados.

Do encontro participarão também o estudante de cinema Theo Dubeux, da Escola Darcy Ribeiro, e o curador-mediador Carlos Alberto Mattos. As portas estarão abertas também para quem não estiver nas sessões de filmes. O papo deve começar por volta de 20h.

No Oi Futuro em Ipanema, a programação de hoje inclui, às 17h, O País de São Saruê e o curta A Pedra da Riqueza, de Vladimir Carvalho; e às 19h, Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho. Os dois diretores estarão juntos no encontro do dia 14.

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